A Series of Unfortunate Events e os personagens que são o centro de seus universos.

 

Alerta: Embora seja a política do blog não poupar o leitor de spoilers, nesse caso, o Dentro da Chaminé realmente quer ajudar a divulgar a série do Netflix e por isso esse texto é seguro para todos os fãs de A Series of Unfortunate Events, seja os que viram só a série quanto os que leram os 13 livros. Os poucos paragrafos que farão menções ao final do livro estão devidamente marcados para o leitor poder pular. Fãs da série podem ler sem medo, e dito isso, fica aqui minha recomendação que leiam os livros.

Vamos lá, A Series of Unfortunate Events é a minha série de livros favorita de todos os tempos. Mais até do que A Song of Ice and Fire, que já ganhou dois textos aqui no blog. E devido ao fato de que a única coisa pior que uma série de livros que você aprecia muito nunca ser adaptada para outra mídia, é ela ser adaptada, mas em uma versão que muda o tom da obra, perverte a mensagem dela e coloca o Jim Carrey como protagonista, eu fiquei muito feliz quando anunciaram que os livros seriam adaptados em uma série do Netflix.

Netflix
E que notícia boa foi essa.

E quando a série saiu em janeiro foi maravilhoso. Praticamente se tornou natal novamente. Digo a série não é perfeita, e em vários ponttos, eu na perspectiva de fã acho que dava pra fazer melhor, mas ela chegou mais longe do que eu esperava. E bem, como muitos fãs hypeados, eu acabei relendo os livros e notei uma coisa muito interessante, que a série corroborou.

Todos os guardiões dos Baudelaire cometeram o mesmo erro, independente de serem bons ou maus. Eles colocaram os próprios interesses na frente do dos Baudelaire. Aí você me pergunta “Até mesmo o Tio Monty?” sim, até mesmo o Tio Monty meus leitores. E quando se para para pensar isso faz muito sentido, afinal de contar, essa é a tragédia dos Baudelaire, as vezes eles estão acompanhados de gente pérfida, e as vezes eles estão acompanhado de gente muito bem intencionada, as vezes eles sequer estão acompanhados, mas eles sempre estão sozinhos e por conta própria. E isso é horrível.

Digo, é ótimo que Violet sempre seja capaz de inventar um aparato que salve a vida deles, mas uma menina de 14 anos merecia uma vida melhor do que uma que a obrigue a improvisar com poucos recursos e dar de McGuyver para salvar a própria vida e a dos irmãos toda semana. Nenhuma criança devia viver nessas condições independente do quanto seus talentos permita que elas sobrevivam. E o papel de bons adultos é impedir que crianças tenham que lidar com isso. Mas na série não existem bons adultos.

VioletInvention
Útil, mas atende a uma necessidade que numa situação ideal nunca deveria existir.

Existe o Tio Monty que é definitivamente o mais próximo que a série vai conseguir de um bom adulto. Mas adivinhem só, ele não protegeu as crianças de absolutamente nada. E é por isso que a história é triste.

MontyMovies
A série ainda deu uma melhorada na competência do personagem, pois o livro deixou bem claro que Monty não tinha conhecimento o suficiente pra captar o código passado no filme.

Em Harry Potter, muitos professores tinham defeitos, mas a maioria deles estavam lá para guiar Harry e direcioná-lo a ser o máximo que ele podia ser. Assim como em Avatar. Ou em Fullmetal Alchemist. Ou em Percy Jackson. Ou em absolutamente qualquer história em que o protagonista seja uma criança ou um adolescente. Os adultos podem até ficar de fora da ação em prol de fazer os protagonistas fazerem as coisas da hora que todo mundo curte, mas sempre tem alguns adultos que estão lá para ser retratados como exemplo, fonte de sabedoria e guias para os protagonistas em uma fase de transição.

HarryDumbledore

Afinal é isso que faz Young Justice ser tão bom.

Mas A Series of Unfortunate Events é o oposto, é sobre crianças negligenciadas, que não conseguem ter um adulto como guia, e são obrigadas a fazer crescer e amadurecer enquanto são expostas a toda a perfídia do mundo.

