The Greatest Showman – Por que em 2017 estamos romantizando P. T. Barnum?

Feliz ano novo, meus caros leitores. Espero que tenham passado um bom dezembro com boas festas. E bem-vindos de volta ao Dentro da Chaminé que nesse mês comemora seu terceiro ano de existência. 2018 começou e sabem o que é que começa também em 2018? Ah sim, a temporada de premiações de filmes, e a corrida para o Oscar. A 90ª Cerimônia dos Prêmios da Academia vai acontecer no dia 4 de Março de 2018, e antes disso teremos Globo de Ouro, Prêmios do Sindicato, BAFTA, tudo culminando numa temporada de prêmios. O que significa, que esses primeiros meses do ano são o momento em que o cinema começará a estrear todos os Oscar-Baits, os filmes que estão tentando desesperadamente concorrer a esses prêmios. E isso significa que vai ser uma época de filmes biográficos.

OscarRace

Filmes biográficos e dramas inspirados em histórias reais são disparadamente o gênero favorito dessas premiações. Nas últimas oito cerimônias do Oscar, 24 filmes que sejam ou biografias de pessoas reais ou dramas inspirados em pessoas reais foram indicados ao prêmio de “Melhor Filme”, e três venceram. Isso equivale a um terço dos indicados. É visivelmente um tipo de filme que se destaca nessas horas. E bem, sabem qual é o grande lance dos filmes biográficos? Com suas figuras famosas, seus relatos que vão ser julgados pela sua fidelidade e seu retrato de uma década que já não existe mais? Então, o grande lance deles é que boa parte deles são sobre a época em que o filme estreia.

Por exemplo, o filme The Queen saiu em 2006, falando sobre a morte da Princesa Diana, ou mais especificamente, do conflito ideológico que aconteceu entre a Rainha Elizabeth II e o Primeiro-Ministro Tony Blair sobre como a morte da princesa e seu status de realeza deveriam ser tratados. Por coincidência, no ano de 2006 estava acontecendo uma coisa chamada Guerra do Iraque, uma guerra da qual a Inglaterra participou. O Primeiro-Ministro que levou a Inglaterra à Guerra foi Tony Blair e a Rainha Elizabeth foi contra a entrada da Inglaterra na guerra. Portanto, dado o contexto desse atrito entre a Rainha e o Primeiro-Ministro era cinematograficamente interessante mostrar outro atrito que eles tiveram dez anos antes. Especialmente se o filme vai tomar a perspectiva da Rainha, e não a perspectiva do cara que entrou na guerra.

TheQueen

Na mesma pegada. O filme Lincoln saiu em 2012. E o filme não foi sobre a vida inteira de Lincoln, ao invés disso se focou no esforço que foi pro presidente ter a aprovação do congresso para a 13ª Emenda, que aboliria a escravidão nos Estados Unidos. O filme foca muito no quão polêmica era essa lei na época, e quantas pessoas alegavam um dano imenso na economia dos Estados Unidos, e pôs um foco grande na curiosidade de que esse filme aconteceu pouco depois de Lincoln ser reeleito. Pois bem, 2012 também foi o ano em que um cara chamado Barrack Obama havia sido reeleito. E o grande foco que ele estava enfrentando na presidência na época, era a tentativa de fazer seu plano de saúde pública nos Estados Unidos ser aprovado. Uma medida polêmica com os conservadores dos Estados Unidos sendo contra, por ser uma lei que pode causar danos para a economia do país. Vejam só, que coincidência? Nisso, o filme defende Obama, o comparando a Lincoln e comparando a polêmica de hoje com uma lei que no século seguinte será vista como fundamental. Mas sem falar isso diretamente, só lembrando de uma história do passado.

Lincoln

Em 2001 o atentado às Torres Gêmeas em Nova York serviu como pretexto para George W. Bush lançar os Estados Unidos na Guerra ao Terror, e com isso veio uma coisa chamado The Patriot Act, que permitia ao governo violar inúmeras liberdades civis sob o pretexto de encontrar terroristas e alimentar o medo da população de novos ataques para conseguir cometer diversos atos antiéticos contra o povo. Em 2005 surge um filme chamado Good Night, and Good Luck, sobre como o senador Joseph McCarthy em 1953, usou o medo da população do terrorismo para conduzir uma caça às bruxas e violar diversas liberdades civis, incentivando o povo a suspeitar dos vizinhos e denunciar atividades suspeitas. O que o colocou em conflito direto com o jornalista Edward R. Murrow.

