A Visão do Vilão – Parte 2. Suicide Squad e como a falta de desenvolvimento dos personagens atrapalhou o filme.

E lá vamos nós falar sobre um dos piores filmes de 2016. Um dos piores filmes da DC e em geral um grande jogo dos mil erros. Tão ruim, mas tão ruim, que não dá pra traçar um motivo único pelo qual esse filme deu errado, tem inúmeros. Mas mesmo assim eu vou apontar um deles nesse post.

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Esse poster é uma grande bagunça, que nem o filme.

Apesar disso o filme conseguiu ser considerado por alguns não tão ruim quanto Batman v. Superman, e confesso que eu entendo os motivos, só discordo muito. Mas enfim.
Estamos em uma série comemorativa sobre o tabu e a dificuldade que ao se escrever ficção existe em colocar o vilão de uma história como protagonista da mesma. E por que diabos eu falaria de Suicide Squad entre tantos outros filmes com anti-heróis que não são um lixo completo? Bem, porque primeiro esse é um filme de super-heróis, um gênero que se sustenta na divisão de seus personagens entre heróis e vilões. Segundo: porque o filme se vendeu completamente em cima da proposta de colocar os vilões como protagonistas da história. E principalmente: porque eu senti que o filme genuinamente poderia ser bom se tivesse tido os culhões para de fato trabalhar a vilania do time protagonista.
Mas vamos com calma. Antes de falarmos sobre o que o filme é, vamos falar sobre o que o filme nos diz que ele é. O filme nos vende a ideia de que com o surgimento dos Super-Heróis como um conceito no mundo após o final de Batman v. Superman, uma agente do governo chamada Amanda Waller, resolveu montar um super-time próprio do governo, para eles saírem na dianteira quando todas as guerras forem travadas essencialmente entre meta-humanos. O time idealizado por Waller se chamaria “Força-Tarefa X”, e seria formado exclusivamente por criminosos encarcerados em Belle Reve, a prisão pela qual Waller é responsável.

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O time seria formado só por criminosos por dois motivos: o primeiro é porque o papel primário deles seria fazer o trabalho sujo do governo, e portanto eles seriam que ser pessoas capazes de sujar as mãos sem remorso. E o segundo é porque o governo vê os criminosos como descartáveis, não sendo uma grande perda caso morram durante uma missão e também podendo levar toda a culpa caso algo dê errado.

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Nos quadrinhos dos Novos 52 (que definitivamente são a base do filme), em sua primeira missão, Deadshot assassina um dos membros do próprio time ao final para poder colocar nele a culpa por todos os civis inocentes que a equipe matou.

Pois bem, e é assim que esse grupo de criminosos foi colocado a força pra trabalharem pro governo. Eles não gostam do governo, eles não gostam um dos outros, e eles tem uma bomba no pescoço que explode se eles pisarem fora da linha, então não tem outra opção.
Pois bem, acontece que um dos supostos membros do time, consegue neutralizar qualquer ameaça que Waller possa fazer a sua vida, e com isso, ganha completa liberdade do programa e está livre pra fazer o mal. Fazendo com que a primeira missão do time acabe na prática sendo limpar os danos que a própria existência do time causou.

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Uma ameaça que nunca teria se tornado uma ameaça se o governo não tivesse se envolvido.

E isso na teoria é bom. Na teoria esses quatro parágrafos acima, inalterados, poderiam ter sido a premissa para um filme excelente, exceto que o filme não vinga essa ideia. E é isso, o filme não realmente pegou a premissa de ter um grupo de vilões sendo obrigados pelo governo a agir como heróis, mas no fundo o que eles tem que fazer é limpar a merda do governo pro povo não ver que o governo é formado por gente detestável, e fez sair um filme que realmente nos faça repensar onde está a linha que separa super-heróis de super-vilões. E embora eu odeie pegar um filme finalizado e apontar o dedo e dizer “vocês deviam ter feito outra coisa”, nesse caso é bem obvio que o filme devia ter feito isso, pois ele se vendeu como se toda a nomenclatura entre heróis e vilões fosse ser muito explorada.
Além do fato de que o filme foi obviamente uma resposta muito clara da DC ao sucesso da Marvel Guardians of the Galaxy, que genuinamente repensou a divisão, formando organicamente uma aliança entre 5 presidiários, porém de bom coração, no primeiro grande evento em que eles deixaram de lutar por si mesmos pra lutar por algo maior, pra lutar por toda a galáxia. Em sua luta pela galáxia eles foram simultaneamente auxiliados por heróis e por criminosos cruéis, mas no fim eles salvaram tudo, e perderam suas fichas criminais, se oficializando como heróis com um pé no crime. E é na minha opinião um dos melhores filmes da Marvel. Tão bom quanto um filme da Marvel consegue ser bom sem alterar sua fórmula.

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Então nesse mês de janeiro em que estamos vendo a fundo como existe uma resistência em vilanizar nossos protagonistas, vejamos porque um filme com a proposta de transformar vilões em heróis não soube lidar nem um pouco com os conceitos de vilões nem com o conceito de heróis.
Primeiro nós vemos Deadshot e Harley Quinn sendo tratados feito lixo na prisão e sofrendo abuso dos guardas, e só os dois, para deixar bem claro logo no começo que esses dois importam mais que os outros, o que é ruim, pois é nele que o lance de herói e vilão fica pior explorado. E então vamos para Amanda Waller explicando o time para dois colegas de governo, e também para nós.