JusticeStrauss
Juiza Strauss e Sr. Poe, mais do que boas intenções, trabalham em sistemas que supostamente deveriam ter poder pra proteger as crianças, mas no final das contas se mostram completamente inúteis, apesar da Juiza Strauss ser bem intencionada, na hora de proteger as crianças da perfídia no mundo.

O que me trás ao motivo pelo qual os adultos não ajudam os órfãos. É um motivo muito simples. Todo personagem de A Series of Unfortunate Events acha que seus problemas são o centro do mundo. Todos eles lutam as próprias batalhas e presumem que seus aliados os ajudarão a lutar essas batalhas, nunca se perguntando se seus aliados não tem as próprias batalhas. Ou seja, todos vêem tudo em uma perspectiva auto-focada.

Todos exceto nosso narrador é claro. Por isso eu quero começar falando sobre ele.

Narrator

Quando começamos no primeiro livro ou no primeiro capítulo da série uma coisa que notamos rapidamente é o Lemony Snicket, a pessoa que está nos relatando essas desventuras, e ele diferente da maioria nos narradores em terceira pessoa no mundo, não é discreto. O tempo todo a naturalidade de suas descrições se perdem em comentários ácidos que quebram o ritmo da história que nos lembram que tem um ser humano datilografando aquilo para nós e o nome dele é Lemony Snicket, o que obriga toda e qualquer adaptação dos livros a não só ter um narrador, como a fazer ele aparecer em cena enquanto narra para poder capturar esse estilo tão forte nos livros. Pois é, mas mesmo sabendo que é o Lemony Snicket que está nos contando tudo o que ele está contando, ao longo da série nós descobrimos que ele é também um personagem da história, e que ele existe dentro do universo de A Series of Unfortunate Events, o que não é obvio nos primeiros livros.

JudeLawLemonySnicket
Na adaptação pro filme ele foi literalmente retratado como um cara eternamente em uma máquina de escrever. A marca de seu estilo narrativo na série é tão forte, que tanto o filme quanto a série nem cogitaram a possibilidade de não ter um ator interpretando presencialmente o narrador.

Nesse ponto, o leitor começa a fazer um grande número de perguntas como “Quem é Lemony Snicket?” “Qual a conexão dele com a história?” “Por que ele se preocupa tanto com os Baudelaire?”, e essas são todas perguntas erradas formuladas por nossos cérebros que tem pressa de fechar todas as pontas soltas da história e esperam que ao descobrir que o narrador é parte daquele universo feche algumas delas. O que nós devíamos nos perguntar quando descobrimos que o narrador é um personagem, mesmo nunca aparecendo pessoalmente na história é: “Podemos confiar no que ele diz, agora que sabemos que ele não é um narrador onisciente brincando de Deus em um mundo fictício, mas sim um membro daquele mundo relatando o que vê e pesquisou?” ou “Por que ele não narra a si mesmo e as próprias aventuras, se ele vive nesse mundo e também viveu as próprias aventuras? Porque ele não fala sobre a morte da namorada que tanto o aflinge ou sobre seu trabalho nessa organização secreta da qual ele muito obviamente faz parte?” E isso seria uma ótima pergunta para nos fazermos.

ATWQ

Lemony Snicket viveu uma vida incrível, lutando contra o mal como parte de uma organização secreta ao lado de seus dois irmãos e de uma amada que não conseguiu dar a ele o que ele queria e acabou falecendo nas mãos de um vilão cruel. Ele foi dado como morto por um jornal que não prioriza a verdade, acusado de um crime que não cometeu por conta de um vilão horrível, e está sendo caçado pela polícia. Mas mesmo assim a gente só pega fragmentos de todas as desventuras que cruzaram com ele, pois ele enquanto membro daquele universo tem a percepção de perceber o quanto essa história que ele viveu não importa tanto, a história que importa pra ele é a história dos Baudelaire. E não toda a história dos Baudelaire, especificamente o que aconteceu com os orfãos entre o incêndio na casa deles e os eventos descritos no 13º Livro: The End. Lemony acha que é a história dessas crianças que precisa ser registrada priorizando-as em relação a própria história e como uma missão moral mesmo. Ele ressalta que ninguém é obrigado nem deveria querer ler uma história tão triste, mas mesmo assim é sua missão sagrada registrar a história dessas três crianças e dar a elas o protagonismo nesse universo.

