A Visão do Vilão – Parte 3. Por que demoraram décadas pra filmar o final original de And Then There Were None?

And Then There Were None, conhecido também pelo nome de Ten Little Niggers, que era seu título original em uma época em que você podia ser mais racista em seus livros que não pegava tão mal. É um dos maiores best sellers de todos os tempos. Um dos livros mais vendidos de todos os tempos, e o segundo livro mais vendido a ter sido escrito por uma mulher (sendo o primeiro Harry Potter and the Philosopher’s Stone). Revolucionou todo o gênero de livros de mistério, se tornou o livro mais famoso de Agatha Christie, mesmo sem ter nenhum de seus detetives icônicos nele, e por uma coincidência inacreditável é um dos meus livros favoritos de todos os tempos. O motivo pelo qual esse livro será o assunto desse texto não é nenhum desses grandes e honrados títulos, mas deriva deles, é o número altíssimo de adaptações que já fizeram desse livro.

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Não é surpreendente que um livro do cacife de And Then There Were None tenha eventualmente sido adaptado ao cinema. Porém esse é um caso em que o livro não foi adaptado uma ou duas vezes… o filme possui 4 adaptações americanas, 4 adaptações indianas e uma adaptação russa, isso só pra filme. Além disso foram 2 adaptações pra rádio, 3 séries de televisão, e surpreendendo até a mim, um jogo de videogame, além das incontáveis adaptações para o teatro. E isso só em adaptações diretas, não contando histórias originais que se inspiraram muito no livro.

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As adaptações mais famosas.
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Exemplo de filme recente inspirado no livro, mas que não é uma adaptação direta.

Pois bem, e o que essas adaptações têm em comum? Ah, vocês sabem… coisas de adaptações. Algumas mudam uma morte aqui e outra ali. Outras podem mudar o nome dos personagens. Algumas alterações leves no passado dos personagens. Tem uma que mudou a identidade do assassino… pode até parecer grave, mas eu acho que tudo isso é de boa e faz parte de adaptar uma obra. Ah sim, e a grande maioria dessas adaptações mudam o final. E mudar o final é imperdoável.

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Então vamos logo falar o final, já que mais do que o livro, o final do livro é o grande tema do texto. No final todo mundo morre. Mas de verdade. O livro consiste em dez personagens sendo assassinados um por um, até que sobra apenar um, que é induzido ao suicídio, deixando todo o crime sem solução. Isso é, exceto para o leitor, que em um epilogo pode ler uma carta escrita pelo assassino explicando como e porque aquelas mortes ocorreram. Mas só no epílogo em formato de carta, não no restante da narrativa tradicional. E lembrem disso, que isso é importante.

Mas não é só essa a mudança que mais me incomoda nas adaptações de And Then There Were None. A outra mudança comum é a de que nas adaptações, temos esses dois personagens: Vera Claythorne e Phillip Lombard que precisam ter suas personalidades completamente reescritas pra poder sobreviver. Eles precisam deixar de ser assassinos horríveis que morrem pra pagar um crime hediondo que cometeram no passado pra se tornar heróis e merecerem sobreviver a história e viver um final feliz… e final feliz significa se apaixonarem entre si.

E bem, por isso resolvi falar desse livro no mês comemorativo da Visão do Vilão. Afinal um dos maiores best-sellers do mundo e um dos livros de mistérios mais respeitados do mundo se sustentou tendo dois assassinos frios como protagonistas… mas essa é a parte que ninguém gosta de mencionar quando adapta a história. E por 70 anos temos tentado fazer Vera Claythorne e Phillip Lombard parecerem boas pessoas e fazê-los sobreviver e se portarem como heróis. E isso é contra a essência do livro. Não é só sobre matá-los, é sobre porque matá-los, é sobre o motivo pelo qual aqueles crimes aconteceram em primeiro lugar.

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É sobre porque Vera foi induzida ao suicídio oferecendo tão pouca resistência.

Então vamos falar da história, da parte que todo mundo seguiu fielmente. É bem rápido e fácil de resumir.

Dez pessoas, a maioria delas ricas e pessoas de status na sociedade foram chamadas para um evento social em uma ilha por um milionário excêntrico chamado U. N. Owen que elas só conheciam de nome. Cada uma foi chamada com um pretexto diferente, e acreditando que seria um evento de seu interesse. Porém ao chegar percebem que estão sozinhas em uma mansão com estranhos e sem nenhum sinal do senhor Owen. Uma gravação então revela em voz alta que todas as dez pessoas na ilha são assassinas. Todos eles cometeram um crime hediondo no passado, porém de maneira que a lei nunca conseguiria alcançá-los, e se safaram e esconderam esse crime com eles pra sempre, e agora eles estão nessa ilha, e uma vez nessa ilha, todos eles começam a morrer um por um, e eles logo percebem que o assassino é um dos dez disfarçado. As mortes todas fazem referência a uma poesia mórbida de dez pessoas cujo número ia diminuindo verso a verso, e eventualmente todos os dez morrem e não sobra ninguém vivo na ilha (pois o assassino se suicida após concluir seu crime perfeito).