GoodNightGoodLuck

Em 2016 saiu o filme Jackie, que conta sobre como foram para Jackie Kennedy os quatro dias que seguiram o assassinato de seu marido, o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy. Jackie foi uma das mais famosas e populares primeira-damas que o país já teve. Naquele mesmo ano, uma outra notória, famosa e aparentemente não-tão-popular primeira-dama Hillary Clinton tinha uma expectativa grande de que fosse se tornar a primeira Mulher Presidente dos Estados Unidos. E relembrarmos a força de outra primeira-dama no mesmo ano não era uma coincidência. Mas Jackie não foi indicado ao Oscar de melhor filme (só de melhor atriz) assim como Hillary perdeu a eleição para Donald J. Trump.

Jackie

Nesse mesmo Oscar, o filme favorito pra ganhar, mas que ultimamente perdeu era um filme musical chamado La La Land. Nesse ano eu escrevi em meu medium pessoal sobre o filme (mas não aqui, pois na prática falava sobre o contexto em que o filme saiu, mas não realmente analisava o filme em si, então não achei que tinha a proposta do blog). E em grande resumo, falei sobre como o filme parece inocente e provavelmente foi feito com inocência, mas passava um sentimento nostálgico que era particularmente perigoso naquele ano, pois foi o mesmo sentimento nostálgico que trouxe Donald Trump ao poder. E que isso devia ser levado em conta na hora de dar prêmios, não era um ano que a nostalgia devesse ser celebrada por pessoas que entendessem minimamente de poder simbólico. Pois nem mesmo acidentalmente, não devemos celebrar a presidência de Trump.

Felizmente Moonlight ganhou esse Oscar e impediu um ato simbólico bem feio por parte da academia. Pena que eles não tenham a mesma noção na hora de lidar com o sexo feminino e com o que fazer com atores e diretores que cometem assédio sexual. Mas estou divergindo demais do ponto.

MoonlightWins
Cerimônias de Oscar costumam ser maçantes e chatas, mas essa compensou na reta final. Que dia para se ver televisão ao vivo. Fantástico.

O ponto é que o nome disso é zetgeist, o fantasma da época, ter a noção de pra onde os ventos do momento estão soprando e quais são os filmes e histórias que fazem sentido de serem contadas nessa época. E filmes biográficos Oscar-Bait operam muito no zetgeist.

O que finalmente que me leva ao fato de que a primeira grande biografia Oscar-Bait dessa corrida já estreou, se chama The Greatest Showman e é uma romantização não-muito-fiel-a-realidade da carreira de um homem chamado P. T. Barnum. Um homem que não é muito famoso no Brasil, imagino que boa parte da audiência brasileira não tenha ouvido falar. Mas que foi um homem genuinamente famoso nos EUA, onde boa parte da audiência já conhecia o mito por trás do homem antes de ver o filme.

BarnumBaileyCircus
Um dos motivos pra isso, é que o Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus, o Circo que ele monta no final do filme, existiu até o ano de 2017, quando ele fechou suas portas depois de 146 anos aberto, por enfim ter parado de ser capaz de se sustentar com o povo parando de ir ao circo. O filme já estava sendo filmado quando a notícia do fechamento do circo saiu. Era um dos circos mais famosos do planeta, podendo ser comparado ao Cirque de Soleil e ao Circo de Moscow, e até o final levou o nome de Barnum.

P. T. Barnum é um homem conhecido como um dos maiores larápios que os Estados Unidos já teve. Um golpista e um mentiroso de marca maior, que fez uma fortuna mentindo pras pessoas. A frase “Nasce um idiota a cada minuto.” é erroneamente atribuída a ele. Ele nunca disse isso, assim como Marie Antoniette nunca disse “Que comam brioches.”, mas o fato de que desde o século XIX as pessoas acham que ele disse, deixa bem clara qual é a imagem que as pessoas têm dele. Outras contribuições que ele deu ao imaginário popular é a de que inspirado nele que foi popularizado o estereótipo do dono de circo cruel, ganancioso que trata mal seus empregados. Inclusive, no filme da Pixar: A Bug’s Life, o dono do circo dos insetos é uma pulga cruel e gananciosa chamada P. T. Flea. Quando alguém menciona P. T. Barnum, geralmente é para apontar para um enganador lazarento e egoísta que toma o dinheiro e não se importa com as pessoas que ele ilude e mente.

