In the Mouth of Madness e como a metalinguagem ajuda um filme de terror.

Existem convenções de cinema e gêneros que vão bem que nem pão com manteiga. O que significa que nasceram para andar lado a lado e todo mundo sabe disso. Coisas como, comédias românticas e pessoas escutando acidentalmente uma conversa da pessoa amada fora de contexto e interpretando errado e sofrendo. Ou filmes de ação e frases de efeito estilosas e engraçada,

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“Lembra quando disse que ia te matar por último? Eu menti.”

E tem convenções e gêneros que vão vem que nem pão com ovo. O que significa que é uma combinação igualmente perfeita, mas existe uma parcela da população que não sabe disso. Como a combinação de filmes de terror e metalinguagem.

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Uma cena magnífica em um filme magnífico.

Os filmes de terror com metalinguagem, também conhecidos como o subgênero metaterror, estão aí na atividade desde os anos 60, mas nos 90 eles ganharam uma força graças ao sucesso do excelente filme Scream do finado, Wes Craven. E após atingir o seu auge em Cabin in the Woods eu imagino que o subgênero como conhecemos tenha morrido de vez. Afinal Cabin in the Woods literalmente zerou e platinou tudo que sabíamos sobre o gênero, para onde ir depois disso?

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Pode-se gostar ou não gostar de Cabin in the Woods(eu gosto), mas não sobrou realmente convenção de filme de terror não debatida após esse filme. Qualquer filme posterior a tentar usar metaterror vai acabar sendo comparado com Cabin in the Woods.

Pois bem, primeiro eu quero falar um pouco sobre a relação entre a metalinguagem e o cinema. O cinema, partindo do pressuposto dele como uma mídia de entretenimento – eu considero filmes arte, mas vamos deixar eles de lado por um instante – são uma fonte de escapismo. Duas horas em que escolhemos esquecer de tudo que acontece em nossa vida, para nos distrair com essa história de duas horas que exige um bocado de licença poética e uma boa suspensão de descrença, mas que ainda sim nos permite entrar em outro mundo e sair do nosso.

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E é o grande motivo pra embora todo mundo reclame, insistirem tanto no cinema 3D, o objetivo primário da tecnologia é aumentar a imersão no mundo do filme e o escapismo do nosso..

Pois bem, a metalinguagem é inimiga disso. Ela não deixa você entrar no mundo do filme, pelo contrário ela te lembra constantemente “ow, mas lembra que isso tudo é só um filme, e você não tá com a gente, você tá na sua casa no Netflix e sua vida ainda existe ao seu redor.” e isso pode desempenhar várias funções. Pode gerar um comentário social, pode gerar humor, pode até gerar tragédia. Mas pode gerar medo? Pode genuinamente gerar terror? Aliás, o objetivo do terror não é justamente o contrário, a imersão completa?

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Parece que ela está fazendo alguma coisa muito parecida com o que o cara na imagem do Avatar acima está fazendo. Mas ela está fazendo o extremo oposto.

Afinal é pra isso que tantos filmes de terror vão a distâncias absurdas pra tentar parecer realistas e fazer você acreditar que vive no mundo do filme. Desde filmar com câmeras que permitam o formato found-footage ou insistir que aqueles filmes de exorcismo em que o padre e o diabo só faltam conversar pessoalmente, são todos inspirados em fatos reais muito comprovados e verídicos.

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O Vaticano tentando barrar um filme de exorcismo desse nível? Os caras tentam tanto que chega a forçar a barra.

Afinal pra realmente termos medo de criaturas como o Jason, ou zumbis ou de demônios, não temos que realmente adentrar aquele universo e esquecer que vivemos no mundo real para acreditarmos nessas criaturas por um instante? E a metalinguagem não vai quebrar tudo isso? Qual o ponto?

Pois é. Existem essencialmente dois tipos de filmes de metaterror. O primeiro tipo são dos filmes que pendem pra comédia e pra sátira do gênero. Entram no mérito dos casos em que a metalinguagem traz humor ao filme. Isso se aplica a casos como Gremlins 2, Seed of Chucky, Rocky Horror Picture Show, Scream e principalmente Cabin in the Woods. Além de casos que nunca se mascararam de terror que já começaram na comédia como Zombieland e Shaun of the Dead. Eles evidenciam as galhofas dos filmes do gênero enquanto as cometem, e como reconhecemos as galhofas, achamos engraçado.