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Isso tudo orquestrado pelo Juiz Lawrence Wargrave, que se infiltrou na ilha como um dos dez, desejando dar a eles justiça. Wargrave é meio que o personagem em quem os criadores de Dexter mais obviamente se inspiraram. Ele era um psicopata que logo na infância notou que era um psicopata e um assassino e que ele só sentiria prazer nessa vida matando pessoas. Visando viver uma vida funcional em sociedade mesmo com esse distúrbio mental, Wargrave se tornou um juiz, buscando ter um pretexto para sentenciar pessoas para a forca e essencialmente poder matar pessoas como seu ganha-pão. Apesar disso Wargrave jamais foi um juiz injusto, nem jamais condenou alguém a morte que não fosse culpado de um crime cuja punição fosse de fato a pena de morte, e portanto sempre fez muito bem seu papel de juiz, porém ele tirava prazer de ver aqueles criminosos se enforcando. Enfim, Wargrave em sua velhice adquiriu câncer, se aposentou e decidiu que terminaria sua vida fazendo o que amava, matando gente. E portanto ele fez uma ampla pesquisa pra achar assassinos que escaparam das garras da lei por tecnicalidades, para condená-los por fora e então se suicidar, afinal após cometer os assassinatos na ilha, ele seria um assassino também e deveria ser executado igualmente, ainda é melhor que morrer pro câncer.

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Lawrence Wargrave

Wargrave frauda a própria morte, sendo o sexto personagem a “morrer”, isso para poder ter mais liberdade matando os quatro restantes. E quando sobram somente dois personagens: Vera Claythorne e Phillip Lombard, os dois presumem que o outro em sua frente só pode ser o assassino, afinal acreditavam que Wargrave junto dos outros oito, estava morto. Bom, Lombard ainda tem dúvidas quanto a Vera, mas ela tem certeza e mata Phillip crendo que assim sobreviveria. Porém ao voltar pra mansão e se deparar com uma forca montada, ela muito naturalmente concluí que só resta a ela se enforcar pelo assassinato que ela cometeu no passado, e ela o faz.

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E isso é importante de ser frisado. Ninguém obriga ela a se matar, a não ser sua culpa. Embora muitos filmes façam Wargrave olhar nos olhos de Vera enquanto essa se mata, no livro ela está sozinha. E a única coisa em sua mente quando ela vê a forca é a conclusão natural de que essa forca é pra ela, e a visão da criança que ela assassinou segurando sua mão enquanto ela se enforca. Isso é diferente de fazer ela ser enforcada e após pendurada por exemplo, pois a própria Vera concorda com o fato de que ela merece a forca.

E o importante aqui é: Wargrave desejava punir essas pessoas por matarem e se safarem. Todas essas pessoas tinham causado mortes de maneira tão indireta que tornava legalmente impossível de provar a culpa delas. O general que mandou seu soldado em uma missão suicida após descobrir que ele transava com sua esposa. O mordomo que deixou a patroa morrer negligenciando os remédios que ela precisava e ficou com a herança. A maníaca religiosa que demitiu sua empregada grávida por ser uma pecadora e a humilhou até que esta se matou. O médico que operou uma mulher enquanto bêbado e a matou em um acidente clínico que nunca foi admitido. Nenhuma dessas pessoas sujou as mãos de uma maneira que elas possam de fato ser levadas a corte, mas todas elas eram assassinas. E mais do que isso. Wargrave não escolheu a ordem acidentalmente, ele deixou os crimes mais hediondos por último, pois queria que as últimas vítimas também fossem torturadas psicologicamente e pensassem muito a respeito do que fizeram antes de morrer.

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Vera Claythorne não foi a única a ter visões de sua vítima na ilha. Emily Brent viu enquanto resava o fantasma de Beatrice Taylor, a mulher que ela matou.

Pois bem. Nisso temos as últimas vítimas. Vera Claythorne e Phillip Lombard. Segundo a lógica de Wargrave, os dois piores da ilha inteira. Os dois assassinos mais hediondos do livro, e sim, mais hediondos ainda que Wargrave, afinal o juiz não esperava impunidade pelos seus atos, ele pretendia morrer na ilha. Vera matou uma criança afogada, pois namorava o tio da criança e sabia que o tio era o herdeiro do menino por questões de burocracias-financeiras-de-famílias-ricas. Vera era quem cuidava da criança, Cyril Hamilton, e permitiu que ele nadasse em mar aberto a uma altura que ela sabia que ele se afogaria. Já Lombard, um mercenário aventureiro, em uma missão em algum país não especificado da África, abandonou 21 nativos que o ajudaram na missão pra morrerem, deixando-os ilhados e levando toda a comida para si, aumentando assim sua chance de sobrevivência. Duas pessoas horríveis.