PP1

PP2
Muitas ilustrações dos livros ilustram isso bem, cercando os Baudelaire por pessoas misteriosas, todas parecendo muito importantes, mas que nunca aparecem na história. Como se a história deles fosse outra.

Não são muitos narradores-personagens que fazem isso. A maioria fala ou sobre si, como o Bentinho fez, ou sobre o período em que eles ficaram amigos do protagonista, como Watson fez. Enfim. É sobre isso que eu quero fazer esse texto, na maioria das obras de ficção, o universo gira inteiramente em torno dos protagonistas, pois seus protagonistas são a cola segurando tudo o que existe e acontece ali, e os protagonistas nunca percebem isso.

MarshallBarney
“Eu não acho que o universo se importe com a minha vida amorosa.” “A menos que a sua vida amorosa seja a cola que une todo o universo.”

Mas em A Series of Unfortunate Events é o oposto. Os Baudelaire não são a cola segurando todos aqueles eventos, são meramente as pessoas cujas desventuras acompanhamos. Mas ainda sim, a muitos dos personagens veem a si mesmo como a cola que segura o mundo. Todos se focam primariamente nos seus problemas e só focam nos problemas do próximo ao acreditar que o problema do próximo e o próprio são o mesmo.

Vamos falar um pouco do Tio Monty, vamos? Tio Monty foi apresentado no segundo livro, e no terceiro episódio da série como o Tutor-bom dos Baudelaire, logo que avançamos, lembramos dele eternamente como o melhor tutor dos Baudelaire. Inclusive peço perdão pelo leve-spoiler pra quem ainda está só na série, mas ele nunca vai perder essa percepção, não vamos pegar ninguém melhor que o Monty no futuro.

MontyBaudelaire

Pois bem. Tio Monty, em todo seu carinho, atenção, bons tratos e decência, nunca realmente acreditou que o Conde Olaf pudesse ser uma ameaça às crianças. Claro que ele reconheceu que Stephano era um pilantra, mas ele interpretou que Stephano estava se disfarçando de seu assistente para roubar suas cobras, ao ver que Olaf era um notório vilão, ele interpretou que só podia ser um inimigo pessoal dele e não das crianças, e isso gerou um ponto cego que impediu que ele protegesse as crianças.

StephanoMonty
Se o Tio Monty soubesse com o que estava lidando, ele poderia ter tomado outra atitude e poderia estar vivo. Mas é claro que pra saber dessas coisas, ele precisaria ter tido uma conversa com as crianças que ele não teve.

Após ele, tivemos a Tia Josephine, que abertamente sacrifica a segurança das crianças pela segurança dela com uma certa vergonha, mas faz isso mesmo assim, afinal o importante é cuidar bem de si mesmo. O narrador conclui por fim que ele não considera Josephine uma pessoa ruim, mas considera ela uma tutora ruim.

AuntJosephine

E por último tivemos o Senhor, que nos livros literalmente vê o mundo sob um filtro da fumaça que ele mesmo gera, o que é um simbolismo para o fato que ele propositalmente se mantém ignorante sobre coisas horríveis que ocorrem com quem está ao redor dele para poder se focar melhor no que interessa a ele que é gerar lucro. Na série, por questões práticas se tornou inviável fazer o personagem ter o rosto coberto por fumaça 100% do tempo, mas eles inseriram esse pedaço de diálogo que mostra que a metáfora não se perdeu.

Sir
Senhor, como é retratado nos livros.
VioletandSunny.png
“Você sabe o que é acontece nessa serraria? Você tem noção de alguma coisa fora dessa horrível nuvem de fumaça?”

No gancho para a próxima temporada eles viverão em um colégio interno, cuja natureza de seu diretor e tutor dos Baudelaire ainda não conhecemos, mas sabemos que eles serão colegas de outras crianças orfãs envolvidas em uma vida de negligência por parte dos adultos com a própria história possivelmente tão desventurada quanto a dos Baudelaire.

