Star vs the Forces of Evil, ou: Como é contada a história de um reino?

Olá meus amigos. Hoje vamos falar de uma animação fantástica do Disney XD que eu demorei demais pra começar a ver: Star vs the Forces of Evil, pois agora que eu enfim tirei o atraso, está na hora de falar a respeito dessa série, e eu tenho muito pra falar sobre ela.

PosterS3

Mas antes, eu tenho que falar sobre uma grande alegoria comumente feitas em filmes de ficção científica e de fantasia… é mais de ficção científica, mas pode ser encontrado nos dois. Que é o racismo fantástico. Ou seja, filmes que são sobre racismo, mas não sobre a divisão étnica que existe na sociedade atual. E sim sobre divisões étnicas fictícias (geralmente com raças muito mais divididas que as de nossa sociedade, com cada lado sendo uma espécie diferente, e não uma mera diferença em tom de pele), em conflito que traça paralelos com conflitos raciais do nosso mundo. Na perspectiva de Hollywood, é um jeito bem prático de se posicionar contra racismos na sociedade, sem ter que realmente colocar atores negros, indígenas ou mexicanos para interpretar papéis no filme, pois produtor nenhum quer isso.

LuffyHodyJones

Meu problema central costuma ser que eles costumam fazer uma abordagem falaciosa de como relações raciais funcionam, geralmente pela vilazinação desse um grande membro da minoria oprimida, que odeia a etnia opressora e é portanto “tão racista quanto o outro lado”, e suas ações essencialmente são tratadas pelo filme como o grande responsável pelo racismo existir em primeiro lugar. Como se não houvessem instituições que propagam racismo e como se não fosse estrutural… fosse só questão da minoria parar de reagir que o ódio sumiria. Na prática eu sinto que a moral do filme acaba sendo “racismo é muito muito ruim, mas ruim mesmo é essas minorias reclamando, vamos ficar de olho nelas.” e o pior, gente que passa essa mensagem abertamente em filmes sendo aplaudido como se tivesse feito uma puta luta anti-racista. Como se a alegoria não precisasse ser bem-feita, só precisasse ser feita.

Koba
Se o Koba não odiasse tanto os humanos, macacos e humanos teriam vivido em paz pra sempre. Puta critica social foda.

Mas assim, pra ser bem sincero, eu estou relativamente acostumado a relevar isso. Muita obra faz essa porcaria e ainda sim eu acho ótimos filmes. Destaco aqui Dawn of the Planet of the Apes(aliás trilogia boazonha essa, recomendo demais) e os bons filmes do X-Men(porque tem os bons e os ruins). É, eles dão dessas, mas ok, apesar disso os filmes são bons. Mas tem alguns que não são essa coca-cola toda não, e quando não tem um filme bom cercando a mensagem, aí o incômodo me pega feio. Como foi com Zootopia, que não chega a ser ruim, é meia-boca, mas faz essa metáfora particularmente mal-feita, tem até texto aqui no Blog. A primeira temporada de Korra também fez isso de maneira bem mal-feita, mas o exemplo mais interessante é sobre como Harry Potter fez e uma maneira realista e bem elaborada, mas a autora se recusou a fazer a crítica em prol de tornar o cenário dos livros mais escapista e comerciável, deixando a situação um pouco estranha. Tem texto pra isso também, e no fundo dialoga com o texto de hoje, pois foca muito em como a maneira de narrar da J. K. Rowling e o que ela enfatiza em ao falar do mundo de Harry Potter afeta a noção de racismo no mundo de Harry Potter tanto quanto as ações dos personagens.

DeathEaters
Os vilões de Harry Potter, repletos de iconografia racista pra garantir que ninguém perca o paralelo na sala de cinema.

Enfim, o texto de hoje vai ser sobre um desenho animado que trabalha racismo fantástico de maneira na minha opinião bem-feita. Que é Star vs the Forces of Evil. E por que é bem-feito, vocês me perguntam? Bom, primariamente porque trabalha a questão de um ponto menos individualista, não procurando descobrir qual personagem está errado, ou em quem começou o conflito, como se racismo fosse um problema que algumas pessoas específicas estão causando. Em vez de fazer isso, a série se foca muito em outro ponto: o que mantém o racismo funcionando.

FightingMonsters
Em sua primeira aparição Star Butterfly afirma que luta com monstros por diversão. Lembrem-se disso.