O que me leva a pergunta: por que transformar uma assassina de crianças e um cara que sacrifica a vida de 21 pessoas por puro egoismo nos heróis da história? Não tinha ninguém melhor pra transformar em herói? Porque não transformar em herói o Dr. Armstrong? O Blore? Ou mesmo o Wargrave? Mas não. Tinha que ser a Vera e o Lombard, afinal, eles são os personagens que ficam mais tempo vivos no livro.

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Além de serem um homem jovem e uma mulher jovem, o que significa na mente de qualquer produtor “casal”. Algo que eles não são no livro, mas mesmo algumas adaptações fieis transformam eles nisso.

Pois é. Vocês devem notar muito isso em filmes de terror. Começa com um grupo de personagens andando juntos e não fica muito claro pra você quem é o protagonista, mas eles vão morrendo um a um até que só sobra um, e então você conclui que o protagonista é o último a morrer. Pois é, And Then There Were None tem dez protagonistas, e inconscientemente a gente sempre acha que o protagonista é o último a morrer. Afinal se é o personagem com o maior tempo de tela só pode ser o protagonista.

E essa é a história do post de hoje. Poucos anos após o lançamento do livro, o livro foi adaptado para o teatro, e a Agatha Christie em pessoa escreveu o final novo, em que Vera revela que é inocente de seu crime, e que a real assassina de criancinhas era sua irmã. Enquanto Lombard revela que ele não é o Philip Lombard de verdade. Nessas adaptações, e isso é verdade, o nome verdadeiro do homem que foi para a ilha é Charles Morley, e ele foi pra ilha achando que lá ele descobriria mais sobre a morte do verdadeiro Phillip Lombard que morreu fora da ilha. Então mesmo que Phillip Lombard tenha matado 21 homens, o Charles está limpo.

Então Vera finge que mata Charles só para esperar pessoalmente que Wargrave a mate, e quando o juiz aparece, Charles revela que está vivo, os dois derrotam Wargrave, escapam da ilha, se apaixonam e se casam. QUE FINALZÃO FELIZ DA PORRA.

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Final feliz. Todos gostaram. Vamos levá-lo ao cinema…. Mas pera aí. Vamos levar esse final ao cinema 4 vezes. Vamos levá-lo ao teatro e as telenovelas. E desde então se tornou tradição nas adaptações de And Then There Were None, inocentar Vera e Phillip de seus crimes hediondos, adicionar romance entre eles (o que não existe no livro original, no máximo uma atração sexual de Phillip por Vera que não é consumada), fazer com que eles derrotem Wargrave e saiam vivos.

O livro foi escrito em 1939. Considerando a data em que esse texto é escrito, isso significa 78 anos atrás. Quase 8 décadas. A primeira adaptação com o final alternativo foi feita em 1943. Ou seja, 4 anos após o livro. O livro viveu 4 anos só até Vera Claythorne ser obrigada a deixar de ser uma assassina de crianças que tapeou e matou um sobrevivente das selvas africanas para virar a heroína benigna e apaixonada por um aventureiro cafageste. E o pior, essa mudança foi feita pela própria Agatha Christie, após convencerem ela de que esse final funcionaria melhor no teatro.

Pois bem, desde 1943, esse final feliz se tornou o final padrão para qualquer adaptação. Com o nome Charles Morley se repetindo inclusive, para oficializar esse final novo. E isso só foi desafiado pela primeira vez em 1987. Na adaptação cinematográfica Десять негритят (Desyat Negrityat), feita na Russia. Vamos falar um pouco sobre a adaptação russa.

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Desyat Negrityat foi oficialmente a sexta adaptação pra longa-metragem do livro já feita, e foi feita 44 anos depois que começaram a ser feitas adaptações de And Then There Were None. E ela se destaca na lista por fazer questão de ser fiel ao livro.

Não só o final é mantido, como mesmo sem saber nada de russo, qualquer um pode deduzir que o título é a tradução pra russo do título original da obra Ten Little Niggers, sendo a única adaptação existente a manter o primeiro título (e a de fato colocar as estátuas de negrinhos no centro da mesa, na história). O que pode indicar várias coisas: que a Russia não tem uma população negra suficientemente grande para que tomar cuidado com conteúdo racista seja uma preocupação, mas, principalmente, indica que a adaptação estava vindo na vibe de ser a adaptação definitiva do livro, o mais fiel possível. E se tornou a adaptação mais popular entre os fãs do livro e uma das mais notáveis em um grupo de seis outros filmes com a mesma história de tanto que isso destacava o filme.