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“Deu trabalho, mas eu finalmente consegui. Os piores dentre os piores.”
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“Eu quero formar um time de pessoas muito ruins que eu acho que são capazes de fazer o bem.”

O time consiste de Deadshot, maior assassino de aluguel que existe, que só foi preso pelo Batman, pois é um paizão orgulhoso de uma menina de 11 anos que na hora h entrou entre o Batman e a arma e pediu pro pai não matá-lo. Harley Quinn, psiquiatra enlouquecida pelo Joker na base do choque elétrico que se tornou sua parceira no crime. Captain Boomerang, assaltante de bancos sem honra nem caráter. El Diablo, um incendiário que se rendeu pra polícia, Killer Croc, um monstro que parece um jacaré e come gente, e Enchantress, espírito de uma bruxa maligna que habita o corpo de June Moon, a namorada de um militar fodão chamado Rick Flag.

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Todos do governo são contra a ideia, por um único motivo. São vilões, não dá pra confiar. Mas Amanda Waller possui com ela o coração de Enchantress, podendo esfaqueá-lo e matar a bruxa a qualquer momento, e quanto todos veem a submissão que a bruxa tem com Waller e o poder dela, concordam em apoiar a criação do esquadrão.

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“Você não vai colocar esses monstros de volta na rua sob nosso nome. Você sabe que não podemos controlá-los.”

Pois bem, Waller agora vai um por um visitar os futuros membros da Força Tarefa X pra avisar que precisa de seus serviços, e Rick Flag a acompanha. Rick Flag é um militar orgulhoso e competente que é contra empregar bandidos, a escória da humanidade, mas Waller pode machucar sua namorada pra valer, então ele não pode impedí-la.

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“Você notou que eles são criminosos? Aberrações psicopatas e anti-sociais. Não faz sentido. Me põe em contato com o alto-escalão que eu te faço um time de elite que faz o que você imaginar. Você precisa de soldados, não desses lixos.”

Olha até aqui já foi meia hora de filme, essencialmente nos mostrando quase nada desses personagens agindo, somente pessoas falando para Waller que eles são vilões demais pra serem um time. Mas só ouvimos isso deles, não vimos os personagens em si, só apareceram usando suas habilidades, com pouca participação. Até agora a maior maldade que vemos foi o Captain Boomerang atacar um colega ladrão pra não dividir a grana, e o Deadshot matar um alvo por dinheiro. E é isso. O Flashback da Harley mostra o Joker fazendo as maldades, mas ela só fica olhando, e o resto não ganhou cena cometendo crimes.

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Além de que já ficou estabelecido que Deadshot não é capaz de atirar em alguém se sua filha pedir que não atire.

Enquanto isso o Joker está planejando libertar Harley Quinn da prisão, e pra isso pega como aliado um dos guardas de Belle Reeve.
Enfim, vamos lá. A June Moon se transforma em Enchantress, falando o nome “Enchantress”, e teve esse dia em que ela falou a palavra enquanto dormia, e a Enchantress ficou livre pra sair por aí e fazer merda de noite, enquanto Waller dormia, e ela liberta seu irmão Incubbus, pra possuir o corpo de um homem, e sair por aí matando pessoas, ah sim e eles dão um jeito da Waller não poder matar mais a Enchantress, então literalmente toda a racionalização dela de porque a ideia de transformar a Enchantress em arma não era uma ideia de merda acabou de evaporar.
Pronto, hora de colocar a Força Tarefa X pra funcionar. Eles são capturados em suas celas, colocam bombas dentro deles. E descobrem que Rick Flag vai liderá-los. Todos os membros do time estão lá, mais um cara chamado Slipknot que não tinha sido apresentado por Waller antes, porque ele vai morrer daqui a pouco e ele essencialmente não importa.

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O time troca uma ideia sobre como eles vão ter que matar uma galera e isso vai ser da hora. Firmando pela primeira vez no filme isso: eles são genuinamente maus. Eles estão prestes a matar alguém e estão pouco se fodendo, pelo contrário, meio que felizes com isso. Exceto o El Diablo que estabelece nessa mesma cena que pra ele isso não é de boa e que ele é uma ótima pessoa. Mas os demais, eles são maus, com isso estabelecido, eles recebem um vídeo de Amanda Waller falando que a missão é de resgate, que eles tem que salvar uma pessoa, e no processo não podem deixar Flag morrer.

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“Sempre que eu coloco essa roupa, alguém morre.” “E daí?” “Nada, é que eu gosto quando eu ponho essa roupa.” “Que bom, por que algo me diz que muita gente vai morrer.” nossa, até parece que eles são pessoas que não ligam pra vidas humanas, vamos ver se isso se mantém.

Ah sim, e acompanhando eles está essa parceira de Flag, Katana. Que é uma espadachim fodona. Ela importa tanto quanto o Slipknot, exceto que não vai morrer.