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Porém pender pra comédia é sempre perigoso, pois pode fazer o filme perder completamente o espirito de “filme de terror”, e uma vez perdido, ele não volta mais. É parte do motivo pelo qual tanta gente se desapontou com Cabin in the Woods.

O segundo tipo de filmes de metaterror são os que usam metalinguagem pra falar do sadismo de sua audiência, e aí cai no uso de comentário social. A metalinguagem serve pra evidenciar que o filme só existe, pois existe um público, e o único motivo pelo qual coisas horríveis acontecem com os personagens é porque demandamos que coisas horríveis aconteçam com os personagens. Ou seja, nós vemos um filme de Terror com uma mulher loira bonita no pôster para saciar nosso desejo de vê-la ser esfaqueada e brutalmente assassinada, e é essa a função dos filmes de terror na sociedade. Filmes como Rubber e Peeping Tom trabalham esse tema, além de novamente Cabin in the Woods, Scream e o melhor exemplo do caso Funny Games, que nos apresenta a solução: Se a gente para de assistir ao filme, a gente salva a vida de todos os personagens, pois aquelas mortes só existem enquanto assistimos, e aquela gente só morre, pois desejamos suas mortes. Esse é o segundo caminho pelo qual o metaterror caminha.

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Essa cena! Tiraram ela quando fizeram o remake americano de Funny Games e eu senti que ao perder essa piscada o filme perdeu 30% de sua força. Uma bela de uma piscada.

Eu vou ser sincero. Eu gosto dos dois tipos de metaterror. Sou um grande fã de metalinguagem, gosto de rir de filmes que evidenciam seus tropes enquanto os cometem, e gosto muito de repensar como todo filme de terror presume que o expectador é um cúmplice do assassino, e a necessidade dessa cumplicidade pro gênero funcionar. Mas eu vim até esse texto pra falar do terceiro tipo. O tipo em que a metalinguagem ajuda o filme a ser assustador, e colabora diretamente pro filme de terror. Para esse exemplo, eu pessoalmente só conheço quatro exemplos de filme, é o tipo mais raro e o mais interessante.

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Essa cena agoniante, boa parte do que torna ela agoniante é a metalinguagem por trás do filme. Sem essa camada ela seria tão descartável.

Se o leitor inclusive conhecer mais filmes assim, fique bem-vindo a sugerir nos comentários, pois eu gostaria muito de conhecer, mais exemplos.

São esses filmes Wes Craven’s New Nightmare (que pode ser chamado também de A Hora do Pesadelo 7 pra facilitar a vida.), Scream (que como franquia fodona que é participa de todos os tipos, aqui no blog mesmo, tem um texto sobre porque o filme se mantém assustador apesar de toda a galhofa e humor), The Ring (tanto o original quanto o remake americano), e o tema central do texto In the Mouth of Madness.

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Mas daqui a pouco eu começo a falar desse filme.

Esse terceiro tipo tem uma maneira muito interessante de usar a metalinguagem. Vamos por um momento imaginar que aquela linha que separa a vida real da ficção que todo mundo pode ver, mas umas pessoas podem ver melhor que outras, a chamada quarta parede, vamos imaginar que ela é uma linha muito literal e que de fato está riscada no chão quando vemos um filme. Estamos sentados no nosso sofá ou na cadeira de nossa escrivaninha de um lado da linha e o filme que vemos está do outro. Portanto estamos seguros vendo o filme, pois absolutamente nada pode cruzar essa linha, ela é não cruzável, nos atingir aqui no plano da realidade, onde nada que existe em um filme existe mesmo. Pois bem, o método tradicional de um filme de terror (ou de um filme padrão hollywoodiano), é nos fazer esquecer que estamos no lado da realidade e acharmos que nós cruzamos a linha e estamos naquele mundo, onde a Anabelle existe e pode nos matar.

Mas o que esses filmes fazem é o oposto. Eles zombam do nosso senso de segurança com a seguinte hipótese: e se nossos personagens cruzarem a linha e irem até você? E aí? E é na que a metalinguagem que os perigos do filme reconhecem que estarem em um filme é a única coisa que os separa de você, e propõe acabar com a separação, é nessa parte que eles pegam o expectador. Se usamos a quarta parede como um escudo que nos protege de tudo que acontece em um filme, ao se quebrar a quarta parede, se quebra o nosso escudo.