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Calloway
O personagem Amos Calloway do filme Big Fish, foi interpretado por muitos como uma homenagem a P. T. Barnum. A primeira coisa que o personagem faz quando aparece na série é dar um contrato de “servidão involuntária” a um gigante.

No ramo psicologia existe um termo chamado “O Efeito Barnum”, que é o que ocorre quando pessoas ouvem descrições genéricas que poderiam se aplicar a metade das pessoas do mundo, e acreditam que são descrições precisas que se aplicam especificamente a elas. O que é o que os críticos de advinhos, videntes, cartomantes e astrologia usam para explicar como elas iludem as pessoas. De homenagens em filmes, a termos psicológicos, P. T. Barnum transformou seu nome em sinônimo de tapeação. O Efeito Barnum também pode ser chamado de Efeito Forer.

BarnumEffect

Pois bem, P. T. Barnum, foi o dono de um dos primeiros circos dos Estados Unidos (o primeiro tecnicamente foi criado por um brother chamado Bailey que ia se tornar sócio de Barnum para criarem o lendário circo que durou até maio do ano passado), praticamente criou o conceito de “freak show” no país, e depois de um tempo como um grande mestre de cerimônias e showman, ele foi pra política, chegando a ser prefeito de Bridgeport em Connecticut. E seu status de mentiroso ganancioso lazarento e egoísta que se envolveu na política, permitiu que de uns tempos pra cá ele tenha sido muito comparado a Donald Trump. Que em 2016 se tornou o 45º Presidente dos Estados Unidos e uma pessoa muito comentada.

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Seria fácil dizer que as comparações estão fortes agora por conta do filme, mas ano passado e retrasado elas já estavam fortes.

E o que não faltam são pessoas que comparam Trump com Barnum. E dizem que ele é o P. T. Barnum do século XXI. Samuel L. Jackson disse que Trump é “Mais um P. T. Barnum do que um político.” E como Trump reage a essa comparação? Ele abraça. Ele não se ofende em ser considerado o novo P. T. Barnum, porque ele não vê vergonha nenhuma na imagem de P. T. Barnum, ele explicitamente diz que P. T. Barnum é o que o país precisa. E bum, é eleito presidente.

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E um ano após a sua eleição, aparece esse filme sobre P. T. Barnum que modifica significantemente diversos fatos de sua vida, omite todas suas maiores polêmicas e foca no lado inocente e sonhador desse homem, romantizando completamente a figura histórica e dando uma imagem que é o oposto da imagem que o povo tem gravado na cabeça. A de um homem que fez o bem, trouxe integração e humanidade e riso para o país, foi sonhador, viveu seu momento e empoderou minorias. E de quebra fez disso um grande musical com a trilha feita pelo mesmo pessoal que fez La La Land. Aquele filme que eu disse um ano atrás que inconscientemente evoca no público os mesmos sentimentos que elegeram o Trump.

E aí eu solto a pergunta: é coincidência? Que um ano depois que um homem que os críticos identificam como um novo Barnum, e que identifica a si mesmo como um novo Barnum, é eleito como o homem mais poderoso de seu país, um esforço cinematográfico é feito para limpar a barra de Barnum, e transformar sua imagem em uma imagem positiva? Pois eu acho óbvio pra cacete que esse filme serve de escada política pro Trump da mesma forma que Lincoln servia pro Obama. Se eu acho isso proposital por parte do Hugh Jackman que tentou por sete anos fazer esse filme decolar? Não. Mas os produtores que esperaram o fim de 2016 pra de fato fazer esse filme começar a caminhar, definitivamente. Em 2016 os ventos ficaram bons para um filme do Barnum.

TheGuardian
No Brasil ainda estamos comendo mosca quanto a isso, mas nos EUA, muitos críticos já notaram o quanto esse filme que estreou dialoga com Donald Trump. Você pode ler a crítica inteira do The Guardian aqui.

O que é triste, pois eu amo filmes musicais, já escrevi aqui no blog sobre o quanto eu acho eles geniais narrativamente, e acho frustrante pra cacete que os dois grandes musicais cinematográficos dos últimos tempos tenham me soado como auxílio político acidental pro Trump.

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E aos que dizem “Mas são só musicais, é só dança e música, eles não são políticos.” eu recomendo que pesquisem o impacto que Hamilton, um musical inteiro em viés político teve na Broadway. Musicais são tão políticos quanto filmes normais.

Mas então vamos analisar um pouco esse filme, porque se fosse só pra concluir que o filme é uma grande propaganda pró-Trump eu escreveria isso no meu Medium.