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Enfim. Vamos lá. O filme é sobre o Suicide Squad, mas em nenhum momento o esquadrão age sozinho como time. O time de vilões tem a adição de dois heróis, o Flag e a Katana, que não são vilões. E o Flag é o líder da porra toda.
Então vamos lá ver como as peças estão distribuídas no tabuleiro. Temos esse time protagonista. Formado por 6 criminosos, mas liderados por dois heróis. Temos esses dois antagonistas sendo que um deles é um ex-membro do time protagonista que conseguiu se libertar, eles estão no metrô matando gente por motivos genéricos que não importam. Temos o Joker, um vilão que tem uma namorada no time e quer libertá-la. E temos Amanda Waller, a mulher amoral e cruel que está movendo todas as peças no tabuleiro.
Flag não só é o líder, como é o líder a contragosto. Ele não gosta da ideia de trabalhar com a galera do mal. Ele prefere parceiros heróis. Mas ele está preso com essa galera vilanesca. Isso é um conflito. E um bom conflito. A pergunta é: isso gera tensão? Não. Isso não gera tensão. Isso é retratado na trama meramente com o Deadshot e o Flag trocando alfinetadas, mas em nenhum momento ele fica dividido entre seu código moral ou sua lealdade a um time que ele não gosta.

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“Olha, eu sou atirador, não bombeiro. Eu não salvo pessoas.” “Ah, mas tudo por dinheiro, não é mesmo.” “Você já esteve nas áreas sombrias também, tanto quanto eu.” “Eu sou um soldado e você é um serial killer que aceita cartão de crédito.”

Eles pegam um helicóptero onde mal interagem entre si e vão pro meio da ação.

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E eu não estou brincando. O filme tem pelo menos um minuto e meio de cena no helicoptero com Harley e Deadshot trocando olhares. Croc vomitando. Boomerang falando sozinho. Harley falando sozinha. Olha todo esse potencial pra interação que eles não tiveram, ninguém ali trocou ideia entre si.

Chegando lá, o Slipknot resolve fugir e tem a bomba dele explodida, só pra mostrar que Waller fala sério e pronto. Eu sentiria falta dele, mas era bem fácil esquecer que ele estava no filme.
Deadshot e Harley Quinn trocam uma ideia sobre fugir de maneira menos imbecil que a do Slipknot e pronto, eles ficaram amigos, assim, do nada, com interação mínima essas pessoas más agora tem amizade entre si. Eles dão a ideia pro Captain Boomerang, ele topa. Eles passam a ideia pro El Diablo e ele lembra eles de que eles são criminosos e não existe liberdade pra gente como eles, então só o El Diablo é contra o plano de escapar. Enfim, temos um plano, eles só estão esperando o Joker chegar pra resolver o problema das bombas… parece um ponto de roteiro relevante, né? Tentem não se apegar a isso não.

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“Mas e quanto às bombas no nosso pescoço?” “Seu amigo ajuda a gente com isso, não?” “Você é meu amigo.” “Continue maligna, boneca, e fale com os outros do plano.”… sério? ‘stay evil’? eles deram dessas?

Eles chegam no metrô e tem uns bichos feitos de pedra lá, que aparentemente são as vítimas do Incubus transformadas. Enfim, porrada, tiro, espadas, ação e o time mata uma caralhada deles. No processo o Flag quase morre e Deadshot e Harley salvam ele, pois sabem que se Flag morrer eles tem a bomba explodida. Ah sim, e o El Diablo não luta, pois ele evita usar seus poderes.
Deadshot repara que aqueles bichos de pedra um dia foram humanos e questiona Flag sobre estarem matando seres humanos, mas Flag friamente fala o equivalente a “foda-se.”, nos indicando que “olha só, o Deadshot é o criminoso assassino e o Flag o militar herói americano, mas na hora da porrada, o Flag é muito mais indiferente a vidas humanas”. Imediatamente após esse ataque de frieza, Flag dá uma bronca em Boomerang que roubava o relógio de um dos mortos, pois não é esse o trabalho dele. Isso tudo seria um bom ponto…

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…Mas aí é imediatamente seguido pela cena onde Harley Quinn do nada estoura o vidro de uma loja, rouba uma bolsa, a câmera enquadra sua bunda de uma maneira pra dar à internet material pra debater sexualização das mulheres em filmes de super-herói por metade de 2016, e então responde casualmente com “O quê? Somos vilões, é o que fazemos.”

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O filme não se decide em acertar o tom entre “somos vilões, não temos honra e não pedimos desculpas por isso” ou “no fundo somos boas pessoas que a vida jogou nesse caminho, mas na hora do aperto temos muito mais valores do que os supostos heróis.” Os membros do time andam de um ponto pro outro constantemente. Com o suposto contraste heroico deles, o Flag, também migrando entre o “herói honrado demais pra ser parceiro de bandido” e o “anti-herói cuzão que tá cagando pra tudo e cuja única diferença entre ele e o Deadshot é que um está na cadeia e outro não.”
E não é o tipo de filme que pode se dar ao luxo de não ligar pra classificações como heróis e vilões. O filme se sustenta nessas classificações que o roteiro ignora com personagens de personalidade inconsistente.

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Em seu primeiro encontro, Deadshot já implica com a existência de Flag, mesmo ele não sendo o único soldado no local, não sendo a principal autoridade e não tendo revelado sua hipocrisia ainda. Então Deadshot implica com Flag por conta dessas coisas ou é pessoal mesmo?

E com isso não temos material pra contraste. Cenas em que Flag e Deadshot são grotescamente diferentes em ideologia intercalam cenas em que eles são farinha do mesmo saco, e com isso não dá pra realmente pensar na relação entre qual a diferença entre um herói e um vilão nesse contexto, se o filme não se dá ao trabalho de pensar a diferença.
Por exemplo, agora, depois de todas as alfinetadas, vem uma cena em que Flag e Deadshot fazem um pacto de honra, e combinam em Deadshot ajudar Flag a conduzir o time e em troca Flag permite que Deadshot possa rever a filha e que ela terá um futuro. E os dois fazem esse pacto na boa, na amizade. Como se o filme não tivesse estabelecido tanto que Flag despreza Deadshot, quanto estabelecido que Deadshot fez um pacto semelhante com Harley Quinn pra matar o Flag. Pacto aliás que o filme já esqueceu completamente, então foda-se. Eu pedi pra não se apegar aquele detalhe, só porque tomou tempo de script.