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Ou resumindo tudo isso em uma imagem.

Classe.

E esse pra mim é justamente a melhor maneira de empregar metalinguagem em um filme de terror, não para zombar do filme, nem pra zombar do expectador (embora as duas zombarias sejam bem-vindas), mas pra zombar do nosso suposto senso de segurança, de acreditarmos que na vida real somos intocáveis pela ficção. E pra mim o melhor exemplo disso é In the Mouth of Madness, um dos meus filmes favoritos, que vamos analisar nesse texto.

O filme conta a história de John Trent, um investigador freelancer que investiga e desmascara fraudes de seguros. Ele é freelancer, mas é tão bom no que faz que querem dar pra ele um emprego fixo, mas ele sempre recusa, pois ele é o próprio chefe e não aceita que controlem o que ele faça. Lembrem disso, pois é importante.

Mas o importante é que ele é contratado para investigar o desaparecimento de um escritor chamado Sutter Cane, um escritor que escreve livros de terror cósmico em uma homenagem muito clara ao H. P. Lovecraft, mas que no filme é também um fenômeno da cultura pop com uma legião de fãs aguardando ansiosamente os próximos livros e uma exposição na mídia que o faz mais parecido com o Stephen King. Imaginem a figura pública do Stephen King, mas só escrevendo conteúdo do Lovecraft, esse é Sutter Cane.

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E esse escritor teria acabado de lançar seu último livro, e o público já está sedento de hype pelo seguinte. Confusão, porrada e violência nas livrarias onde não conseguem fazer a pré-ordem, e tudo muito caótico. O próprio Trent nem prestava muita atenção no Sutter Cane até ser atacado por um homem com um machado em uma cafeteria enquanto conversava, o cara encarou Trent e lhe perguntou “Você lê Sutter Cane?” antes de quase tirar a vida do protagonista (felizmente uns policiais mataram o sujeito antes).

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“Você lê Sutter Cane?”

E aparentemente esse cara não foi o primeiro a ler o livro e surtar e começar a matar gente. É um boato conhecido que os livros de Cane são tão pesados e assustadores que alguns leitores enlouquecem completamente. O que acaba sendo só mais publicidade para esses livros ficarem controversos e virarem best-sellers ainda maiores.

Pois bem, depois de quase ser assassinado por um leitor, Trent resolve assumir o caso da investigação do sumiço de Cane, só pra descobrir que não era um leitor, era o próprio agente de Cane que surtou e saiu por aí com um machado. Trent acha que é um golpe publicitário, em que o próprio Cane simulou um desaparecimento só pra aumentar as vendas de seu tão aguardado próximo livro, que se chamará “In the Mouth of Darkness”. Trent é um investigador, ele tem sempre respostas racionais pra tudo, e confia muito em sua inteligência, e poder de dedução.

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O fato da editora de fato estar fazendo um marketing fodido antecipando esse livro novo só aumenta as suspeitas de Trent.

Ele tenta recusar, mas acaba aceitando o caso convencido por Linda Styles, que trabalha na editora que pública os livros. Ele então compra alguns livros de Cane pra ler, acreditando que pode achar uma pista neles.

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“A obra de Cane é notável por causar reações nas mentes mais fracas.” “As pessoas pagam dinheiro pra se sentir assim? Essa merda vende mesmo?” “Mais do que você imagina. Por que não dá uma lida, vê se você entende.” “Não saiu nada em filme?”

E bem, aparentemente o cara é bom, pois Trent dorme lendo e tem uns pesadelos tensos, reimaginando um policial que ele via visto espancando um grafiteiro mais cedo, todo deformado e testemunhando uma comunidade assassinando brutalmente o agente de Sutter Cane. Mas enfim, meros sonhos.

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Agora ele acordou e finalmente achou a pista. Todas as capas dos livros se postas juntas formam um mapa indicando uma cidade: Hobb’s End,, coincidentemente a cidade que serve de cenário pro mais recente livro de Cane “Hobb’s End Horror”, que é onde Trent acredita que Cane se escondeu. Trent quer is pra lá pessoalmente conferir se Cane está lá, e a editora manda Linda junto pra ajudar.