Mesmo hoje eu acho que é a melhor adaptação. Embora eu tenha ficado bem feliz com a minissérie da BBC da qual falarei daqui a pouco.

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Bom, é certamente a melhor cena de morte do Anthony Marston.

O filme não tinha alterações quanto a história original. Mesmo final, mesmo assassino, mesmos flashbacks, mesmas mortes do mesmo jeito na mesma ordem nas mesmas condições tudo idêntico. A versão Russa tem uma e somente uma diferença em relação ao livro.

Quando sobram somente os dois sobreviventes, Phillip Lombard e Vera Claythorne e eles ainda acreditavam que Armstrong era o assassino (e por isso não suspeitavam um do outro), eles tem esse momento a sós. E Lombard estupra Vera. Por que? Por que ele pode, não sobrou ninguém na ilha pra impedi-lo, e ele está armado, e ele abusa de Vera pra se saciar assim que essa chance aparece. Essa cena não agrega nada de novo na trama. No máximo nos lembra de que Lombard é um egoísta escroto que tiraria um prato de comida de uma criança faminta só pra saciar sua gula, mas eu acho que isso já estava estabelecido o suficiente. O estupro não tem peso na decisão de Vera de matar Lombard, uma vez que ela o mata por acreditar que ele era o assassino, não por vingança ao abuso. E não interfere nas ações dos personagens após o evento. Por último a cena não é sensual e não tem como objetivo trazer sexo pro filme, pois ela é o oposto de um fanservice, é cruel e tenso de se assistir. Logo pra que essa cena foi colocada lá se ela não faz diferença?

Minha teoria? Pra cuspir em todo mundo que interpretou a atração de Phillip por Vera como romance. Cenas de olhadas nas pernas da garota no livro que foram, por unanimidade, adaptadas como um sinal de romance entre os personagens, e sido o gatilho pros dois se apaixonarem e fugirem juntos? Pois não na adaptação russa. O que Lombard sentia por Vera era outra coisa, e ele demonstra isso da maneira mais cruel, hedionda e condizente com sua personalidade possível. Um estupro é a coisa mais distante de uma história de amor que existe, e portanto é o que foi inserido ali para negar qualquer amor entre os personagens.

Mas claro, se quiserem agregar a misogínia do diretor a tudo isso também vão em frente que não vi mais nenhum filme do brother e não ponho a mão no fogo por ele não, não vou defendê-lo não.

Pois bem, Desyat Negityat enfim apresentou ao mundo adaptações de And Then There Were None com o final original. E isso significa que agora todo mundo pode imitar, e começaram a surgir as primeiras peças de teatro com o final original.

Mas foi só em 2015, no ano retrasado, que a primeira adaptação audiovisual em língua inglesa com o final original foi produzida. No formato de uma minissérie da BBC. 27 anos depois do filme russo fazer o mesmo.

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A adaptação da BBC tomou suas liberdades, inclusive foram muitas liberdades, incluindo a inserção do romance entre Vera e Lombard, mas foi uma adaptação fiel a original, e não no formato de “filme russo obscuro que nunca vai ser comercializado no ocidente”, mas em um formato mainstream feito no país nativo de Agatha Christia. Uma adaptação de verdade e com alcance. Demorou quase 80 anos, mas ela foi feita enfim.

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Inclusive é a única versão a adicionar uma cena de sexo entre Vera e Lombard (já que não vou chamar uma cena de estupro de cena de sexo, me recuso), presumo eu que é porque as séries de hoje em dia tem mais cenas de sexo e isso é marca da leva atual de produção televisiva. Em especial se elas querem parecer mais pesadas.

Agora vamos falar um pouco sobre adaptações e fidelidade. E para isso vamos falar do videogame de And Then There Were None lançado em 2005 para Nintendo Wii. É. Isso existiu.

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A história do jogo tem várias mudanças drásticas em relação ao livro e à maioria das adaptações. Delas eu destaco três mudanças. A primeira, é que na casa não tem 10 pessoas, mas sim 11, sendo a décima primeira… você, o jogador, controlando Patrick Narracot, o motorista de barco que levou os convidados à ilha em primeiro lugar, e ficou lá devido a uma tempestade, driblando os planos do assassino com uma pessoa extra na casa que não é um criminoso que se safou com um assassinato. A segunda mudança é que no jogo o assassino não é o Wargrave, mas sim Emily Brent. E a última mudança é…. tan tan tan, advinhem só? Isso mesmo, Vera Claythorne e Phillip Lombard são inocentes de seus crimes e Lombard é na verdade Charles Morley. Mas dessa vez a Vera não se apaixona pelo Lombard, ela se apaixona por… você, jogador, e aí o Charles Morley dá a benção ao jogador para casar com a Vera… sério. Isso acontece.