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“Se não trabalharmos juntos ninguém sai dessa vivo. Eu quero cumprir a missão, você quer sua vida e sua filha de volta. Você me ajuda a concluir a missão e eu acerto as coisas com você.”

Harley aliás está tendo um flashback de como foi difícil pra ela entrar em um relacionamento com o Joker. E também testando pra ver qual dos seus colegas de time ela consegue tirar do sério, pois é isso que ela faz. Em uma cena interessante, pois mostra que mesmo louca a psicologia ainda é forte nela, mas é só isso, Deadshot manda ela parar e ela para.
Eles chegam no prédio onde está a pessoa a ser resgatada. Lá tem mais luta contra mais homens-pedra. Lá Deadshot convence El Diablo a lutar também, e El Diablo usa seus poderes de fogo pra derrotar os homens-pedra e salvar todo mundo.

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E a Harley Quinn tem outro flashback de como ela se tornou Harley Quinn e namorada do Joker após ele jogá-la em um tanque de ácido. Por conta do flashback ela aponta uma arma na cara de Deadshot e pergunta se ele já se apaixonou na vida, e o atirador responde que ele não é capaz de sentir amor, ou não teria matado a quantidade de pessoas que ele matou.
E até entendo que ele se referia ao amor romântico, mas ainda sim essa frase é uma contradição completa com a base do personagem de ter uma filha de quem ele é super paizão e que ele prioriza acima de qualquer coisa, inclusive seu trabalho de matador. O Deadshot, como retratado do filme separa completamente sua vida pessoal da profissional, e vê sua “vilania” como meramente um serviço, algo que ele deixa no trabalho e não leva pra casa quando vai passar o natal com a filha. Então pra que ele disse essa completa merda? Por que o filme não tem a menor ideia de qual o perfil do Deadshot.

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“Você não mata o número de pessoas que eu já matei e ainda dorme feito um bebê se sentir merda como amor.”

De resto, os flashbacks da Harley são completamente desnecessários, e já tivemos três deles. Eles só estabelecem que tipo de relação ela tem com o Joker, e porque ela namora ele, e bem, ela está acompanhada de outra galera nesse filme, e que relação ela tem com as pessoas com quem ela realmente está dividindo um filme não é clara. Foda-se a relação dela com o Joker, o palhaço nem tá no filme.

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Estamos falando afinal de uma personagem que tem a própria revista. Aliás, não estou vendo o Joker na capa, por que será?

Enfim, eles chegam ao topo do prédio. E eles descobrem que eles estavam em uma missão pra salvar Amanda Waller. E com a descoberta Deadshot e Flag debatem moralidade novamente, até que Waller do nada e sem motivo mata o pessoal que trabalha pra ela a tiros. E novamente a mesa vira, pois Deadshot é o que pensa “porra, zoado” e o Flag é o que pensa “De boa, bem-vindo ao meu mundo.”, concluindo com Deadshot pela primeira vez no filme, questionando porque é ele quem é designado como vilão, mas não em comparação ao Flag e sim em comparação à Waller.

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“Essa mulher é cruel.” “Você se acostuma.” “Depois eu que sou o vilão.”

A reação do resto do time é simples. “Ok, agora a gente mata a Waller, o Flag, possivelmente a Katana, e nunca mais volta pra prisão.” mas Waller lembra-os das bombas e eles percebem que ela ainda está no poder.
Ok, eles cumpriram a missão. E agora? Eles vão lutar contra a Enchantress? Não, pois Waller aparentemente não tem a intenção de mandar eles deter Enchantress. O que não faz muito sentido, mas ninguém mencionou até agora a necessidade de ir lá parar a matança. Mas agora não é hora disso, agora é hora do Joker aparecer pra resgatar a Harley Quinn. Lembra que a Harley tinha combinado que quando o Joker chegasse todos iam se unir contra Flag? Bom, os roteiristas não lembram e Harley foge sozinha com o Joker tendo a bomba dela desarmada pelo namorado.

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Adeus panacas, foda-se o plano de fuga. Fodam-se vocês.

Na impossibilidade de explodir o pescoço de Harley, Waller ordena que Deadshot atire em Harley Quinn, Deadshot não quer matá-la, pois não tem nada contra ela, Waller explicitamente explica pra Deadshot que ela está pedindo um serviço profissional pra Harley e em troca vai dar pra ele tudo que ele quer, liberdade e um futuro pra sua filha. Pois bem, vamos enfim ver o maior e mais frio mercenário de Gotham em ação.
E o Deadshot sente pena da Harley, e então erra o tiro de propósito, pois ele não é desses, não vai matar uma aliada. Mas Waller fala “foda-se”, explode o helicóptero, derruba e só Harley sobrevive, deixando o Joker pra morrer. Ele está vivo, nós sabemos, mas isso é irrelevante, pois a participação dele no filme acabou.

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O olhar de um assassino frio fazendo só mais um serviço.