No caminho a dupla estabelece sua diferença central, onde Linda afirma que ela se assusta lendo os livros de Cane, mas Trent não, pois Trent é muito racional e sabe que aquilo não é parte da realidade, e que a realidade é tudo o que existe. Linda não concorda, e explica exatamente o que ela acha assustador nos livros.

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“O mais cedo que abandonarmos essa Terra, melhor.” “Agora você está falando que nem Cane.” “Não olha pra mim, você que ama o Cane.” “Eu gosto de ficar assustada.” “O que tem pra se assustar? Não é como se fosse real.” “Não é assustador no seu ponto de vista, e no momento a realidade possui o seu ponto de vista. O que me assusta é como ficaria o mundo se a realidade passasse a ter o ponto de vista dele.”

E depois de uma viagem de carro bem creepy com direito a um ciclista sinistro, e a um momento em que Linda não conseguia mais ver a estrada, eles chegam a Hobb’s End, e de boa. Foda-se aquela doideira medonha do ciclista no caminho. Chegaram na cidade e tudo parece normal. E se hospedam em um hotel administrado por uma simpática senhorinha.

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Linda, como uma fã dos livros de Cane, logo reconhece que tudo que eles encontram é idêntico ao conteúdo dos livros, incluindo o Hotel. Só que nos livros, a simpática Sra Pickett é uma maníaca que picotou o marido, e aqui ela parece adorável. Trent acha que Linda está viajando, e então os dois vão visitar uma igreja que aparece descrita nos livros de Cane.

Na igreja eles testemunham uma multidão armada ser atacada por cachorros enquanto brigam com um menininho aparentemente sobrenatural que aparentemente é o próprio Cane. Trent fica em choque vendo isso. Ele concluí que a cidade inteira deve ser o palco pra uma peça publicitária e que Linda deve ser cúmplice. Que a editora sumiu com Cane só pra fazer algum investigador achar uma suposta cidade assombrada e vender mais livros.

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Linda nega e fala que a editora quis fazer Cane desaparecer pela publicidade, mas quando ele de fato nunca mais voltou, eles se preocuparam e a pagaram um investigador era só pra poderem dizer que tentaram achá-la, mas ela insiste que ela não tem nada a ver com as doideiras que Trent viu.

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“Styles, eu espero que você esteja mentindo pra mim, pois se não estiver, você é realmente louca.”

Enfim, Trent foi explorar a cidade e testemunhar mais bizarrices acontecendo. Ele conversa com um habitante que está vendo a cidade ser tomada pela insanidade, e Trent acredita que ele seja só um ator nesse grande golpe… Enquanto Linda vai confrontar Cane diretamente, acreditando que se a cidade está sofrendo as consequências de suas histórias, então que é nele que está a chave pra parar os eventos. E o escritor revela a sua fã que ele terminou seu livro “In the Mouth of Madness”, e dá para ela ler. Seus olhos sangram quando ela termina de ler, e ela desiste completamente de contrariar o autor, ela se rende completamente a ele.

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Quando Trent reencontra Linda ela não está mais falando coisa com coisa e ele enfim começa a ser realmente testado em sua convicção de que está vivendo a realidade e não uma obra de Sutter Cane. Ele vê a Sra Pickett picotando o marido, e a cidade tomada pela loucura com todos portando machados, que nem ele havia visto em seu pesadelo. Ele se refugia em um bar onde encontra o mesmo habitante que ele havia julgado ser um ator, todo ensanguentado.

O cara solta a real pro Trent, que ele já não lembra o que veio primeiro, eles ou o livro, e que ele não sabe se o livro existe por conta deles ou se eles existem por conta do livro. Trent insiste que aquilo não pode ser realidade, e o cara responde “realidade não é o que já foi.” e se suicida na frente de Trent com um tiro na cabeça.

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“Não faça isso.” “Eu preciso. Foi como ele me escreveu.”

Trent sai do bar, onde encontra Linda e uma multidão com tochas e ancinhos atrás dele. Linda está agindo feito louca, mas Trent enfia ela no carro e está determinado a sair de Hobb’s End antes que ele seja obrigado a admitir que aquilo tudo está acontecendo mesmo. Linda começa tentar beijar Trent no meio do caminho alegando ser o desejo de Sutter Cane (“vai ser melhor pro livro”, ela dizia), até Trent parar o carro, lá perto da parte onde tem o ciclista medonho Então Linda saí do carro e começa a andar exorcista-style, e Trent pensa “foda-se” e larga Linda no meio da estrada com o ciclista, ele quer voltar pra sanidadelândia.