Na maioria dos filmes é simples. Ódio puro. Interesse em lucrar em cima de um conflito da população. Uma eterna briga de “quem bateu primeiro?” Interesse em lucrar em cima do outro enterrado debaixo da terra desse povo nativo. Costumam ser esses. E a eterna ideia de que as raças sempre terão suas diferenças.

Em Harry Potter a segregação começou com os bruxos reagindo com medo e receio aos tempos em que trouxas queimavam bruxos. Em X-Men, os humanos têm medo dos mutantes e de sua eventual extinção. Em District 9, os humanos são escrotos essencialmente porque eles podem. Em Avatar os humanos são gananciosos.

Em Star vs the Forces of Evil, o que mantém o racismo funcionando é a necessidade de contar a história do povo opressor de uma maneira que seja confortável e conveniente ao povo, e a maneira como as pessoas aprendem a própria história é uma grande naturalização do ódio contra outras espécies para justificar os massacres cometidos ao longo da história.

PopUpBook

E a maneira como a série trabalha a maneira que a perspectiva histórica afeta a população e o reino, é o verdadeiro tema do texto. Não vou focar só na parte de racismo fantástico, pois vai além disso.

Mas primeiro vamos recapitular, o desenho conta a história de Star Butterfly, a princesa do Reino Butterfly, um reino que fica em outra dimensão, chamada Mewni, onde magia existe. Ao fazer 14 anos, ela, pela tradição da família real, pode herdar a varinha mágica da família real, de sua mãe, a proprietária anterior da varinha. Pois bem: Star é rebelde, energética, impulsiva e caótica e em dez minutos já fez tanto estrago com a varinha, que seus pais mandaram ela para outra dimensão pra poder fazer a bagunça que ela quiser enquanto aprende a usar sua magia, sem destruir Mewni no processo. Pois bem com isso ela começa seu programa de intercâmbio interdimensional na Terra, na casa de um rapaz chamado Marco Diaz, que rapidamente se torna seu melhor amigo.

StarVsTheForcesofEvil

Porém vários monstros habitam Mewni, e um grupo desses monstros, liderados por um monstro-kappa chamado Ludo, planejam aproveitar que Star está em uma dimensão pacífica e sem magia, e longe dos guardas de Mewni, pra atacá-la e roubar sua varinha.

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Pois é, e Ludo aparecia em praticamente todo episódio com um exército de monstros pra roubar a varinha e Star e Marco desciam a porrada neles, afinal são monstros, obviamente querem fazer o mal e tal.

EndBattle
Chegou minha licença de varinha. Pau no cu dos monstros.

Pois bem, mas aí chegou um episódio chamado Mewnipendence Day, que nos trouxe algumas informações a tona. Descobrimos como o reino da família da Star foi fundado. E como foi? Simples, um grupo de pessoas chegaram nessa terra pra se estabelecer e começar vida nova, eles construíram casas e plantaram milho, mas a terra era habitada por monstros terríveis que atacaram essas pessoas. Então eles lutaram contra os monstros e depois de uma longa e heroica, os Mewmen (a raça humanoide da Star) venceram a luta. E agora no aniversário do dia da vitória, os Mewmen comemoram fazendo uma simulação da guerra, voando um olho voador pelo reino, que não enxerga nada, mas é um eterno lembrete pros monstros de que a família real está sempre olhando, e no final eles comem muito milho em conjunto.

MewnipendenceDay

Esse episódio foi o primeiro a dar uma dose de humanidade aos monstros. Tipo, claro eles sempre fizeram alguns comentários pro Ludo, falas de humor, pedindo ou mencionando coisas casuais, mas esse episódio nos mostrou que tipo, o exército do Ludo, aqueles monstros são indivíduos.

Começando pelo Ludo lembrando que todos os monstros do reino odeiam o feriado, e fazem questão de chamá-lo pelo seu nome oficial “O Grande Massacre Monstro”, muito embora Star chegue a usar esse nome em um momento pra descrever a batalha, os monstros nunca usam o termo “Mewnipendência.” que a Star usa.

BigScreen
“Como podem ver, a Princesa Butterfly está reencenando nosso feriado ‘favorito’, o Grande Massacre Monstro.” 

Em segundo lugar, esse episódio dá destaque a um monstro específico do exército de Ludo. Buff Frog. Marcando a primeira vez em que um monstro ganha destaque individual além de Ludo. Ele tem medo de ficar obsoleto para o exército de Ludo, e sem esse emprego, ele voltaria para o pântano, de onde ele saiu por causa de Ludo, então existe também uma dívida de honra por esse vilão.