Todos no time ficam muito tristes pela Harley, mesmo nunca tendo demonstrado nada próximo de amizade por ela, mas aí eles andam pela rua e acham a Harley e ela volta pro time, então é isso, o ataque do Joker não mudou nada, pura perda de tempo, afinal Harley ainda é do time. Todo mundo fica muito feliz de ver Harley viva, mostrando que nesse meio tempo todo mundo ficou muito, mas muito amigo da Harley. Foda-se que 4 cenas atrás eles estavam bem putos com como ela é chata e péssima companhia.
Ok, na moral, que porra foi essa? De que adianta falarem o tempo todo que Deadshot é um assassino frio incapaz de amar, se o que o filme mostra é um cara que todas suas ações são motivadas pelo amor, e que não tem frieza de matar alguém com quem ele dividiu meia hora de olhares-que-valem-como-conversas em um helicóptero.

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“Você não podia salvá-la” é como Boomerang consola Deadshot quando todos achavam que Harley tinha morrido. Ah, mas pro Slipknot ninguém deu duas fodas, né? O filme não me deu nada pra achar que esse pessoal criou laços com a Harley muito mais profundos do que o que criaram com Slipknot.

O que os personagens falam está em constante contradição com o que eles fazem. Pois eles falam o tempo todo “eu sou um vilão”, mas agem sempre visando não serem escrotos. Não vemos nenhuma maldade ser praticada em tela, então não é claro de onde vem o estigma. Em particular o estigma de Flag que não despreza Waller como despreza os criminosos, mesmo que ela mate os próprios subordinados na frente de Flag sem motivo. Além de que Waller torturava a namorada de Flag, lembram?
E a Katana, supostamente uma heroína no meio que não faz NADA pra definir contraste com os outros membros, não dá pra ver como ela é moralmente diferente daquelas pessoas, só em questão de com quem a lealdade dela está. Esses personagens não tem construção o suficiente pra podermos diferenciá-los entre si moralmente, então o fato deles serem designados moralmente diferentes, e dos personagens falarem que eles são diferente moralmente não tem valor, pois não está em cena, não tá no filme.
A única exceção é o El Diablo, que genuinamente é uma pessoa boa, e que gera contraste com todos os outros personagens, ele é, arrisco dizer, é o personagem mais decente do filme inteiro, age como tal e se porta como tal. Pois bem, notaram que eu falei pouco dele até agora? Pois é, tem pouca cena o coitado.

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Esse cara é firmeza. Peneirando o que o filme tem de bom, o que sai é esse cara.

Enfim, Waller tenta abandonar o time de helicóptero e ir embora, mas ela é sequestrada pela Enchantress, então Flag afirma que a missão não acabou ainda e eles tem que resgatar Waller de novo.
Mas acontece que Deadshot descobriu que Waller foi sequestrada por Enchantress e descobre quem é Enchantress: uma ex-membra do esquadrão e uma bruxa e ele pensa “foda-se.” e todo mundo do esquadrão abandona Flag pra ir beber, pois eles não querem ter que lidar com sobrenaturalismo só pra salvar a vida da Waller.

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Opinião sincera? Essa cena no bar é bacana. Eles socializam de verdade pela primeira vez, dividem histórias de vida e perspectivas de mundo, informam organicamente algumas informações pro expectador e tudo o mais, além de potencialmente unir o time inteiro. O problema? Ela vem depois do time já ter se provado unido (o luto coletivo e sem sentido pela “morte da Harley”). Em um filme bem escrito ela seria a transição desses homens de “colegas” pra “amigos”, mas o filme quer nos convencer de que foi aqui que eles fizeram a transição de “amigos” pra “família”, e isso foi muito difícil de engolir.

Ah sim, e a Katana abandona o Flag pra ir beber junto com eles. Puta merda o que essa personagem tá fazendo no filme? Ela não agrega absolutamente nada, e ainda por cima contradiz diretamente o que o filme quer passar. Ela não era super-leal ao Flag?

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“Um brinde, à honra entre os ladrões.” “Eu não sou ladra.” Então tá fazendo o quê andando com essa galera? O Flag não está.

Enfim, agora que estão a sós, todos brigam com Deadshot por ser amiguinho do Flag e confiar nele. Sendo que o filme inteiro o Deadshot era o único que genuinamente desafiava a liderança do Flag. Mas não, agora o pessoal joga na cara do Deadshot que ele foi trouxa de confiar que Flag poderia tratá-lo como algo mais do que um vilão.

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“Flag te fez ficar correndo atrás duma cenoura numa vareta, você não percebeu?”

El Diablo então dá uma lição de moral em Deadshot. O atirador menciona que ele não aceita matar mulheres e crianças (olhem, olhem isso, uma desculpa perfeitamente aceitável pra fazê-lo recusar matar Harley, mas ao invés disso o filme insiste em usar o prisma de uma amizade que não vimos ser construída), e o Diablo diz que ele já matou mulheres e crianças, e conta sua história. Do dia que seus poderes saíram do controle em um acesso de raiva e ele matou sua esposa e seus filhos, e se entregou à polícia e jurou nunca usar seus poderes de novo.
Harley dá uma bronca no El Diablo, por achar que ele podia ser um criminoso com poder de fogo e ter uma vida familiar ao mesmo tempo. E lembra eles de que eles são todos vilões que nunca vão ser normais e todos eles são sem caráter. Porra, Harley, o cara abriu a alma dele e reformou toda sua visão de mundo e atitude perante a vida e você vem falar que ninguém ali tem nada de bom nem no fundo?

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“Pra pessoas como nós não existe normal. Somos todos feios por dentro.”