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Eita porra!

Mas advinha onde a estrada pra sair da cidade dava? Ganha um biscoito quem adivinhar… Isso mesmo, pro meio de Hobb’s End.

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Ele tenta de novo, dirige pra saída, acha Linda andando de bicicleta com o cara medonho, e bum!! Meio de Hobb’s End com a multidão e as tochas!! Fodeu Trent, não tem como fugir. Vai fazer o que agora? Bom, ele tenta atropelar todo mundo pra ver o que acontece, mas Linda tava na multidão e ele não consegue atropelá-la então bate o carro. Ué, mas ela não ficou na estrada? Nada mais faz sentido pra Trent.

Ele acorda em um confessionário numa igreja. Ele está assustado e está perdendo a base de no que pode se apoiar. Do outro lado do confessionário está Sutter Cane prestes a explicar pra Trent o que estava acontecendo, mas será que ele consegue?

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“Sabe qual é o problema com religiões em geral? Nunca se sabe como retratar a anatomia do horror. A religião busca a disciplina através do medo, mas não entende a verdadeira natureza da criação. Ninguém nunca acreditou o suficiente pra tornar real. O mesmo não pode ser dito do meu livro.”

Cane compara seu trabalho com as religiões. Ele afirma que as religiões deram errado, pois a própria religião não entende os conceitos que eles tentam pregar antes de passar pros fieis e isso é incapaz de passar verdadeiramente o medo e a crença.. Claro muitas pessoas acreditam na Bíblia, mas não uma crença forte o suficiente pra tornar aquilo realidade, e é nesse ponto que a obra de Cane supera a Bíblia.

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“Eu fui traduzido em 18 línguas. Mais pessoas acreditam na minha obra do que acreditam na Bíblia. Meu novo livro vai deixar o mundo pronto pra mudança. Ele tira seu poder de novos leitores e novos crentes, e esse é o ponto: crença. Quando o povo perder a habilidade de separar fantasia de realidade, os seres antigos poderão fazer a viagem de volta.” pessoalmente acho que aqui o filme errou em escala. 18 línguas parece muito pouco para um livro cuja popularidade transcende tudo o que conhecemos e molda uma nova realidade. Faltou noção de grandeza, afinal Harry Potter foi traduzido pra 71 línguas.

Afinal se bilhões de pessoas ganharem um novo conceito do que é realidade, então quem ficar preso no outro conceito será um louco sem noção de realidade. Realidade é um consenso entre as pessoas mais que um fato, e se você influenciar as pessoas você muda a realidade. Trent resiste claro, mas Sutter Cane solta a informação que quebra o homem racional definitivamente.

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“Você deve entregar o manuscrito pra editora agora, esse é seu papel. Você é o que eu escrevi, que nem essa cidade. Ela não estava aqui antes de eu escrevê-la, e nem você.”

Trent é um personagem do livro “In the Mouth of Madness”, um mero personagem que saiu da imaginação de Cane, que se tornou realidade pelo poder da crença das pessoas nos livros de Cane. Trent não acredita. Ele? Ele que é o próprio homem, ele que não tem ninguém controlando ele, ele não pode ser ficção, ele é realidade, afinal ele sabe o que é realidade. Cane deixa com Trent com a cópia completa de seu livro pra ser publicado e pede que Trent o publique, dizendo que ele pode ler pra ter a prova de que é um personagem.

E é por isso que o agente de Cane que leu o livro tentou matar Trent, pra impedir o livro de existir eliminando o personagem que entregaria o manuscrito a editora. Trent está incrédulo, enquanto vê Cane, com sua magum opus concluída deixar esse plano pra se juntar ao mundo desconhecido e lovecraftiano que o inspirou se rasgando feito papel para alcançar o outro plano. Trent percebe que ele está em um plano feito de papel e palavras e encara o abismo que tem fora desse plano enquanto Linda com o livro pronto em mãos lê para Trent a narração de exatamente o que Trent faz.

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“Trent para no limite da ruptura e encara o ilimitado espaço do desconhecido. Os olhos de Trent se recusaram a se fechar, ele não tremeu, mas as pérfidas e demoníacas abominações tremeram por ele.”