Quagmire
Duas crianças talentosas que acabaram de perder a família nas mãos de um vilão misterioso, poderiam ser as protagonistas da própria história, mas nós nos contentamos em ver apenas a fração de sua história que cruza com a história dos Baudelaire.

E com o Conde Olaf, o tutor original cujo narcisismo é uma de suas características marcantes, podemos ver que os quatro tutores da série juraram cuidar de crianças, mas cuidaram de si mesmos quando mais importava, negligenciando as crianças. Claro que em um espectro do quanto apesar disso eles podem ter sido pessoas maravilhosas, nem-tão-maravilhosas, pessoas-que-permitem-que-coisas-ruins-aconteçam e pessoas horríveis.

E esse ciclo vai seguir com os futuros tutores dos Baudelaire. A verdade, é que eles estão no centro de uma tragédia pessoal, mas todo mundo está, e a maioria das pessoas que eles encontram não coloca a tragédia dos Baudelaire em primeiro plano, exceto Lemony Snicket, que é o motivo para que a gente saiba da tragédia deles em primeiro lugar.

Alerta, a partir daqui é território não-seguro para quem só viu a série, mas não se preocupem, rolem a página até o próximo texto negrito em vermelho que vai simbolizar quando o território volta a ser seguro e livre de spoilers.

O interessante é que as crianças são igualmente culpadas de fazerem isso, elas sempre se centram tanto na própria tragédia, que muitas vezes acabam sendo a tragédia da vida de outras pessoas. Como Hal, o senhor de idade, com uma visão muito ruim que eles encontram no Livro Oitavo. Eles tiram vantagem da visão de Hal para assuntos pessoais, e após o Conde Olaf por fogo no Hospital, esse senhor sempre lembrará dos Baudelaire como aqueles que lhe tiraram o emprego que era tão importante para um senhor de tanta idade, ainda que não tenham sido eles que queimaram o hospital, e ainda que eles tenham se sentido culpados pelo quanto arruinaram a vida de Hal. Isso se repetirá com o parque de diversões que eles ajudam a incendiar, e com o Hotel que eles propositalmente incendeiam, pois passar um sinal para Kit Snicket no momento soou uma prioridade mais aceitável do que salvar a vida de literalmente todas as pessoas que eles conheciam, que estavam no Hostel e vendadas no momento do incêndio. Eles tinham muitas tragédias, e eles tinham que evitar a cadeia, e no momento salvar a própria vida soou a prioridade.

Essas desventuras culminam em uma ilha sem nome. Onde os Baudelaire finalmente tiveram a chance de obter respostas sobre várias perguntas pendentes. Mas só obtiveram respostas sobre desventuras que não as que eles viveram, e dão de cara com o fato de que eles são só uma fração da história toda e de que eles nunca vão ter real acesso a história toda, mas que ela não gira em torno deles, e que muitos acontecimentos não tem nada a ver com eles.

Por último, eles são obrigados a ver o Conde Olaf ser assassinado nessa ilha, por um homem que acusou Olaf de um crime que o vilão nunca cometeu. E pessoalmente eu acho que deve ser bem frutrante pras crianças, após ver Olaf driblar a justiça por 12 capítulo, enfim pagar por um crime que não tinha nada a ver com as atrocidades que ele cometeu, em um grande ato de injustiça. Mas claro que Ishmael, o assassino nem notou isso na hora, ele tem a própria tragédia, e nem imagina que um vilão como Olaf não esteja ligado a sua tragédia.

Antes de morrer, Olaf joga uma dúvida para os órfão e para o expectador. Foi mesmo ele que incendiou a casa dos Baudelaire? Ou simplesmente presumimos que foi só pra fechar essa ponta solta? Olaf nega que tenha sido ele, e ressalta o quão arrogante os Baudelaire são de acharem que os acontecimentos da vida dele não são vestígios de uma série de histórias das quais eles sequer ouviram falar. E enfim morre.