Flag vai pro bar beber, e muda sua abordagem. Some o “sou o líder da bagaça” e entra um brother pedindo pro outro por favor pra salvar a namorada. Ele sabe que se Enchantress for destruída ele recupera sua namorada e pede na moral esse favor pra Força Tarefa X.
Ele liberta todos os membros do time, e dá pro Deadshot cartas da sua filha que ele recebeu todos os dias em que esteve preso. Deadshot aceita ajudar Flag. A Enchantress tomou o corpo da namorada dele, ele tem parcela de responsabilidade na merda toda, pois seu trabalho era conter a Enchantress, ele vai fazer Flag assumir responsabilidade pela suas ações. E o mais importante, isso não vai ser segredo, a filha do Deadshot, depois que isso tudo acabar, tem que saber que o pai dela foi um herói.

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“Isso aqui vai ser tipo um capítulo da Bíblia. Todo mundo vai saber o que nós fizemos. E a minha filha vai saber que o pai dela não é um merda.” Pera aí Deadshot, sua filha achava que você era algo que você não era? Ou você está decidindo mudar de vida por sua filha ser a prioridade. Não estou entendendo. Ela não acha nada, ela só sabe como que você ganha seu dinheiro.

Ou seja, o Deadshot quer ser reconhecido como herói? Inconsistente? Pra cacete.
Todos se unem ao Flag e ao Deadshot e vão junto. Em contraste a bronca que eles deram cinco minutos atrás ao Deadshot. E agora, motivados meramente por altruísmo, eles vão salvar a cidade dessa força sobrenatural que está matando gente no meio do metrô o dia inteiro e ninguém fez nada.

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Começa a batalha final. Enchantress tenta seduzi-los a viver em um mundo onde seus sonhos são realidade (no caso do Deadshot isso significa matar o Batman, no caso de Harley, Flag e El Diablo isso significa suas vidas amorosas normais em uma rotina feliz e mundana, e só esses quatro sonhos foram mostrados, pois só tem esses quatro membros na equipe, apesar desse cenário ambulante com cara de jacaré tentar convencer a gente de que ele é um personagem. Ele não é.) Mas El Diablo, sábio e arrependido, sabe que ele não pode ter uma vida feliz depois da merda que fez, e que seus desejos são inalcançáveis, e com isso não compra o escapismo da ilusão de viver de novo com sua esposa morta e faz um discurso pra tirar todos do transe.

diablo
E pronto, não tem mais ilusão. Começa a luta. Antes da luta quero notar como o Deadshot fala da sua filha e fala da sua filha, mas na hora H, seu sonho era matar um cara. Vou dar uma colher de chá ao filme e interpretar que seu sonho de matar o Batman vem do rancor de ter sido o Batman quem tirou ele de sua filha.
Mas enfim, começa a luta. El Diablo decide lutar pela sua “nova família”, e vamos realmente ligar a suspensão da descrença e fingir que eles realmente se tornaram uma família entre si, mesmo que pra mim a palavra “amigos” já soa forte demais. Mas vamos fingir isso, porque é em nome disso que El Diablo usa o máximo do seu poder de fogo, virando um gigante de fogo que mata o irmão da Enchantress, porém o custo disso é a sua própria vida.

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E assim morre o Diablo, o único personagem do bem nesse filme inteiro.
Ok, agora falta a Enchantress cair. Ela começa a literalmente soltar raios em satélites e destruir força elétrica da cidade. Eles tentam e tentam bater na Enchantress, mas nada acontece, pois ela é mais forte. Ela eventualmente decide poupar todos eles caso aceitem se aliar a ela, e só Harley Quinn aceita.

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Todos julgam Harley por se aliar a uma pessoa do mal, mas Harley fala que ela odeia o mundo, então foda-se e vai até Enchantress, só pra traí-la e atacá-la, criando uma brecha que permite a todos os personagens derrotá-la ao mesmo tempo.
Flag dá o golpe de misericórdia na Enchantress, recupera sua namorada, dá um abraço de brother no Deadshot, todos ficam felizes.

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Pera, ninguém ficou feliz, pois olhem só. Waller está viva, ameaçando matar todo mundo com as bombas e revelando que todos eles vão voltar pra cadeia, perdendo 10 anos da pena, e podendo ter alguns privilégios, como poder sair pra visitar a filha, ou máquina de café na cela.
E o filme acaba com eles voltando pra prisão que é o lugar deles e BUM, o Joker ataca pra libertar Harley Quinn.

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FIM DO FILME.

Olha… vou ser bem otimista e me esforçar muito pra entender o que o filme quis passar. O filme segue essa equipe formada por 4 personagens… eu sei que parecem 7, mas vocês sabem que o Boomerang, o Croc e a Katana não fazem merda nenhuma no filme. É o Flag. O Deadshot. A Harley Quinn e o El Diablo. Desses quatro, o El Diablo é o personagem do bem, ele é moral, empático, humilde, e no geral uma força do bem, mesmo com uma bomba no pescoço ele não lutou nem matou por Waller ou pelo governo, só foi a luta mesmo quando foi para proteger sua nova família. E ainda sim ele foi parar na cadeia como parte de um processo de punição que ele mesmo faz a si mesmo (pois ele se entrega e não tem a intenção de sair da prisão), pois sua vida de vilania levou a desgraça a sua família.