Porém agora Ludo está associado a esse cara chamado Toffee, um monstro-lagarto, sério, frio e manipulativo, que é mais inteligente que Ludo e o faz dançar na palma de sua mão. Buff Frog notou isso, e protegeu seu amigo, e Toffee começou a manipular Ludo para este substituir Buff Frog.

Pois bem, na trama da Star, ela está introduzindo o feriado para seus amigos da Terra. Ensinando-os a comemorar. Ela convidou sua professora, a Srta Skullnick, pois Star acidentalmente transformou-a em um Troll, e agora ela é um monstro, e vai deve lutar a batalha do lado dos monstros.

Troll
“Eu posso ser uma mewman?” “Você é um monstro! Foi pra isso que te chamei.”

Porém Marco se incomoda ao ver como a batalha é representada. Os mewmans vão lutar armados até os dentes, eles tem armas enormes, cavalos enormes, armaduras enormes e tem o dobro ou o triplo do tamanho dos monstros, que deverão lutar desarmados. Marco então comenta com Star se ela não acha que essa luta é uma luta injusta.

Massacre

E a menina então fica em silêncio, como se ela tivesse acabado de perceber algo que ela nunca percebeu na vida: Os monstros foram dizimados em uma batalha que eles não só não começaram como nunca tiveram chance de vencer.

ItsOkay

Ela fica pensando nisso tanto que para de prestar atenção na festa toda. Até que Buff Frog, invade a festa pra roubar a varinha. Ele aproveita que metade da festa está fantasiada de monstro pra passar desapercebido. Ele quase chega na varinha, mas é atacado por um dos amigos de Star. Star então entra em pânico ao ver Buff Frog ser atacado, achando que é um dos seus amigos fantasiados de monstro sendo espancado em uma luta injusta. Quando ela percebe que era um monstro de verdade ela instintivamente saca a sua varinha então para atacá-lo.

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Mas vendo o medo no olhar dele, ela não consegue atacar. E só fica olhando, reflexiva quanto ao que estava acontecendo. Quando ela joga um narvál na cabeça de um monstro desarmado que nunca foi adversário a altura dela, ela está sendo justa? Os monstros com os quais ela luta todo dia morrem de medo dela? Ela fica pensando nisso.

Parte2Parte3

Porém Buff Frog é demitido por Ludo, já que falhou em conseguir a varinha. Ele volta pra Terra ficar na bad numa árvore perto da casa de Star.

E Star percebe Buff Frog sozinho e encolhido em uma árvore e dá para ele um pouco do milho do banquete final. Aliás, desse episódio em diante, milho será usado constantemente como um símbolo de fartura no reino. A família real come e desperdiça milho constantemente, e protege todas suas colheiras com um escudo de magia que impede que os monstros possam comê-lo. E os monstros desejam muito poder comer milho tanto para matar sua constante fome, como pelo símbolo que é ter acesso ao milho, a comida que lhes foi negada a vida toda..

E a Star dividiu seu milho com o Buff Frog no aniversário do Massacre dos Monstros.

Corn

Pois bem, esse episódio foi pioneiro na série em diversos aspectos. Não só na maneira como deu foco em um monstro secundário, que eventualmente se tornaria um personagem central na série, como foi o primeiro a falar um pouco sobre a história do Reino Butterfly, o que se tornaria um assunto importante na série, já que após isso vemos menções às várias rainhas e princesas que o reino já possuiu, e as suas batalhas e o seu legado.

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A primeira rainha de Mewni é introduzida nesse episódio (e só aparece nesse episódio até o momento…)

Mas o ponto é que depois desse episódio, a situação real dos monstros foi mostrada. Sim, eles são um exército, e sim seu líder quer roubar a varinha de Star e roubar o reino pra si. E não me leve a mal. O Ludo é um calhorda completo. Inclusive vou falar mais do Ludo mais tarde, tenho teorias sobre ele. Mas fica bem claro que o motivo pelo qual eles odeiam o reino, é porque eles não fazem parte dele, não são considerados o povo, e não podem comer do milho.