Pronto, aqueles que só viram a série podem voltar a ler, os spoilers acabaram e não vão voltar mais. Fiquem tranquilos. E voltem nesse texto daqui a 2 anos quando a série exibir seu final, é um complemento interessante esses 4 parágrafos.

A conclusão que se chega é que em A Series of Unfortunate Events, temos duas histórias. A história dos Baudelaire, e a história de uma organização secreta muito confusa. As duas histórias se cruzam, e o leitor e os personagens são tentados a achar que as histórias são as mesmas, mas não são. A história dos Baudelaire tem um protagonista, e é uma história trágica, sobre crianças incapazes de confiar nos adultos, incapazes de confiar em um sistema ou na sociedade ou em ninguém. Que decepção após decepção, adulto após adulto falhando, instituição após instituição falhando, vão percebendo que só podem contar com elas mesmos. É uma história cheia de mistérios, enigmas, pessoas misteriosas e fatos que não conectam, mas é a história que começa no 1º Livro e concluí no 13º livro fechando perfeitamente o arco narrativo proposto, e na minha opinião com um final ironicamente trágico.

MrPoe
Afinal é isso que o Sr. Poe representa na série. A única instituição que se oferece pra ajudar três crianças orfãs é um banco, o que a primeira vista não faz tanto sentido, mas acho que é justamente esse o ponto.

Já a história da organização secreta é uma história que começou muito antes do 1º livro e vai terminar muito depois do 13º livro, inclusive, Lemony Snicket escreveu uma segunda série de livros, chamada All the Wrong Questions, que se passa muito antes de A Series of Unfortunate Events, e a história da organização começa ainda antes de All the Wrong Questions. Enfim, essa é uma história sobre cisões, corrupção, e sobre a linha que separa o bem do mal e o quão confusa ela pode ser. Ela responde todos os mistérios da história dos Baudelaire, mas ela é grande demais pro leitor conseguir acesso a história toda, muito embora, se você ler o livro com atenção e ficar atento aos detalhes, você verá que sabemos de muito mais do que parece que foi dito. E o mais importante, ela não tem um protagonista. Não tem um único herói ou vilão que esteja no centro dessa organização, e cuja jornada nos permita entender o que ocorreu, onde ela teve sucesso e onde ela falhou, e a incapacidade dos personagens de entender uma história sem se colocar no centro dela, é muitas vezes onde está a ruína deles.

vfdlogo
Não vou dar spoilers sobre o que esse olho significa.

E esse é grande o diferencial de A Series of Unfortunate Events da maioria das séries infanto-juvenis ou young adult, como são chamadas hoje em dia, que existem, que colocam seus protagonistas para serem protagonistas de toda a história de mundo que ocorre ali. Então em Harry Potter, o Harry Potter é apresentado como um garoto que literalmente descobre aos 11 anos que existe uma sociedade de bruxos da qual ele nunca tinha ouvido falar, mas onde ele é famoso e importante e tudo o que ele faz afeta essa sociedade diretamente. Em Hunger Games, uma garota sozinha consegue se tornar o símbolo máximo de uma rebelião que derruba um governo que se manteve não-desafiado por quase um século… e isso não é ruim, é normal histórias de aventuras quererem contar a história de pessoas grandes e relevantes que afetam drasticamente o mundo em que vivem, mas isso ressalta o quanto a proposta de A Series of Unfortunate Events é outra, é seu extremo oposto, é um mundo onde nenhum personagem tem esse poder de ser o centro do universo, embora muitos acreditem que tenham. É focar em crianças que ao invés de mudar o mundo, passem 13 livros sofrendo e o mundo jamais se importou.

BaudelaireOrphans
Os orfãos Baudelaire em seu estado natural. Sozinhos e cercados por tragédia.

Com a segunda temporada já tendo sido confirmada (embora fosse obvio que rolaria) e com a confirmação de que ela cobrirá os eventos até o livro nono The Carnivorous Carnival, admito que estou muito ansioso de ver enfim material inédito sendo adaptado com dignidade, uma vez que por mais que eu odeie o filme e adore a série, a única coisa inédita que veio com a série foram os dois últimos episódios.