O filme é levemente inspirado na história real de Phineas Taylor Barnum, e nossa, que hipérbole eu fiz aqui. O filme pega a base de tudo o que sabemos de Barnum, e modifica todo o resto que não sabemos para algo bonito. Eu acho notoriamente improvável que o filme tenha sido escrito sem absolutamente nenhuma pesquisa ter sido feita sobre o sujeito. E por isso, tudo o que diverge da realidade, divergiu por uma escolha da parte dos roteiristas, e escolher por uma divergência não é ruim. Mas é proposital, e foi feito com um intuito. Então vamos ver quais as mudanças e qual o intuito delas.

P. T. Barnum: Quem era e o que fazia?

E isso já começa logo na escolha de elenco. A coisa mais famosa pela qual Barnum é lembrado hoje é pelo seu circo nos Estados Unidos. Mas ele fundou o circo aos 60 anos e só foi conhecer Bailey com quem fez sua famosa parceria aos 70, enquanto ele começou sua carreira como showman e pilantra aos 25 anos, tendo um belo intervalo de 35 anos trabalhando até no começo de sua terceira idade ele fundar o circo, e o filme tenta condensar o mais relevante de todos esses 35 anos em eventos que aparentam durar alguns meses, no máximo uns poucos anos.

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Pois bem, no filme ele é interpretado por Hugh Jackman, que estava pra fazer 49 anos enquanto gravava, e em quem não foi feito nenhum esforço para que ele ganhasse o visual de Barnum. Afinal, Barnum estava longe de ser o homem mais lindo de Nova York (embora eu não fosse chamá-lo de feio) e o Wolverine é um dos super-heróis mais sexualmente desejados do cinema, então pra que enfeiar um galã desses se podemos só fazer o próprio Barnum soar mais como um galã.

O filme ignora fatores centrais sobre a vida de Barnum. Ele fala muito sobre Barnum negligenciando sua esposa Charity Barnum em prol do sucesso de seu circo, sendo que nessa época, Barnum era viúvo de Charity, e inclusive se casou com outra mulher pouco depois de abrir seu circo.

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A família Barnum é condensada no filme para facilitar. Ao invés de quatro filhas, no filme Barnum teve somente duas.

Uma das mensagens centrais do filme é a da importância da família, de não afastar a família em prol dos negócios e de dar prioridade à família. Pois bem, apesar disso, a família de Barnum pareceu um elemento bem passivo na história, existindo só como suporte emocional, e como um elemento na vida de Barnum que podia ser perdido e que portanto ele tinha que lutar pra manter. Quando na realidade, eles eram mais unidos e participativos no circo que isso. A filha de Barnum, Caroline, era extremamente envolvida no trabalho do pai e segundo relatos, se vestia da cantora de ópera Jenny Lind e saia do teatro para ser perseguida pelos fãs permitindo a original sair de seu show em segurança. No filme, o papel de Caroline se resume a fazer aulas de balé com apresentações que o pai não pode ir por estar muito ocupado e aquele velho clichê de sempre.

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Todo ano um filme que ensina a valorizar a família mostrando um pai que perdeu a apresentação de balé da filha, pois estava ocupado trabalhando. Também serve perder o jogo de baseball do filho.

O filme tem duas cenas musicais de viradas positivas na vida de Barnum acontecendo no bar, com copos se enchendo de cerveja no ritmo. Quando ele convence Phillip Carlyle (uma pessoa que na vida real nunca existiu) a se tornar seu parceiro nos negócios, e quando os membros do circo o ajudam a ter a epifania de que glória e fortuna não é tudo, o importante é a família (tanto sua literal família, como a família que ele formou com os membros do circo). E em ambas as cenas, muita bebida sendo ingerida, e copos voando magicamente até mãos, e viva o bar. Apesar disso, Barnum era fortemente contra o alcoolismo. Em sua vida política ele lutou pra proibir o consumo de álcool, e ele proibia as pessoas de ingerirem álcool em seu circo, proibia os integrantes do circo de beber álcool mesmo quando não estavam em serviço, e fazia tours pelo país só pra explicar os malefícios do álcool. 