BufffrogLudo

Depois de demitido, Buff Frog adota uns 13 girinos bebês e cria eles sozinho, conseguindo emprego como capanga de um outro ex-capanga de Ludo chamado Boo Fly. Boo Fly era diferente de Ludo, ele viu que os ratos do reino estavam conseguindo milho e queria saber como, e pegar algo pra ele e seus capangas também. Ressalto, comer milho é realmente importante pros monstros, é um símbolo de tudo o que eles não tem direito em Mewni. E mesmo sem se envolver com Ludo, Buff Frog ainda se envolve em organizações de monstros, pois é literalmente tudo o que ele consegue fazer. Afinal não é como se ele pudesse ter alguma esperança de ganhar algum emprego no castelo. Aliás eles não tem permissão nem de entrar nos limites da cidade.

Corn
Plantação de milho com um campo de força impedindo os monstros de pegarem. Um pequeno buraco no campo de força se abriu que foi usado pelos ratos para roubar o milho e Buff Frog se juntou a uma equipe de monstros pra pensar numa maneira de colhê-lo também.

Mas o ponto é: na perspectiva dos monstros, todas suas ações. Seja roubar milho, seja tirar a Família Real do poder, são vistas como atos de resistência. Eles não tem nada a perder, moram em condições lastimáveis, mal tem o que comer e só tem um ao outro. Obviamente alguns deles estão dispostos a enfrentar Star e tentar roubar a varinha que lhe dá poder, e seu castelo.

Monstos
Monstros unidos sempre.

Aliás é só ver que os monstros todos tem uma tendência de se afiliar com qualquer um que os trate com respeito mínimo. Podemos notar que quando Toffee, outro vilão que se associa a Ludo, manipula Star a não lutar de volta, e abraçar os monstros no lugar, os monstros se vêem incapazes de atacar alguém que está lhe oferecendo abraços. O que diz muito sobre quantos abraços eles recebem na vida, se é esse o gesto que quebra o espírito guerreiro deles. E todos eles abandonam Ludo no fim da primeira temporada sob o argumento de que Ludo não os tratava com respeito, mas Toffee sim, então eles preferiam ser capangas de Toffee. Respeito é a maior moeda de troca pra se conseguir a lealdade deles, e o motivo pra isso é que: eles raramente recebem algum.

LoveIsAlwaysTheAswer
Amor é sempre a solução.

Mas isso foi no fim da primeira temporada, no começo eles eram leais a Ludo, pois Ludo tirou a maioria deles de uma casa ruim, e lhes deu conforto, um quarto em um castelo, uma máquina de milkshake e amizade. Agora vejam só. Ludo é diferente dos outros monstros. Ludo Avarius vive em um castelo, do contrário não poderia dividi-lo com seus capangas.. Na real vivia, pois o castelo foi destruído na primeira temporada.

CastleAvarius
Bem melhor morar aí do que no pântano. Definitivamente.

As ambições têm pouca relação com dar direitos aos monstros e sim, a ser o rei, ele quer muito ser o rei. Ludo foi maltratado pelos seus pais a infância toda ao ponto em que ele expulsou os pais do castelo na primeira chance que teve e os relegou a viver em condições miseráveis. Aparentemente a família real é conhecida da família de Ludo a pelo menos duas gerações. E no primeiro episódio vemos que Star e Ludo são velhos conhecidos desde antes de Star ter a varinha em mãos. Pessoalmente eu ainda não sei como lidar com todas essas informações sabendo que Ludo é um monstro e recebe o mesmo tratamento de todos os monstros, mas minha teoria, é de que a família de Ludo era a Família Real daquela Terra na época em que ela era habitada só pelos monstros, antes da invasão e do massacre. Então o Ludo é o herdeiro do legado de uma família outrora poderosa, de uma maneira que somente um castelo enorme caindo aos pedaços poderia simbolizar. Um ex-aristocrata que se sente roubado de sua posição de autoridade pela família Butterfly e quer o trono que deveria ser dele a todo custo. É minha teoria.

KingLudo
Mas Ludo se esforça para ser visto pelo povo como um rei benevolente que divide milho com todos . O povo não acredita, mas Ludo tenta de verdade quando ele consegue a coroa.

Mas exceto o Ludo ninguém vive em nada melhor que um casebre.

MonsterVillage
Em Starfari, vemos pela primeira vez uma vila de monstros, que é até o momento é a melhor situação em que já vimos um monstro. No mesmo episódio a Rainha Moon deixa claro que se você for rico o suficiente você não é considerado um monstro independente da aparência.

Mas o meu ponto é. A série passa por isso, mas aborda muito pouco em questões como “mas e o outro lado?” ou “mas tem que ver que tem monstro bom e monstro cuzão, mewmen bom e mewmen cuzão.”, a série foca esse conflito em outro lance totalmente que é: como a história de Mewni corrobora para que os Mewmen odeiem os monstros.