E por que eu quero falar do jogo? Pois eu joguei muito na expectativa de que o assassino fosse o Wargrave, e descobri que era a Miss Brent, e gostei dessa mudança, e quero usar isso como exemplo pra filtrar o que importa e o que não importa numa adaptação.

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Na verdade ela é uma mulher chamada Gabrielle Steele se passando por Brent, mas vamos ignorar essa parte, ou não vou conseguir defender a mudança.

Qualquer um dos filmes de And Then There Were None poderia ter mudado a identidade do assassino que eu acho que não seria uma mudança que prejudicaria a história. Pois eu acho que a identidade do assassino não está conectada ao tema, está conectada somente ao jogo de mistérios que se faz com o expectador. O whodunnit como é chamado esse estilo de história. Quando se adapta um livro de mistérios da fama de And Then There Were None e impacto cultural do mesmo deve se presumir que metade da audiência já sabe quem é o assassino e que o que está acontecendo é assistir um filme de mistério em que o mistério não tem mistério algum. E isso pode ser corrigido mudando o assassino, para resgatar o suspense no público e isso NÃO seria má adaptação.

Por que na moral, foda-se o Wargrave, o assassino podia ser absolutamente qualquer um. Digo, seria bem escroto se fosse o Lombard ou a Vera, ou mesmo o Blore, mas existiam muitos suspeitos bem válidos para servirem de assassino. E o fato de que só descobrimos a identidade dele depois que a história essencialmente acabou (no livro em um epilogo e nas adaptações filmes quando Vera já está diante de sua forca), só reforça que descobrir quem é o assassino é um detalhe estético pra prover conclusão à nossa curiosidade e não um pilar da história.

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A revelação de que o assassino é Wargrave é sempre feita depois que todos os desdobramentos da história já aconteceram. Ou seja, é uma revelação que não desencadeia nada, só conclui.

Claro, Wargrave tinha a melhor motivação. Mas Miss Brent, obsessiva por pecado e religião podia perfeitamente ter resolvido assumir o manto de justiceira e punir os pecadores. Seria mais que válido, quebraria a arrogância do pessoal de nariz empinado que acha que já sabe as respostas do mistério, pois leu o livro antes.

Mas isso trás a pergunta, o que importa pra história funcionar? Se não é o mistério? Pra história funcionar, um grupo de assassinos que acharam que iam se safar pelo resto da vida e viver vidas normais depois de cometerem crimes hediondos devem ser encurralados por uma mente superior a deles que os coloque em uma posição de extremo desespero. E diante de um crime perfeito todos eles morrem pra esse assassino, incapazes de driblá-lo.

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“Tenha a certeza de que teu pecado te encontrará.” (Números 32:23)

Isso é o importante. Pois é um livro que dialoga muito com a impunidade. O que não é estranho, o segundo livro mais famoso de Agatha Christia, igualmente debate o tema da impunidade em um final que não vou dar detalhes, pois o texto não é sobre isso. Mas não é um tema que foge à Agatha Christie. Novamente, a maioria daquelas pessoas eram ricas, e com títulos. General Macarthur. Juiz Wargrave. Dr. Amrstrong. Eram todas figuras públicas que os outros convidados já conheciam de reputação quando chegaram na ilha.

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O Dr. Armstrong foi facilmente manipulado por Wargrave, crendo que um homem de seu título jamais seria o assassino, independente do fato de que todos ali eram assassinos em primeiro lugar.

Muitas adaptações alteram o personagem de Anthony Marston, a icônica primeira vítima de Wargrave, para um príncipe, e isso é uma boa adaptação. Por que? Por que condiz exatamente com o que a obra original passa. São pessoas acostumadas que passem a mão na cabeça delas e a não precisar pagar, e agora é a hora delas. Sabem, elas não estavam fugindo de seus crimes, não tiveram que viver mentiras pra se safar, elas vivem as vidas normais que viviam antes de matar com poucas alterações.

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Nessas versões seu nome muda pra Nikita Starloff.

E nesse contexto, a ideia de terem dois heróis inocentes no meio é inaceitável. Foge do tema. Afinal, tiraria a razão do Wargrave, e se Wargrave perder a razão ele instantaneamente migra de um antagonista justiceiro motivado por um senso moral infalível, que viveu uma vida inteira de juiz sem dar um único falso veredito, para um serial killer padrão vilãozão.

Mas o ponto é: por 44 anos, ninguém confiou que essa história poderia se sustentar sem um personagem heroico. Que ela poderia realmente conectar com o público com todos os personagens morrendo no final, sem ninguém casar. Com dez assassinos juntos numa casa sendo o antagonista o único personagem que não tem expectativa de se safar de seus crimes. Muito sombrio. Muito pesado. Ninguém achou que funcionaria, ninguém quis tomar esse risco.