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O que me deixa cabreiro. Pois sério, o cara foi um militante muito ativo pelo não-consumo de álcool em sua cidade, e não é possível que ninguém envolvido na produção saiba disso. Então o que rolou é que eles sabiam e não ligavam, pois esteticamente as duas cenas no bar são do caralho (e são mesmo, ó, eu estou falando mal do filme pelo seu viés político e por limpar a barra de um homem que poderia ser um dos maiores mascotes do capitalismo e de tudo de errado nele, mas porra, o fã de musical dentro de mim ficou muito feliz e satisfeito com o filme). Então é um filme que está mais preocupado em como ele se parece do que com o que foi realmente o circo do Barnum. Não tentar nos mostrar quem o homem era, mas usar o poder de seu nome e as informações mais famosas dele como escada para um grande espetáculo (pois sério, esse filme teria 1/3 do seu sucesso se fosse sobre alguém que ninguém conhece, e não uma figura que ronda o imaginário americano como o Barnum). O que não é errado, mas torna aquele “True Story” que aparece em todo trailer desonesto pra cacete. Mas vamos voltar a esse ponto.

Relações raciais no filme:

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Vamos lá. P. T. Barnum foi uma figura que fez boa parte de sua vida profissional como figura pública durante o período da Guerra Civil Americana. Ele chegou a se encontrar pessoalmente com Abraham Lincoln pra fazer uma apresentação e tal. Ou seja, o filme se passa em uma época nos EUA em que as relações raciais estavam a flor da pele. E P. T. Barnum definitivamente nunca ficou de fora do assunto.

P. T. Barnum começou sua carreira exibindo Joice Heth, uma escrava idosa cega e paralítica que ele comprou por cem dólares, depois que já era ilegal vender escravos em Nova York, se aproveitando de uma brecha na lei (lembrando que o norte era contra a escravidão, mas a escravidão em si não havia sido abolida nos EUA, que demorou pra isso rolar). Ele mentiu pras mídias que ela tinha 160 anos e havia sido a mammy (em grande resumo: ama de leite, vai ter um link mais abaixo sobre estereótipos racistas para quem quiser mais detalhes) de George Washington. Foi o primeiro espetáculo que ele armou, e colocou seu nome no mapa, vendendo ingressos e ingressos pra pessoas poderem ver uma velha escravizada que nem podia se mexer direito. Quando os ingressos começaram a se esgotar, o malandro do Barnum plantou um boato pela cidade de que era mentira, e que ela era na verdade uma máquina realista o suficiente pra ser confundida com uma velha de verdade, e todo mundo que já tinha pagado pra ir ver a Joice de perto pagou outro ingresso pra ir ver a coitada. Quando ela morreu, Barnum transformou a morte dela em atração também, orquestrando uma autópsia pública pra confirmar se ela tinha mesmo 160 anos, e cobrando ingressos de quem quisesse ver a Joice ser dissecada por especialistas (que concluíram que ela tinha 80 anos). Foi um grande exemplo da desumanização completa que os escravos sofriam nos EUA mesmo no norte do país.

JoiceHeth

Sério, esse lance de enfiar pessoas negras no museu pra um bando de branco vir olhar seu corpo me deixa mal pra cacete. Tipo rolou com a Saartjie Baartman. Puta bagulho pesado. Além disso, dissecar uma pessoa em público só pra cobrar pelo “espetáculo”? Tenso. Enfim,  foi essa a grande entrada de Barnum no entretenimento.

Depois disso, ele se envolveu muito com minstrels, que são espetáculos americanos de dança, música e humor onde começou e se propagou o blackface, que estava presente em todas as apresentações do estilo e Barnum administrou muitas apresentações com uso forte de blackface e estereótipos racistas (se quiser aprender sobre os estereótipos racistas, mammys e os minstrels, clique aqui). Porém com um twist, apesar de todos os estereótipos, os personagens negros de Barnum essencialmente satirizavam o homem branco e seu falso senso de superioridade. Semelhante a uma peça em que os personagens são empregados pra criticar os patrões. Ele de fato incluía diversos negros em suas apresentações, assim como o pessoal que se apresentava em seu circo era muito etnicamente diverso, mas fez muitos desses negros interpretarem nativos canibais envolvidos em magia negra, reforçando estereótipos sobre tribos africanas e associações dos negros com a incivilização e pecado que perduram até hoje.

E futuramente em sua vida política, ele foi um dos mais vocais defensores da abolição da escravidão e da aprovação da 13ª Emenda. Sendo um militante claro pelo fim da escravidão. “Uma alma humana, que Deus criou e pela qual Jesus morreu não é algo com o que se possa brincar. Seja o corpo de um chinês, de um turco, de um árabe ou de um cói. É uma alma imortal.” é o que ele disse.