Solaria
Rainha Solaria, a escultora de monstros. É lembrada como uma grande guerreira que dilacerava os monstros com sua força imensa, ou seja, uma heroína.

O feriado, que pode se chamar “Grande Massacre dos Monstros” ou “Dia da Mewnipendência” dependendo de pra quem você pergunte, é um exemplo claro disso. Star sempre viu a história como uma história dos ancestrais dela se defendendo de monstros malignos. E ela ia ver isso desse jeito até ser apontada por Marco, que não sendo um mewman viu tudo de fora. E viu o que Star não conseguia ver pois foi ensinada a não ver. Não foi defesa, foi ataque. E não foi uma guerra justa, foi um massacre desigual, em que um lado não tinha a menor chance.

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“Star, eu sei que monstros são maus e tudo o mais. Só que isso parece injusto.”

A história da guerra foi escrita não só pelos vencedores. Mas principalmente para justificar a situação, para deixar o status quo tragável para todos que desfrutarem dele. Os monstros foram descritos como atacantes, para justificar o fato de que os séculos passam e eles ainda são perigosos, e justificar a necessidade dos mewmans de ainda se defender dos monstros violentamente.

FightingMonsters
Agora podemos voltar ao primeiro episódio logo no começo quando Star diz que vai bater em monstros só por diversão… é, não é mais de boa agora, não é?

Da mesma maneira, em que jogos de tabuleiro do reino, costumam ser divididos em dois lados, monstros querendo comer criancinhas e mewmans tentando defendê-las. Curiosamente os monstros têm uma adaptação do mesmo jogo que eles jogam entre eles, em que os papéis são invertidos.

PuddleDefender
Moon e Buff Frog jogam uma partida de monstro de tabuleiro onde percebem como os jogos de ambos os lados envolvem caracterizar o outro lado como um comedor de criancinhas.

Os jogos, a ficção, os livros de história, todos são escritos com o objetivo de fazer com que o povo tenha o constante medo de ataque de monstros, e com isso, justificar qualquer ataque que seja feito aos monstros. A rainha definitivamente acredita que monstros são perigosos, comedores de bebês, e devem ser mantidos longe, mas não sabe mencionar um único exemplo real, que corrobore essa ideia, ainda sim ela tem certeza de que isso acontece. A série se preocupa muito com a pergunta “mas quem pôs essa ideia na cabeça na rainha?”. Onde os mewmans olham eles vêm algo que ajuda a fixar em suas mentes que os monstros são o inimigo. E a história de Mewni é contada para reforçar essa visão de mundo.

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“Mãe, sabe como a gente mantém os mewmans e os monstros separados?” “Sei.” “Por que a gente faz isso?” “Monstros são perigosos, você sabe disso, Star.”

O tema de “mas de que maneira a história de mewni é contada?” é o tema mais recorrente da série toda. Afinal, Star é uma princesa e de todas as facetas que uma princesa tem na vida, essa é a que recebe mais foco. Não são os vestidos, os príncipes nem os bailes. Mas também (ainda) não é reinar e tomar grandes decisões pro seu reino como a maioria das princesas modernas que querem quebrar os estereótipos. Afinal, a Star ainda não pode fazer isso como princesa, só a rainha faz essas coisas. Então para Star ser princesa é ser um símbolo. Ela sabe que ela é uma figura política relevante no reino, e que ela vai ser lembrada por séculos após sua morte e ter sua vida impressa na página dos livros de história do reino, e são as escolhas dela que vão determinar como ela vai ser lembrada e que marca ela vai deixar no reino.

Como aconteceu com todas as outras mulheres que viraram rainhas. Sua mãe será eternamente lembrada como aquela que feriu o monstro imortal Toffee, que tem um fator de cura fodido de apelão, mas sofreu uma ferida incurável da mãe de Star, quebrando o espírito de luta de seu exército. Essa batalha que ela travou quando tinha acabado de ser coroada, não muito mais velha que Star (pois sua mãe havia sido assassinada), deu a Moon Butterfly, a mãe de Star uma pintura, um poema e uma alcunha: Moon, a Destemida.

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E todas as rainhas têm uma tapeçaria com um poema expostos para serem lembradas. E todas têm o próprio capítulo no grande livro de magia que é passado de rainha-pra-princesa faz séculos.