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O El Diablo é foda. Junto de Amanda Waller é o personagem mais consistente e menos contraditório do filme. Ele tem um subplot? Não, ele aparece unicamente pra nos falar o que uma pessoa com o coração no lugar certo falaria. Talvez por isso tenham conseguido não cagar ele. E mesmo um homem bom como ele um dia foi mal, e paga por sua antiga maldade até hoje. Isso é um bom elemento pra se colocar em um filme como esse.
E temos o Flag. O único da equipe a não ser um vilão. Ele é um militar honrado, acredita na lei, e não gosta de se envolver com criminosos. Porém ele mata qualquer um em sua missão sem questionar, e obedece cegamente Amanda Waller, uma mulher que é tão perversa quanto possível. Amanda Waller é a verdadeira face do mal nesse filme, já que a Enchantress com sua destruição genérica e construção nula de personalidade, soa mais como força da natureza do que como personagem. Então Flag faz que não viu as atrocidades de Waller enquanto julga os criminosos e se sente um cara muito moral. Tornando ele um hipócrita.

flag
E ao final, diferente de todo o resto do time, ao Flag é permitido viver uma vida normal, firmando como ele era de um status diferente dos demais.

E essa hipocrisia faz ele entrar em conflito com Deadshot. E com o Deadshot eu tenho um problema, pois ele é absurdamente inconstante. Ele ao mesmo tempo não dá duas fodas pra quem ele mata por dinheiro, mas fica muito indignado com a frieza de Flag perante quem morria na missão. Ele afirma que não é capaz de amar, mas essencialmente tem o amor por sua filha como motivação central pra tudo o que ele fez no filme. Ele só fala em voltar pra casa e ser pai de sua filha, mas seu maior sonho é matar o Batman. Ele não mata mulheres nem crianças, mas o motivo pelo qual ele não matou Harley é por ela ser sua amiga, se ele tinha a política de nunca tomar uma mulher como alvo, ele devia ter dito isso pra Waller e nem apontado o rifle. Tudo o que sabemos sobre o Deadshot tem uma cena que desmente, e é difícil entender porque ele faz o que ele faz. Prometem pra ele que ele vai poder ver a filha umas 4 ou 5 vezes o filme inteiro e sempre precisam prometer de novo pro Deadshot fazer algo, e isso é porque exceto pela filha ele nunca tem motivação nenhuma pra fazer nada do que ele faz, seja bem ou mal.

deadshotvitrine
Ele é o personagem mais emotivo do filme inteiro, de verdade, todas suas decisões na trama inteira foram tomadas por emoção e não por razão. Mas supõe-se que ele devia se destacar por sua frieza. No geral ele é um personagem dificílimo de ler, e isso É um defeito de sua construção. El Diablo é um herói estigmatizado como vilão. Flag é um escroto hipócrita rotulado de herói. Waller é um monstro que está acima da lei, literalmente. E o Deadshot? Ele Eu sei lá o que ele é, literalmente varia de cena em cena.

time
“Eu gosto quando gente morre.”
deadshot
“Você não mata o número de pessoas que eu matei e dorme feito um bebê se sentir merda feito amor.”
katanadeadshot
“Pela honra entre os ladrões.”
notapieceofshit
“Minha filha vai saber que o pai dela não é um merda.”

E por último temos Harley Quinn… olha, eu vou falar. A Harley Quinn só existe em função do Joker nesse filme. E o Joker não importa no filme, então ela não importa. Todos os flashbacks dela são menos pra nos explicar sua motivação pra suas ações e mais pra estabelecer como ela e o Joker viraram um casal. Ela passa metade do filme só esperando o Joker chegar, e depois que o Joker chega, ele vai embora, quase morre e aí Harley fica sem nada pra fazer até poder pegar Enchantress com a guarda baixa.

harleyquinnenchantress
“Você ferrou com meus amigos.” Os mesmos que você esqueceu de salvar na hora H, Harley?

Apesar de sua importância na história ser desproporcional com o quanto esse alívio cômico aparece, Harley parece ser a mais confortável em ser uma vilã. O que faz sentido, afinal ser uma vilã permite que ela fique junto do Joker. Ela convence todos que estava realmente traindo o time pela Enchantress. Ela dá uma bronca no El Diablo sobre como viver uma vida normal nunca foi uma opção pra gente como eles. O que é contraditório, pois Harley viveu uma vida normal até conhecer o Joker. El Diablo tinha um super-poder que podia facilmente ser usado para o mal, mas Harley escolheu o mal, foi uma escolha não o inevitável o que rolou com ela.

harleynormal
E mesmo assim seu maior sonho é uma vida normal com o Joker, onde eles presumidamente não fazem vilanias.

Harley é estranha, ela literalmente abandonou todo mundo no meio do filme, mesmo tendo prometido levar eles junto, finge que trai todo mundo, mas ataca a Enchantress e fala que são todos amigos dela. Ela gosta de ser vilã, pois ser vilã é o que ela faz com o Joker, mas sonha com ser normal. Na parte da vilania não relacionada ao Joker, o filme falha em nos mostrar qual a opinião dela sobre o assunto, o que ela faz quando não está com o Joker. E talvez na perspectiva do filme ela não seja nada sem ele, o que é tosco em um filme onde ela essencialmente tem poucas cenas com ele.
A Harley tem muito potencial de existência fora da asa do Joker, e terem colocado ela como parte do Suicide Squad nos quadrinhos foi um dos inúmeros exemplos disso. Mesmo em um filme solo não conseguiram filtrar uma personalidade independente pra ela, e isso é patético.

harleyposter
Mas nada que impedisse o pessoal de transformar ela no centro da divulgação do filme.