Um homem que começou sua fama explorando e desumanizando uma senhora escrava até depois da morte sem nunca dar a ela qualquer humanidade, usou tanto estereótipos racistas pesados quanto criticas sociais aos brancos em seus espetáculos, e foi pra defensor ferrenho do fim da escravidão e da igualdade entre as raças, tudo isso na época em que o país estava em guerra civil por conta do assunto, acaba se tornando um coringa histórico que pode ser pintado da forma mais conveniente pela pessoa que o retrata. Você pode falar dele como um racista hediondo omitindo algumas partes, ou falar dele como um anti-racista heroico omitindo algumas partes. The Great Showman escolheu não conectá-lo ao assunto at all, omitindo todas as partes.

Mas isso não significa que o filme não aborda raça. Aborda, mas…. Bem discretamente, tão discretamente que usa termos como “you” e “us” para se referir a raça todo o tempo só dando o nome aos bois em uma única cena, onde um termo pejorativo é a única menção à raça negra feita no filme. Se não tivesse abordado e ponto, passaria, mas por fazer uma abordagem tão leviana em um filme passado em uma época onde esse era um dos grandes assuntos da época, fica feio.

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Vocês viram Gangs of New York? Então a última meia hora de Gangs of New York e a última meia hora de The Great Showman retratam o mesmo acontecimento na mesma cidade, o grande incêndio que o Museu de Barnum sofreu. Vejam como relações raciais e políticas em relação à Guerra Civil estavam a flor da pele em Gangs of New York.

E no The Great Showman, o que falaram? Já que falaram algo.

Tem quatro cenas no filme inteiro que nos lembram que o filme se passa em um contexto de extremos conflitos raciais. O primeiro quando Barnum está contratando as pessoas excêntricas pro seu show e surgem pra entrevista de emprego dois irmãos trapezistas, D.W e Anne Wheeler. Os dois são negros e eles advertem Barnum que o público não vai ficar feliz de vê-los como astros. Barnum responde aos dois que está contando com isso, mostrando sua filosofia de que ele não acredita em má publicidade e que ele acha que as pessoas também pagam pelo que as revolta.

Após isso, começa um romance entre Anne e Carlyle, o parceiro aristocrata de Barnum. Pois bem, o romance que desencadeia entre eles vê o seguinte obstáculo: as pessoas vão olhar feio pra eles, e Anne não quer que olhem feio pra ela ou que Carlyle tenha vergonha dela. O que se mostra em duas cenas, nele soltando a mão dela quando vê que uns velhos ricos estão vendo ela de mão dada. E quando os pais de Carlyle chamam Anne te “the help”, termo pejorativo usado pra se chamar faxineiras e empregadas domésticas (e você achando que o filme sobre as empregadas tinha esse nome porque a Emma Stone ajudava elas… já vi várias pessoas cometerem esse engano).

NoShame
“Você não tem vergonha?” “Pai, o mundo está mudando e me recuso a fazer parte do seu.” Lembrando que o filme é pré-abolição, minha gente.

Mas bem, isso lembrando, era antes da escravidão ser abolida, com Anne sendo uma mulher negra livre e assalariada (embora Barnum certamente pagasse a ela bem mal). Iam demorar pelo menos um século só pro relacionamento dela com Carlyle não ser ilegal. Não tirando o demérito do quão pesado o insulto era pra Anne, mas era literalmente o menor dos problemas de Anne. A Ku Klux Klan estava nascendo nessa época, tinham setores da sociedade que iriam matá-la só por ser quem ela é, em especial ela sendo livre. Vergonha não é a palavra que melhor representa o risco que cabia a ela começar publicamente um relacionamento com Carlyle. Isso podia seriamente terminar em morte.

O que culmina no climax do filme, a quarta cena, uma multidão raivosa ataca o circo, querendo que ele tire da cidade os “freaks” e os “spooks”, sendo spooks um dos infinitos termos racistas que existem nos EUA. O pessoal do circo e a multidão lutam e isso coloca fogo no circo.

BarnumFire

O filme não quis abordar questões raciais pesadas, muito embora Barnum tenha se envolvido com essas questões e feito sua parte em lados ideologicamente opostos da questão. O filme também não quis não abordar questões raciais, nos dando esse mínimo possível e jogada segura.

O que nos leva a questão: por que o filme não simplesmente se omitiu de questões raciais? São questões polêmicas e podem fazer um diretor ficar pisando em ovos em um filme. Esse é um musical feliz com música e dança, porque não optaram por só não tocar no assunto e boa? Porque resolveram tocar no assunto e fazer esse mínimo possível?