 

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8 thoughts on “A Series of Unfortunate Events e os personagens que são o centro de seus universos.

  1. Olá
    Faz uns meses que eu acompanho o seu blog, e desde a primeira resenha já me prendeuba atenção. Sempre espero uma visão única e inédita daquele filme/série/desenho/livro.
    Eu sempre gostei de Desventuras em Série desde o filme. Por mais mal-adapatado que seja, ele me prendeu a atenção com a história melancólica e cheia de mistérios. Acho que é assim mesmo, todo filme diminui bastante o original.
    Por exemplo, sou muito fã de Harry Potter e comecei assistindo aos filmes. Achava que eles eram perfeitos… Até começar a ler os livros. Depois de me deliciar com eles, passei a achar os filmes “incompletos”.
    Acho que o filme vai dar essa impressão depois que eu vi a série. E aposto que vou ter a mesma impressão depois de ler os livros.

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  2. Sinceramente, curti mais o filme. Apesar de adaptar a ordem dos eventos de uma maneira que ofendeu os fãs (eu achei necessário para o formato de 2h), sinto que ele foi fiel ao tom pessimista e obscuro dos livros. O tom da série é infantil DEMAIS a ponto de se tornar bobo (não idiota, nem estúpido, nem imbecil, SÓ bobo).

    No filme, todos os atores trabalham muito bem (não estou exagerando, todos atuam muito bem), principalmente as crianças, enquanto os intérpretes protagonistas na série achei fraquíssimos. Neil Patrick Harris constrói bem um mau ator, mas acho, tal qual água e óleo, esse aspecto não se mistura com o de uma pessoa má. Harris é um incompetente ambicioso – não necessariamente mau – e Carrey um canastrão pérfido – esforçado, mas excêntrico demais e afobado. Abordagens diferentes, ambas interessantes, mas acho Harris sabotado por um elenco ineficiente.

    A direção de arte do filme também me agrada muito mais por ser mais sombria, enquanto a série abusa de tons e combinações leves, até nas paletas monocromáticas.

    Admito: Só assisti os dois primeiros episódios, mas não tive ânimo de prosseguir. Um tom muito bobo para uma estória que eu levo a sério em função das metáforas no livro e do realismo (o mundo real cruel).

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    1. De boa curtir mais o filme, mas acho que a pegada dele é visivelmente mais otimista e visa um mundo menos cruel em vários pontos.

      O mais notável sendo o fato de embora o Conde Olaf tenha terminado o livro solto, a justiça chegou a prendê-lo, e prendê-lo especificamente pelos seus crimes contra os Baudelaires, e tenha sido punido apropriadamente e com justiça por todo o mal que ele já causou aquelas crianças. Isso ter ocorrido mostra que a justiça no mundo por mais falha que pode ser, existe e está do lado dos Baudelaire. O que é um contrasenso com o livro, onde em um certo momento fica muito claro que contar com o sistema legal nunca foi uma opção para as crianças.

      O Sr. Poe do filme é notávelmente mais bem-intencionado. Por mais incompetente que seja, ele se focava sempre em ter o bem-estar das crianças em primeiro lugar, inclusive tirando a custódia das crianças de Olaf por maus-tratos. No livro e na série, ele faz vista-grossa quanto ao fato de Olaf ter batido em Klaus, puxando o in loco parentis, pra justificar qualquer mau trato que Olaf possa cometer com os ofãos. Na série e no livro, Poe é um burocrata que cuida das crianças porque é seu trabalho, e um trabalho que ele quer resolver rápido para poder prosseguir com seus outros trabalhos, e ele só se preocupa com elas no momento em que afeta ele (se elas correrem perigo, eu perco minha promoção). A série adiciona o detalhe do Sr. Poe ser eternamente feliz, reagindo com um sorriso a qualquer situação, em descompasso com toda a injustiça que ele testemunha todo episódio.