E todas tem uma canção especial apresentando-as pro povo. E já tivemos o episódio de Star sendo acompanhada por um músico encarregado de compor a canção de Star, e como é importante que ela ajude a canção, pois ficará marcado como a imagem dela pro povo.

PerfectPrincessMoon
“Perfeita Princesa Moon. Adora sorrisos. Perfeita Princesa Moon será rainha.”

No episódio, Star resolve apresentar-se realmente, com seus defeitos e qualidades, mas é reprimida por sua mãe, que diz que o povo não quer conhecer os defeitos de uma princesa, mas que precisa acreditar que a família real é perfeita pra ser capaz de ter esperança na família real. O que foi o extremo oposto do que Star fez, contando uns segredos reais em sua canção que danificou fortemente a relação realeza-povo no Reino Butterfly.

RoyalSecretsRoyalShame
“Pra manter a paz, vamos fazer isso. Manter um segredo real e uma vergonha real.”

Então uma canção que não era levada a sério mudou coisas. E Star precisa estar no controle de sua própria história, pois será eternizada e usada como referência para várias princesas depois dela.

StarTapestry
E já começou a ser escrita.

Um dilema semelhante acontece com Marco, que sob o disfarce de Princesa Marco Turdina, inicia uma rebelião na opressora St. Olga School for Waynard Princesses, e se torna um grande ícone para aquela escola, e agora tem que lidar com como é ser um símbolo, em especial um símbolo para as mudanças feitas na escola que ele não aprova. E também no dilema de contar a verdade sobre não ser uma princesa, ou manter a mentira pelo bem de não permitir que a escola volte aos seus tempos de opressão.

PrincessMarco

Um bom exemplo do qual importância é a memória de ser lembrada pelo que você significou pra história, é a Rainha Eclipsa Butterfly, rainha de 9 gerações atrás, que entrou pros livros de história como uma notória vilã, cheia de maldades e tudo o mais. A Ranha das Trevas se tornou sua alcunha oficial, e ela foi cristalizada ainda viva como punição pelos seus crimes. Quais crimes são esses? Então, aparentemente ela era casada com o rei de Mewni, mas se tornou amante de um monstro e fugiu com ele.

EclipsaButterfly
Apesar dele parecer um demônio, e demônios serem uma raça não-monstro comum nesse mundo, o amante de Eclipsa ainda é chamado de monstro, curiosamente.

E aparentemente foi isso. Digo, ela deve ter mais uma lista de coisas zoadas que ela fez, mas é dessa infração em particular que as pessoas mais falam. Porém como ela foi cristalizada e não morta, ela teve a chance de ser despertada por alguns instantes pela mãe de Star, Moon Butterfly. Que em sua batalha contra o monstro imortal precisava de uma magia negra que ferisse Toffee, e Eclipsa ensinou a magia com uma condição, que depois que Toffee morresse, ela fosse descristalizada para sempre. Moon aceitou, mas traiu Eclipsa, meramente ferindo Toffee e acabando com o espírito de seu exército, mas deixando Toffee vivo e portanto mantendo Eclipsa presa, neutralizando ambos.

CristalizedEclipsa

Porém Star mata Toffee quando este rouba o corpo de Ludo e domina Mewni, começando a “Batalha por Mewni.” E com Toffee morto, Eclipsa se libertou, e todo mundo pirou no cu com isso. Moon queria cristalizá-la novamente assim que a viu, e todo mundo concordou com essa decisão, exceto Star. Que aponta pro fato de que ninguém ali, nove gerações depois sabia dizer exatamente porque ela era uma vilã tão notória quanto venderam a história. Ninguém ali sequer tinha se dado ao trabalho de ler o capítulo que ela escreveu no livro de magia onde toda rainha escreve um capítulo. O capítulo dela é considerado “o capítulo proibido.” e Star é a única personagem na série atualmente que leu o capítulo proibido, e não viu nada nele que a permitisse julgar Eclipsa como maligna. Mas também podemos notar que quando Star soube que ela trocou seu marido por um monstro, ela não julgou Eclipsa.

EclipsaStar
“Cristalizar pessoas é uma punição grave e até agora ninguém foi capaz de me convencer que Eclipsa merece isso.”
BadGirl
“‘Rainha Eclipsa foi rainha de Mewni casada com um rei mewman. Mas tomou um monstro como amante e fugiu de Mewni.’ uuhl, que garota má.”