LettieLutz

Porque o filme queria apesar de tudo ter um apelo empoderador para minorias. Para isso, o filme apesar de tocar no assunto discretamente em relação aos personagens negros, ele aborda o assunto diretamente para os “freaks” do circo de Barnum, onde o conflito entre eles e o povo remete diretamente a imagens que temos de como era o racismo nos Estados Unidos, com multidões e tochas, ataques violentos aos freks e o discurso de “quero essa gente fora da minha cidade.”

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RacistsProtests

Apesar de muitas das estrelas do show de Barnum serem pessoas de circo que existiram de verdade, como o General Tom Thumb que genuinamente se apresentou no palhaço de Buckingham em frente a Rainha Vitória, ou os gêmeos Cheng e Eng, que por serem do Sião, a condição deles de estarem conectados pelo fígado passou a ser chamada de gêmeos siameses. Porém a personagem que servia de porta-voz para todos os integrantes do circo (pois a maioria ficou no plano de fundo sem sequer ter diálogos), era uma personagem pseudo-nova. A mulher barbada original Annie Jones foi substituída pela personagem Lettie Lutz. E o motivo central pra mudança da personagem (o único que eu consigo imaginar pra terem mudado até o nome), é que Annie Jones é branca e Lettie Lutz não. Porém a não-branquitude de Lettie nunca é abordada no filme, diferente de Annie e D.W, o seu papel no filme de porta-voz das minorias se deve pelo fato dela ser a mulher barbada.

BeardedLady

Pois bem, temos essa cena em que Barnum demonstra uma clara vergonha de ter seus empregados dentro de uma festa de elite com os mais ricos de Nova York e os proíbe de ir na festa. E Lette revoltada e ofendida canta a música “This is Me”, que aliás, aposto minha frota de navios naufragados no mar da China que vai ser indicada ao Oscar de Melhor Canção Original (mas se ganhar de Remember Me de Coco aí vai ser uma marmelada da porra, só indicação já está ótimo). Enfim, ao som de This is Me, Lettie e os demais integrantes do circo invadem a festa de elite e mostram que nenhum deles tem vergonha de ser quem é, e que vão fazer questão de ocupar os espaços sim. Vão se fazer ver e quem não goste que se foda, pois eles são eles e não terão vergonha disso. Uma música bem empoderadora, e com o potencial de fazer pessoas que pertencem a diversos grupos discriminados se identificarem. E bem, isso é da hora, não é?

Mais ou menos… a primeira vista sim, mas vamos ver mais de perto.

Na literal mesma cena de Barnum expulsando a mulher barbada da festa, temos essa cena dele humilhando seus sogros, para dar o troco. Os sogros de Barnum o humilharam por ser pobre e agora ele era mais rico que eles. A esposa de Barnum que não era tão fã assim dos próprios pais e sempre tomou o lado de Barnum nessas brigas não entende porque Barnum fazia questão de esfregar seu sucesso financeiro na cara dos sogros. E o filme explica: “Quem nasceu rico não tem ideia do quão importante pro pobre é ficar rico.” Tanto para Barnum que foi convidado para a uma festa de elite para a qual ele não seria convidado no passado. Quanto para Lettie Lutz que invadiu essa festa pra mostrar que ela tinha direito de estar naquele espaço. Para ambos aquele espaço era um símbolo de exclusão da sociedade, e eles faziam questão de estar ali. E aí entra a música This is Me.

Invasao
A invasão da festa.

O filme bate na tecla do empoderamento, e de que ao final, todas as pessoas do circo que se sentiam excluídas pelo mundo acharam seu lugar e sua família entre si, e perderam a vergonha de serem quem são ou de serem julgados pelo público.

BarnumLettie
“O mundo tinha vergonha de nós. E aí você colocou os holofotes na gente. E nos deu uma família.”

O problema é que empoderamento é uma faca de dois gumes. Por um lado é uma coisa extremamente positiva, principalmente por dar uma auto-estima forte a grupos da sociedade que sofrem de uma opressão fodida, e onde casos de depressão e doenças psicológicas são comuns pra cacete. Além de ter um peso todo simbólico que incomoda e inquieta os grupos opressores e isso é ótimo. Mas por outro lado, o empoderamento, com seu grande foco em individualidade e ascensão social, pode ser também uma grande arma para deixar minorias confortáveis com o capitalismo e com seus efeitos. Em especial no caso do racismo, em que o racismo e o capitalismo são cúmplices e um ajuda o outro a se manter, essa é uma maneira de fazer essa conexão desaparecer na visão de mundo daqueles que lutam pelo fim do racismo.