      Completo que o Narrador do filme é excessivamente otimista. Ressaltando como as crianças tinham a habilidade de transformar a torre de Olaf em seu santuário de paz particular, enquanto a série e o livro enfatizam que a melhor coisa que podia ser dita da torre de Olaf era “melhor do que nada”, e fechando o filme falando que a habilidade dos Baudelaire de encontrar felicidade em qualquer situação tornava elas crianças muito sortudas, sendo essa a conclusão do filme “Os Baudelaire são crianças sortudas por serem capazes de produzir felicidade.” um contrasenso com a própria proposta da história.

      Mas tipo, na boa preferir o filme, tenho muitos amigos que preferem, mas não consigo concordar que ele é mais pessimista ou mais dark que a série, que apesar do tom cômico, em nenhum momento faz a tragédia dos Baudelaire menos trágica.

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  3. Ola,esse é meu primeiro comentário aqui no blog,e pra ser sincero ,nem é pra falar sobre desventuras em série,só queria parabenizar você pelo seu trabalho,acho que eu nunca achei alguém que gostasse de uma forma tão certeira as paradas que eu também gosto(salvo o lance do batman vs superman) mas eu queria deixar uma recomendação pra você de manga,gantz é tipo meu manga de ação favorito tudo que foi comentado naquele post sobre gantz,eu concordo em numero e gênero,enfim,o nome do manga é oyasumi punpun(traduzido:boa noite punpun) e é um seinen bem foda,basicamente conta a historiade do punpun,da infância ate a vida adulta, o desenvolvimento do personagem é o mais foda que eu já vi até hoje,e olha que eu já li muita parada boa ,talvez os 2 primeiros volumes te afastem um pouco da obra porque eles são meio lentos(mas eu te juro que se você ler esse manga ate o final,você vai ficar numa bad vibe que você não tem ideia,PS: já deixei 2 amigos meus em crises existenciais e fiz uma amiga minha chorar por quase 1 mes por causa desse manga)acho ele legal,porque ele se aproxima muito da realidade,e ele é muito interpretativo(cada um tem suas próprias conclusões) n quero falar mais sobre esse manga até mesmo pra quem quiser ler ir descobrindo,mas seria um sonho um post aqui no blog sobre inio asano(autor desse manga),enfim meus parabéns pelo blog e tudo de bom pra você

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    1. Mas cara, eu acho Punpun um mangá excelente, entre os melhores que eu já vi. Só nunca abordei no blog mesmo por não ter pensado em um bom recorte pra abordar.

      E o pior é que quando me recomendaram me deram a impressão de que ia ser um mangá de comédia, aí já no primeiro capítulo já quebrou tanto minhas expectativas, me empolguei ali mesmo, devorei o mangá inteiro em alguns dias e na época faltava só o último capítulo pra ser lançado.

      Enfim, gosto bastante.

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  4. Oi, moço o/
    Só corrigiria uma coisa: a Netflix é menina hauhauahua
    Não sou eu que estou falando, mas a própria página dela quando perguntam pq escrevem “A Netflix”.
    Achei muito engraçado e interessante, justamente por questão de abordagem de identidade de gênero: ela não tem um corpo, não tem genitálias para definir seu “sexo biológico”, o que a impede de ser menina?
    Sobre o texto, acompanhei a série e li todos os livros, a maioria de uma única sentada, no começo eu fiquei incomodado com o Lemony aparecendo, mas depois de ver q o próprio autor estava roteirizando e expandindo a história (e depois de me acostumar) comecei a gostar.
    Pessoalmente espero que a série dure 3 temporadas ou tenha um spin-off como os livros tiveram, pq é um universo que precisa ser conhecido.
    Outra coisa é q espero que gastem mais com a produção, para a Sunny não ficar mais com o rosto flutuando no corpo de CG ou coisinhas afins hauhauha.
    Muito ansioso pela nova temporada, assim como estava ansioso pela estreia desde q soube q iriam fazer.
    Obrigado por escrever sempre!!!

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    1. Na verdade não. O próprio Daniel Handler já explicou que foi dele a ideia de fazer os órfãos terem cores alegres e fortes (vermelho azul e amarelo) para constatar a falta de cores ao seu redor. Gostei muito da composição da Violet, achei próximo das ilustrações onde ela usa vinho

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