Desse abismo então saem criaturas lovecraftianas que atacam Trent. Ele tenta fugir, mas acorda, no meio da rua, num mundo que ele não pode ver que é feito de papel e palavras. Será que ele voltou pra realidade? Será que ele escapou. Ele encontra um menininho ciclista normal e não-sinistro e pergunta se ele já ouviu falar de Hobb’s End, ele diz que não. Trent fica aliviado. Será que acabou?

Ele se hospeda em um hotel, e nesse hotel esperando por ele, está um pacote, e nesse pacote está a cópia original do livro “In the Mouth of Madness” pra Trent entregar à editora. Trent tenta provar que ele está no controle, que Cane não pode fazê-lo publicar o livro, e queima o livro e pega um ônibus de volta a sua cidade.

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Trent sonha com Sutter Cane no ônibus falando que sua cor favorita é azul, e quando ele acorda, toda a realidade se tornou azul, ele entra em pânico até acordar novamente e ver que as cores estão normais. Ele já não sabe o que é sonho e o que não é.

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É interessante a cor favorita de Cane ser azul, pois sempre que um leitor enlouquecido recebe um zoom em seus olhos, ele tem olhos azuis. Como se a loucura fosse passar a ver o mundo pelos olhos de Cane.

Mas ele vai a editora e conta tudo o que rolou, que Hobb’s End existe e que Cane acha que se as pessoas acreditarem o suficiente em seus livros ele molda a realidade, e fala que queimou o manuscrito por livro jamais ser publicado. E é nessa hora que o presidente da editora estranha. Afinal, ele mesmo sabia que não existia nenhuma Linda Styles, e que Trent havia entregado o manuscrito do livro fazia um mês, e o livro já havia sido publicado e a adaptação pro cinema já estava em produção.

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E advinha quem está na capa do livro? Você acertou, John Trent.

Ou seja, Trent em seu papel de personagem fictício não possuía livre-arbítrio, não importa o quanto ele lutasse. No fim, mesmo sem lembrar, ele fez o que Cane escreveu que ele fizesse. Cane tirou Linda do livro e ela sumiu da realidade, pois aquele livro agora é o que a humanidade reconhece por realidade.

Com a derrota espelhada em sua cara, Trent vai até a loja e aborda um fã de Sutter Cane. Ele pergunta se o fã gosta dos livros, o fã responde “adoro.” e Trent diz: “bem, nesse caso isso não vai te surpreender…” antes de sacar um machado e assassinar brutalmente o fã.

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Trent é internado em um hospício, onde ele conta sua história a um médico. Ele não acredita obviamente, e aponta uma falha na teoria de Cane “mas tem pessoas que não vão ler o livro.”, mas a resposta de Trent é que para essas pessoas, vai ter a adaptação em filme. No hospício Trent espera enquanto o mundo ao seu redor acaba, e quando quase não tem pessoas na rua, já que todas estão se matando, ele sai do hospício. Ele chega a uma sala de cinema onde o filme está passando e entra pra assistir, sozinho, todos estão mortos.

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E o que ele vê? Exatamente o filme que acabamos de ver, sem tirar nem por. Ele vê que a história que ele acabou de viver está toda na tela, e sua reação isso é uma gargalhada, ele ri da própria tragédia, de como ele foi um personagem o tempo todo e da falta de sentido que foi sua vida. Ele ri, mas as vezes parece que ele vai chorar. Mas é ao som de seu riso diante da própria derrota que o filme se encerra.

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FIM

Trent lutou e lutou pra manter sua convicção do que era realidade, mas não dependia dele e sim de todos os outros. O que o filme passa é que realidade supostamente seria o consenso entre todas as pessoas que vivem nela, e que se um livro influenciar todas essas pessoas o suficiente, a percepção do que é realidade muda, e os sãos se tornam os loucos, e a coisa sã a se fazer pode passar a ser se matar a machadadas por aí.

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“Realidade é o que dizemos um para o outro que é. O louco e o são podem facilmente trocar de lugar, e aí seria você preso numa sala acolchoada se perguntando o que aconteceu com o mundo.”

Cane não tirava seu poder das criaturas que ele trazia a realidade com sua escrita, ele tirou seu poder de seu público, do culto de fãs que se formaram em volta dele, e que entraram de cabeça em seu mundo ao ponto de começar a acreditar que o que ele escreveu podia ocorrer, e chegou a um ponto em que virava um círculo vicioso, pois fãs enlouqueciam lendo e isso aumentava as vendas e gerava mais gente enlouquecendo.