Nem Harley nem Deadshot fazem nada realmente vilanesco o filme inteiro, exceto pela Harley que roubou uma bolsa. E por isso é realmente bizarro ver eles agindo como se fossem muito maus. Ao final eles arriscaram suas vidas por altruísmo pra salvar o mundo de uma ameaça realmente vilanesca. Isso é o que um herói faz. Eles todos tem o coração de um herói, mas o filme insiste que eles não têm, e soa falso em toda cena.
Tudo que faz esse filme existir gira em torno do conceito de que existe uma linha que separa heróis e vilões, mas que o contexto pode mudar quem está de que lado. Mas o filme não honra isso. O filme não honra nenhum debate possível de ser feito sobre o rótulo de vilão. O filme não honra nenhuma elaboração sobre a moralidade de seus protagonistas. A única coisa que o filme honra é cena de ação. E isso matou o filme.

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E indo pro território de opiniões muito particulares, eu acho que mesmo a ação poderia ser melhor aproveitada se não fosse contra homens-pedra.

O filme mal tem história. É uma longa missão de resgate com os protagonistas decidindo se querem ou não fazer a missão. Logo toda a história está no desenvolvimento de seus personagens que não existem. A base do que torna o filme ruim é a falta de desenvolvimento deles, que deriva do fato do filme não saber como retratar um personagem taxado de vilão, com um passado vilanesco no protagonismo e fazê-lo se portar como tal. Ele não precisa ser o vilão desse filme, mas ele precisa saber agir como um vilão, e nenhum ali sabia.

raiogenerico
Nem a vilã do filme sabia ser a vilã do filme. Ela ficou só soltando seu raio genérico pros céus e eu confesso que não entendi que merda esse raio fazia. O raio ia transformar a população do planeta em homens-pedra?

O filme poderia ter sido muito bom, se o roteiro tivesse sabido trabalhar os personagens, mas só souberam trabalhar a Waller e o El Diablo. Uma pena.
Enfim, pegando um contra-exemplo também da DC, no quadrinho Forever Evil (além de no próprio quadrinho do Suicide Squad), esse conceito é maravilhosamente trabalhado, onde em um mundo sem super-heróis, os super-vilões são por falta-de-opção-melhor obrigados a salvar a Terra de uma ameaça interdimensional, e embora eles assumam completamente o posto de salvadores do dia, eles agem e se portam essencialmente como vilões e trazem com isso a tona do quão relativa é a maldade de todos eles.

foreverevil
Essa HQ é foda.

Poderia ser o caso de Suicide Squad, mas não foi. O filme pedia uma reflexão sobre vilania e não fez. O filme pedia trabalho de personagem e não fez.
Breaking Bad é um bom exemplo de história onde um personagem maligno pode sempre ser o menor de dois maus e portanto se manter do lado “bom”, e isso não ser um problema pra série. E Breaking Bad consegue isso com bom desenvolvimento de personagem. Suicide Squad é o oposto, o péssimo desenvolvimento de personagem, mostra uma deficiência em fazer personagens malignos realmente parecerem malignos.
Podem odiar Batman v. Superman a vontade, mas esse sim foi o ponto mais baixo da DC.
E o pior. Vai ter um filme agora com a Harley, a Poison Ivy e a Catwoman, e eu não tenho nenhuma expectativa de que não repita os erros de Suicide Squad.

gothamgirls
Minhas expectativas? Tão ruim quanto esse, só que com três vezes mais cenas de sexualização feminina. E uma potencial cena de sexo entre Harley e Ivy só pelo fanservice.

Enfim, em Suicide Squad, tínhamos um personagem como representante das forças do bem, que morreu, mas existia. E em Breaking Bad existia também, mesmo que não fosse o protagonista. No próximo texto veremos como muitas vezes podem ser necessários 70 anos para uma história onde um personagem do bem simplesmente não exista enfim ser aceita pelo que ela é.

veraclaythorne

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3 thoughts on “A Visão do Vilão – Parte 2. Suicide Squad e como a falta de desenvolvimento dos personagens atrapalhou o filme.

  1. eu achava esse filme ruim só pela hiperssexualizacao sem sentido da Harley Quinn e pelo tom infantil que ele tem (porque falar meia duzia de palavroes pra fazer adolescente rir nao faz nenhum filme ser adulto, como vc mesmo disse em um outro post, só que em relação aos desenhos), e por terem feito essa desgraça com o Will Smith. Nem preciso do fator de filme ser o mais contraditório que eu já vi, só isso ja me fez odiar ele rs. Aliás, pra mim, esse filme foi todo feito por fanservice. A necessidade do Joker a cada 15 minutos, a bunda da Harley Quinn a cada 10, até mesmo a escalação da Cara Delenvigne, pessima modelo e atriz ainda pior, mas bem popular.. Enfim, tudo pra agradar um bando de adolescente, e ainda conseguiram falhar nisso.

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  2. A explicação para a inconsistência do personagem Deadshot é: Will Smith. Praticamente todos os papéis dele são de personagens-que-se-preocupam-com-a-família-acima-de-tudo, mesmo que esse lado do personagem demore a aparecer na história. Faz parte da imagem dele dentro de Hollywood. Eu já achei super esquisito ele de vilão num filme que prometia que teríamos um time dos piores de todos, e também por ser um time grande – certeza que o Will ia querer aparecer mais que os outros – mas deixei isso pra lá. E agora lendo sua resenha lembrei de tudo isso…

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