Afinal, como estou falando o mês inteiro, morremos de medo de pôr um vilão como protagonista de uma história nos dias de hoje. É algo raro e difícil de se encontrar.

Mas ainda sim, o livro, em seu manuscrito original é um dos maiores best-sellers do mundo. Referência máxima de livros de mistério. E um dos 9 livros não-religiosos da história da imprensa a superarem a marca de cem milhões de cópias vendidas.

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Então como é que se pega uma história tão vendida? Que se tornou a mais famosa e respeitada de seu próprio gênero? E se jura de pés juntos de que ela precisa perder sua essência para funcionar com o público?

Essa, meus leitores, é a parte que eu digo que temos medo de vilões protagonistas. Quando nem toda a glória de relevância literária circulando a história pode convencer um produtor de hollywood de que essa história funciona. Quando não dá pra confiar que a história de um dos 9 livros mais vendidos do mundo tenha apelo, por conta de vilões como protagonistas.

No próximo texto, fechando o mês temático, quero falar sobre um dos melhores exemplos recentes de vilão protagonista que deu certo, e sobre o porque de ter dado certo.

yagami

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11 thoughts on “A Visão do Vilão – Parte 3. Por que demoraram décadas pra filmar o final original de And Then There Were None?

  1. Acordei abrindo seu blog, aAcho que já estava adivinhando que ia chegar texto novo.
    Já vi uma adaptaçao do livro sim, no canto mais absurdo que eu poderia imaginar: na série Family Guy. Não lembro os detalhes do episódio, mas gravei o plot na minha mente.
    Adorando essa série de textos ❤

    PS: Indiquei seu texto da Bela e a Fera e destrui a infância dele, pq era o conto de fadas favorito dele, além da princesa Disney favorita.

    PS2: Qual sua expectativa para a versão live- action do filme?

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    1. Tenho medo dessa versão live-action, pois eu sinto pelo trailer que vai ser um remake fielzão mesmo, sem tirar nem por da animação. Com as mesmas cenas, as mesmas músicas os mesmos tudo.

      O que tem dois problemas. O primeiro é de ser um filme meio irrelevante, se ele é feito pelo mesmo estúdio, para mostrar a mesma visão sobre a mesma história com os mesmos detalhes, então a única coisa nova é a Emma Watson de cosplay fazendo cover das músicas originais. Tenho medo que esses remakes Disney de todos os clássicos animados sigam a tendência de fidelidade extrema ao ponto de não ter nada novo a agregar. Aí a única motivação pro filme existir é o rio de dinheiro que ele vai virar.

      Meu segundo problema é que eu tenho meus problemas com o roteiro original, e sinto que se o live-action for idêntico, ele vai herdar os mesmos pontos que me incomodam no original.

      Mas enfim, pretendo assistir e espero estar errado, de verdade, adoraria que o filme me surpreendesse positivamente.

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  2. Hum, quando você citou que o juiz do livro serviu de fonte na construção do Dexter, imaginei que ele seria o tema do próximo texto, não teria como estender esse mês e falar dessa série que foi fantástica até a 4a temporada? Aliás, muitos comparam Dexter com Death Note,e vendo essas análises penso que talvez essa série seja o melhor live action de Death Note! E mais uma coisa: seria uma boa também comentar sobre a série britânica de House of Cards (o protagonista dela deixa o da versão americana no chinelo). Seus textos são fantásticos, tão me salvando de ficar vendo as coisas chatas do facebook, kkkkk. Sucesso

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    1. Quando eu escolhi os textos do mês, eu pensei cuidadosamente em pegar exemplos de mídias diversas. Eu começaria com uma série, iria para um filme, então para um livro e encerraria com um mangá.

      Tem outras obras que eu mesmo gostaria de ter falado mais nesse mês, mas não consigo fazer mais de um texto por semana (já tentei no passado), e não queria sobrecarregar o tema por mais de um mês. (queria tanto ter achado espaço pra falar do Lorax, livro pra crianças que ainda estão aprendendo a ler, e que conseguiu colocar o vilão como narrador com sucesso).

      Muito embora nada me impeça de ressuscitar essa série no futuro para falar do que ficou faltando. É uma possibilidade.

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  3. Nesse “caso”, acho fundamental o vilão ser o juiz, especialmente porque todos os outros (li há muito tempo) parecem mais suspeitos do que o próprio, além de a religiosa ter possíveis motivações óbvias demais e incompatíveis com o grau de inteligência necessários para aquela armadilha. Um assassino de fervor religioso usaria outros métodos.

    No entanto, não é somente por isso que defendo o juiz como culpado. Entre os presentes, as motivações dele são as mais qualificadas. Um sujeito que sempre se engrandeceu às custas de sentenças alheias arriscaria sua profissão para punir completos estranhos? Sim. Um justiceiro não ciente do próprio fascismo tentaria impor sua lei e moral sobre todos, especialmente se pudesse escapar impune.