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Até não sobrar ninguém, só os destroços da civilização.

Na vida real, nós adoramos esse tipo de história. Como Helter Skelter inspirou o Charles Manson, como o cara que assassinou John Lennon havia sido inspirado pelo Catcher in the rye(Apanhador no campo de centeio). Sempre que um adolescente resolve matar os colegas de escola a primeira coisa que conferimos é o que ele leu, queremos culpar um livro polêmico ou um filme pesado que ele viu, adoramos associar crimes absurdos a que obra de ficção causou isso, e fantasiar com matérias sensacionalistas, que uma obra de ficção teria o poder de ser o estopim de assassinatos brutais. E o filme trabalha o efeito que esse tipo de publicidade tem pra criar um público em torno de Sutter Cane.

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A ideia de uma obra fictícia enlouquecer as pessoas ao mal é mais aceita na sociedade do que parece.

Trent não tinha medo de Sutter Cane, pois sabia que vivia na realidade, mas a realidade era mutável conforme a sociedade era mutável, ele não sobreviveria sendo o único a não reconhecer que aqueles acontecimentos eram reais, já que todos ao seu redor estavam. Em resumo, nada dependia dele.

O que é outro tema que o filme trabalha pra gerar terror. Falta de controle. Trent era um homem que não se subordinava a ninguém, que era o próprio chefe e ao longo do filme ele descobre que nada que acontece na vida dele está em seu controle, ele é um personagem, e um roteirista decide sua vida, e ele não pode evitar, nada está no controle dele. E a ideia de que não temos nenhum controle sob nossa situação nos assusta.

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A percepção de que nada está em seu controle, é assustadora. Ser um mero peão nos planos de um lunático jogando xadrez.

E isso tudo vem por conta da metalinguagem, o filme trabalha o efeito que obras podem ter nas pessoas, no sentido em que um filme pode literalmente te destruir por ser um filme, e mesmo que racionalmente não acreditemos nisso, é um conceito que por si só desafia diretamente a sua sensação se segurança por estar diante de um mero filme e não da realidade. Após isso o filme desafia diretamente o conceito de realidade, e mais que isso, o filme coloca o protagonista em nossa posição, um homem muito seguro de saber que realidade e ficção conceitos muito bem separados, até descobrir que a separação não existe e ter sua própria sanidade questionada. O Trent é pra ser um espelho do expectador, e sua derrota é a derrota do expectador.

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“Até agora procurando por um golpe, sempre tentando racionalizar tudo até o fim, esse é você.” O Sutter Cane diz isso pro Trent, mas também pode dizer pra debochar do expectador que se sente acima dessa obra.

Mas o melhor do filme é que ele ainda usa a metalinguagem pra trazer tragédia. Lembra que eu falei lá em cima, que a metalinguagem tinha esse poder? Pois é. A tragédia do personagem fictício que sabe que é fictício. Ele não pode mudar seu destino, ele tem que fazer o que escreveram ele pra fazer, e ele está fadado a ser derrotado em sua tentativa de evitar o final de seu roteiro. Trent nunca poderia vencer Cane, se ele só existia pois nasceu da imaginação de Cane em primeiro lugar, para ser o protagonista do livro que destruiria o mundo numa onda de insanidade.

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Homem contra Autor, um belo conflito.

O filme saiu em 1995. Um ano depois de New Nightmare e um ano antes de Scream, dois outros metaterrores, e eu sinto que da leva ele foi o que melhor soube usar o aspecto meta sem se perder, explorar todo o potencial que a metalinguagem pode ter pra criar uma narrativa trágica e perturbadora sobre um homem diante o poder da ficção, que é maior do que ele.

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2 thoughts on “In the Mouth of Madness e como a metalinguagem ajuda um filme de terror.

  1. Não li inteiramente sua crítica – ainda – porque preciso rever o filme antes de ler seus comentários, mas, já que vc pediu uma recomendação de terror que use a metalinguagem como dispositivo de terror, que tal assistir “Demons” e “Demons 2”, dirigidos por Lamberto Bava e produzidos pelo Dario Argento?
    O segundo filme, inclusive, antecipa o conceito utilizado em “Ringu” e seu remake.

    Boas festas

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