Enfim, a série não nos disse exatamente “as histórias são mentira, a Eclipsa é boazinha.” ela não diz nada. Eclipsa está aguardando julgamento atualmente (um julgamento que só vai existir graças à Star), e o público não faz a menor ideia de qual é a dela, e nem do que esperar dela. Talvez ela seja má mesmo e esteja manipulando Star. Talvez ela seja boa e seja julgada por amar alguém da espécie errada. Mas conhecendo a tendência da série em seus personagens, o mais provável é que ela seja um pouco de cada.

StarEclipsa
“Ele acha que só por que eu sou uma princesa, eu posso dar a ele qualquer trabalho que eu quiser.” “E você não pode?”

Agora, vamos lá, Eclipsa ajudou Moon a vencer Toffee e depois foi traída por Moon. Por essa ação a tapeçaria de Moon marca ela como uma grande heroína e guerreira. Porém a tapeçaria de Eclipsa marca ela como a amante de um monstro.

Não é mentira o que as tapeçarias dizem, mas que aspecto da vida inteira de uma mulher eles querem resumir em quatro linhas para ela ser lembrada afetará fortemente sua imagem e seu legado. Não existe a opção de ser neutro na hora de compor esse poema. A rainha será necessariamente romantizada ou vilanizada. E isso nos faz notar em quais critérios eles usam pra romantizar ou vilanizar uma rainha.

GrandmaRoom
Nessa imagem vemos três rainhas na tapeçaria. Duas são tratadas como heroínas e estão atacando um monstro em sua pintura. A outra, tratada como vilã está sentada nos braços do monstro que ela amou… notaram o padrão?

Assim como os monstros foram vilanizados para poder justificar a existência de um reino que foi fundado em cima de um enorme massacre.

MonstersBook

A maneira como se conta a história, os recortes usados do que deve ser lembrado e do que deve ser esquecido. De qual será o capítulo principal do livro de magia e qual será o capítulo proibido. Tudo isso direciona o olhar de uma pessoa em Mewni que queira aprender sobre a história do próprio povo. E A série trabalha isso de maneira impecável.

EclipsaChapter
Capítulo de Eclipsa lacrado no livro de magia.
MoonEclipsa
“Eu quero que você me ensine uma magia do seu capítulo proibido.” “Proibido? É disso que estão chamando meu capítulo hoje em dia?”
Chapter
“Você ao menos leu o capítulo dela?” “Claro que não.” “Pois eu li.”

O que já notamos logo no título. A primeira coisa que aprendemos sobre a série é que tem a Star e ela enfrenta as “““Forças do Mal”””. Pois bem, mas aí vemos a série e vemos que ela evita em muito o maniqueísmo, nos faz repensar se as forças do mal são más mesmo, e até que ponto Mewni é uma força do bem. O título imediatamente nos direciona a julgar todos os inimigos de Star antes sequer de entender quem eles são e porque fazem o que fazem, só pra história da série quebrar nossa expectativa nos mostrando uma situação mais complexa e mais cinza. E toda a história de Mewni faz a mesma coisa, o exato mesmo direcionamento. Com os monstros e com as mulheres que transam com eles.

ToaMonster
“Ela foi cristalizada por ter se apaixonado?” “Por um monstro, Star. Além do mais ela não aceitava a ordem natural das coisas.”

E isso é o que sustenta a divisão entre monstros e mewmans.

Agora, Star como primeira princesa a ver a fundação do reino pelo que ela foi, um massacre. Como alguém que está fazendo amizade com monstros, e está inclusive se tornando uma figura política popular entre certos nichos de monstros.

HipsterMonsters
Monstros hipsters adoram a Star e tudo o que ela simboliza, em parte porque não é mainstream ser fã da família real.

E como uma simpatizante de alguns aspectos de Eclipsa, ela está definitivamente usando sua posição política em Mewni pra melhorar a situação dos monstros. No episódio mais recente da série quando esse texto foi escrito, ela questiona para sua mãe a rainha qual é o motivo pelo qual os monstros são considerados monstros, e portanto não-cidadão. Mas criaturas como uma cabeça-de-pônei-voadora ou um demônio ou dezenas de animais antropomórficos são “pessoas normais de outra raça.” A rainha lava as mãos de responder a pergunta, e joga a responsabilidade na “especialista de monstros do reino”.

JellyGoodwell
Essa velha chamada Jelly Goodwell.