    Pessoalmente, achei o lance da doença terminal clichê. Poderia se tratar de um assassino justiceiro performando um ato máximo de “justiça” como um exemplo mor à sociedade de maneira similar ao {SPOILER} assassino de Se7en {fim de SPOILER}, tendo (o juiz) já experimentado a impunidade por crimes menores de justiçamento. Dessa forma, ele ironicamente se encaixaria com perfeição no perfil que estabeleceu para os outros.

    O que não devemos deixar de notar é ele ser tão criminoso e vil quanto os outros, merecendo destino pior por impor seus padrões e torturar suas vítimas. Além disso, percebo o quão seu perfil psicopata se encaixa em muitos juízes autoritários a aparecer em notícias. Consideram-se semideuses e te processam se vc questionar uma carteirada (uma agente do Detran passou por isso). Na obra, o juiz dá sua carteirada sobre o médico.

    Apesar do enjoativo melodrama, o juiz é punido nos filmes tradicionais por ter errado seu julgamento. Não que ele perceba o bom caráter de suas últimas vítimas, mas ele compreende, em seus últimos momentos, que sua armadilha não deu certo e somente seus menores propósitos foram alcançados. {SPOILER} O final de “Death Note é muito satisfatório nesse sentido {fim de SPOILER}.

    Fica ainda mais difícil engolir o sucesso do juiz, quando o maior fascista de todos conseguiu escapar de maneira similar e tendo atingindo um grande (grave) objetivo: o extermínio de judeus.
    Por mais que vilões devam ser retratados como protagonistas de certas estórias, a ausência de justiça (especialmente justiça poética) estimula tais comportamentos em nossa sociedade.
    A punição deve ser retratada como via de regra e a impunidade, um acaso {SPOILER} como em Match Point {fim de SPOILER}.

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    1. O livro deu a entender que nunca havia praticado justiçamento em sua vida, sendo o crime na ilha seu primeiro e sua última execução fora dos tribunais, onde ele foi lembrado pelas autoridades por nunca ter errado um veredito em sua vida. Um recorde até exagerado, mas usado pela autora pra passar seu ponto.

      E ele era particularmente suspeito. Pouco antes de sua falsa morte dois dos personagens tinham certeza de que o culpado era ele justamente pelo quanto a natureza dos crimes de assemelhava com a de um juiz.

      O juiz pode ser notado também por ter valores mais progressistas que seus colegas criminosos. Em certo trecho nota-se que muitos achavam o crime de lombard menor por suas vítimas serem negros, enquanto o juiz (e a religiosa) eram os únicos que achavam que a cor da vítima não tirava a gravidade do ato. De maneira semelhante, muitas adaptações transformam o crime cometido pelo policial como um de homofobia para o mesmo conflito de valores surgir (muito embora homossexualidade fosse um literal crime na Inglaterra na época em que o livro foi escrito, então sabemos que em seu histórico de nunca ter errado um veredito entre certamente condenou muitos homens só por serem gays).

      No geral não acho que o juiz tenha tentado passar uma mensagem pra sociedade, afinal ele construiu a situação para que seu crime ficasse sem solução, logo poucos saberiam por que aquelas vítimas morreram (já que só elas sabiam que se tratavam de assassinos ) quando a matança é pra passar uma mensagem, é muito mais eficaz deixar um sobrevivente que conte a história (como jigsaw fez em jogos mortais). Foi um ato puramente egocêntrico de um homem que após uma vida inteira dedicada somente à lei finalmente realizou seu sonho de se tornar um assassino.

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      1. “sendo o crime na ilha seu primeiro e sua última execução fora dos tribunais” Sim, já me lembrava disso. Meu parágrafo a que vc se refere trata mais sobre hipóteses que o texto poderia ter utilizado, mas foram testadas posteriormente em obras de teor similar.
        (…)
        Se o juiz não tivesse tentado passar uma mensagem, não teria lançado ao lago a garrafa com a confissão de seu crime (disso eu lembro bem) e a autora teria de encerrar sua estória com um narrador em terceira pessoa e onisciente a assumir a função de denunciar o assassino.

        Se, por um lado, seria o crime perfeito sob esse final. Por outro, seria uma solução até questionável para o leitor, tendo em vista que nem narrador nem personagem provaram nada ou conseguiram salvar alguma daquelas vítimas. Aliás, a própria distância do narrador utilizado impede que ele participe ativamente – como alguém que resolva o crime.

        No entanto, como o próprio criminoso confessa (e só ele tem motivação para escrever aquilo), não há como questionar sua verossimilhança dada aquela situação tão incógnita.

        Portanto, até mesmo para dar validade à solução, o juiz precisa ter esse aspecto exibicionista ou teria que deixar indícios fáceis de investigar – nesse caso, um personagem detetive seria apresentado posteriormente para resolver o crime, SE os próprios envolvidos não conseguissem resolvê-lo. O que seria um livro bem diferente, talvez mais próximo das outras obras de Christie.

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      2. Ah, sim. Não consegui editar minha resposta anterior, então acrescento: Fico grato pela atenção e pelo bom diálogo.
        Aguardo ansiosamente a próxima edição desses posts sobre o vilão.

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  4. Olá!
    Antes de mais nada, quero dizer que conheci seu blog bem sem querer (comecei pelo post sobre o Vegeta), mas não consigo parar de ler, adorei suas análises.
    Quando vi que tinha um post falando de um dos meus livros preferidos, fiquei com receio de ler, mas concordo com tanta coisa que você “falou” que foi uma grata surpresa.
    Maaaas, o que me fez comentar (dificilmente comento na internet) foi que eu discordo de uma coisa: a cena de sexo na última adaptação.
    Discordo de você pois não acho uma cena aleatória, colocada apenas como chamariz para os mais jovens, porque toda adaptação de clássicos tem sexo agora.
    Acho que é bem mais do que isso, e vou tentar explicar tão bem quanto você.
    Por mais que todos os personagens sejam importantes, é preciso reforçar que aqueles com maior tempo em cena são os mais aprofundados psicologicamente, o que faz de Vera e Lombard importantes para a discussão de personagens maus como protagonistas. E eu, particularmente, destaco a Vera como a pior de todos os dez, sem pensar duas vezes. Ela é fria, má, manipuladora e falsa.
    E essas características demoram para aparecer no livro, apenas quando estamos frente a frente com a realidade de que ela é mesmo a autora do crime contra a criança que ela deveria cuidar, que percebemos o quanto essa mulher nos enganou.
    Já na série, a cena do sexo (e da festinha dos sobreviventes) deixa claro que ela não está mais preocupada em fingir ser uma mulher que ela não é.
    Se pensarmos bem, a história, a princípio, deixa claro o interesse SEXUAL (sem floreios românticos, por favor, isso estragou bastante o desenvolvimento de ambos os personagens) de Lombard nela, mas não dela por ele. Muito pelo contrário, ela parece até se incomodar com suas investidas.
    Ok. Ao longo da história, ela (é todo o resto) descobre que todos ali são suspeitos de crimes hediondos e que estão morrendo um a um é por seus crimes , deixando claro q ninguém ali é inocente. E então, o que ela faz? Ela faz daquele cara pervertido e egoísta seu “protetor”, inclusive indo pra cama com ele. É amor? Não, é cilada, Bino!
    Vera não é uma mocinha pura é inocente, ela é uma mulher esperta, que foi capaz de manipular um herdeiro bobo e matar uma criança de forma bem cruel para se dar bem na vida. Ao dormir com Lombard, ela deixa claro para quem assiste que ela é uma manipuladora do mais alto calibre, veja só:
    1) por mais que você esteja apaixonada/com um tesão enorme por um cara, vamos combinar que para qualquer pessoa normal descobrir que ele pode ser um psicopata assassino é uma desculpa ótima para sumir. Afinal, tesão tem limite. E eles estavam presos numa ilha, ameaçados de morte por uma pessoa que poderia ser qualquer um deles. Um senhor afrodisíaco, só que não.
    2) ela não faz a menor ideia de quem está fazendo aquilo, apenas sabe que não é ela. Por que então baixar a guarda desse jeito para um cara que, por que não, poderia ser o responsável por todo aquele jogo sádico?
    Bem, eu vejo a resposta como: porque Vera é uma manipuladora fdp.
    Ela não foi pra cama com o Lombard porque ele era gato (e olha que ele é sempre retratado como um cara boa pinta), ela fez isso para fazer ele baixar a guarda , ela descobrir se ele era o culpado (e se fosse, ela teria ele na mão, lembra que ela usou do tio do menininho que ela matou para se dar bem?).
    Assim como você ressaltou que no filme russo, Lombard estuprar Vera reforçava (a falta de) caráter e a escrotisse dele, nessa versão, a relação sexual entre eles, reforça a maldade de Vera, dando pistas ao espectador antes mesmo do final.
    Além de ousar apresentar o final original, eu vejo essa última adaptação feita bem corajosa em mostrar a Vera como uma mulher bem pérfida, ganhou muitos pontos comigo, porque ninguém merece Vera e Lombard casal fofo e heróico.
    Não sei se ficou muito claro, mas, quando eu vi a série, foi o que eu vi dessa cena, e quis falar aqui…
    Desculpe me intrometer na sua ótima análise!

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