A tal especialista era na real uma mulher que dizia respeitar e entender os monstros melhor que todo mundo, e ter convivido com eles e entendido suas necessidades e como tratá-los melhor. Na prática, ela via eles como animais irracionais, atribuía todas suas ações como instinto e chamava sua sociedade de primitiva, e seu plano era isolar uma vilazinha de monstros com um rio, deixando-os ilhados e impedindo-os de interagir com Mewmans pra sempre. Pois bem, foi essa mulher quem definiu quais espécies são monstros e quais não são. Ao descobrir isso, Star imediatamente demitiu essa senhora, e deu o emprego dela pra seu amigo Buff Frog, que agora é oficialmente o primeiro monstro a trabalhar no Castelo Butterfly. E o primeiro monstro que terá autoridade pra opinar na maneira como os monstros são tratados.

MonsterExpert

A pergunta é: como o reino vai reagir com as mudanças de status quo que Star quer realizar. E como isso afetará a imagem dela. Caso ela queira ser a rainha que vai unir monstros e mewmans na mesma sociedade, isso quer dizer que sua tapeçaria vai enquadrá-la como uma grande unificadora? Ou vão focar em sua relação com Eclipsa e chamar ela de “bruxa do mal”? Tanto Eclipsa quanto Moon quanto Star usaram magia negra ao longo da série já. Eclipsa é linchada por isso. Moon é redimida, pois ela lembra de cuspir nos monstros de vez em quando. E quanto à Star?

A resposta depende dela, e de como ela precisa estar no controle de como sua história é lida para poder genuinamente ter um impacto positivo em seu reino. E não deixar que as lutas dela contra os monstros sejam lembradas como lutas contra as forças do mal.

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7 thoughts on “Star vs the Forces of Evil, ou: Como é contada a história de um reino?

  1. Eu nunca tinha pensado por esse lado, que colocar membros do grupo oprimido atacando e sendo os vilões da história pode colocar a culpa do problema no grupo.
    É verdade que tivemos na história muitos extremistas na luta contra o racismo, mas quando abordamos por esse ponto, os opressores sempre os usam para diminuir sua causa.
    Mas um exemplo de conflito entre grupos que faz do vilão principal o membro do grupo na desvantagem e não enfraqueceu a mensagem foi a HQ de Avatar North and South, onde acompanhamos a tribo da Água do Sul (lar do Sokka e da Katara) sendo reconstruída pela Tribo do Norte, que no processo está impondo a cultura nortista no Sul. O vilão é um sulista que vai a extremos para impedir que sua casa seja explorada pelo Norte, mas seu objetivo é legítimo.
    Quanto a Harry Potter, eu sempre achei uma alegria brilhante para o racismo e o preconceito, exceto por uma coisa: a ideia de que só um grupo isolado da sociedade é responsável pelo preconceito enfraqueceu um pouco a mensagem, pois pra mim deveria ser um problema em toda a comunidade bruxa, não só dos slytherins. É o mesmo princípio de quando um americano do norte dizendo “eu não sou racista, os do Sul que lutaram a favor da escravidão é que são, eu sou livre de preconceitos”.
    Enfim, Parabéns pelo texto, adoro seu trabalho. Espero que tenha mais sobre Harry Potter e Ducktales no futuro.

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    1. As HQs de Avatar são ótimas. E muito inteligentes. Até hoje acho The Promise uma leitura tão boa que queria que fosse parte do desenho normal.
      Sobre Harry Potter meu maior problema é a simbologia da Slytherin ser uma representação perfeita de como o fascismo funcionou no mundo, mas a autora bater na tecla de “a simbologia da Slytherin não é problema, o problema são os membros da casa, se só tiver gente boa na casa, a história dela não da problema”.

      Tenho planos pra um texto de Ducktales. Já fiz dois textos de Harry Potter, então no momento não tenho nenhuma ideia em mente para um terceiro, mas é possível, principalmente com a franquia se expandindo

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      1. É, eu pensei melhor depois e achei que seria difícil ter mais assunto pra se explorar em HP, mais provável em Animais Fantásticos. Espero não ter soado muito exigente, longe de mim querer dizer o que você deve abordar no seu blog

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  2. o que acho magnifico na serie, é a mudança nos personagens, star antes era uma menina bem maluca e avoada com as coisas, com o tempo, ela foi ficando mais seria, a ponto de tentar mudar a situação dos monstros, mostrando uma competência até maior que sua mãe, antes ela enfrentava a mesma por querer fazer as coisas do jeito dela, agora ela enfrenta de forma política, pelo bem de todos os os envolvidos no seu mundo, agindo mesmo como uma futura rainha.

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