A filósofa Nancy Fraser escreveu sobre a conexão entre o neoliberalismo e esse tipo de empoderamento em um artigo sobre a vitória de Trump nas eleições: “Nos EUA, o neoliberalismo progressista é uma aliança entre, de um lado, correntes majoritárias dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBT) e, do outro lado, um setor de negócios baseado em serviços com alto poder “simbólico” (Wall Street, o Vale do Silício e Hollywood). Nesta aliança, as forças progressistas se unem às forças do capitalismo cognitivo, especialmente à “financeirização”. Embora involuntariamente, o primeiro oferece ao segundo o carisma que lhe falta. Ideais como diversidade e empoderamento, que poderiam em princípio servir a diferentes fins, hoje dão brilho a políticas que destruíram a indústria e tudo aquilo que antes fazia parte da vida da classe média. (…) Aliás, conforme sugerido pelo último item, o ataque à segurança social foi reinterpretado por meio de um discurso emancipatório carismático, emprestado dos novos movimentos sociais. Ao longo dos anos, à medida que o setor industrial ruía, o país ouviu falar muito de “diversidade”, “empoderamento” e “não discriminação”. Ao identificar “progresso” com meritocracia, em vez de igualdade, o discurso igualou o termo “emancipação” à ascensão de uma pequena elite de mulheres “talentosas”, minorias e gays na hierarquia corporativista exclusivista. Esta compreensão individualista e liberal de “progresso” gradualmente substituiu o entendimento de emancipação mais abrangente, anti-hierárquico, igualitário, sensível às questões de classe e anticapitalista, que prosperou nos anos 1960 e 70.”

O que não significa que a mensagem da música seja ruim exatamente. Significa que ela é uma faca de dois gumes que precisa de contexto para ser celebrada. E qual é o contexto do filme? Uma celebração de um dos grandes símbolos do capitalismo que os EUA já tiveram e do homem que está passando hoje sua cartola para o Donald Trump. E com esse contexto, pode-se ver que é o caso ao qual Nancy Fraser se refere. Barnum permitiu à Lettie Lutz que ela brilhasse no palco, e é de pessoas como Barnum que pessoas como a Lettie ou que os Estados Unidos precisam hoje.

BarnumThumb
“Todo mundo é especial, e ninguém é igual a ninguém. É essa a moral do meu show.”

Apesar de P. T. Barnum ser extremamente associado a exploração de pessoas diferentes, tendo sido o homem que lançou o conceito de “Freak Show” nos EUA, e também associado a crueldade com animais, e a todos os conceitos de mestre-de-cerimônias-maligno, aqui no filme ele é um herói que deu aos “freaks” os meios para se empoderarem se destacando no showbiz. O espaço dado aos “freaks” ofendia a população que nasceu sem nenhuma malformação genética, e eles faziam grandes protestos contra essas pessoas no show de Barnum. Os “freaks” ofendiam muito mais do que os negros no filme, e geravam multidões de pessoas em frente ao circo de Barnum querendo expulsá-las da cidade.

Isso meio que aconteceu na vida real, mas em uma escala muito menor do que o filme descreve e tinha um caráter mais moralista. Haviam protestos acusando o espetáculo de Barnum de ser uma “casa de pecado”, e um “lugar bizarro” mas sem o discurso “tirem esses caras da minha cidade.”. Eles achavam que o “freak show” tornava o circo de Barnum um local sem moralidade. Mas era menos tochas e menos ódio direcionado à mulher barbada. Annie Jones nunca gerou protestos por ser a mulher barbada, e ela fez muita militância pelo direito de membros de “freak shows”, incluindo lutou pra acabar com a palavra “freak” (o que ela não conseguiu), e mesmo assim não era exatamente uma pessoa que as pessoas iam bater na rua. Mas Lettie Lutz é uma pessoa odiada pelo público. E uma mulher de cor. Mas eles não estão atacando ela por não ser branca e sim por ser a mulher barbada. Em plena guerra civil. Estão vendo o que eles estão fazendo aqui, onde querem chegar? Não tem coragem de falar de raça diretamente, então esquivam se questões históricas de racismo, mas tratam os membros do circo como se fossem negros para poder passar a mensagem otimista e empoderadora de que o sucesso no showbiz é a arma para vencer a opressão.

Torches

White Supremacists March with Torches in Charlottesville
Esse bando de branco de tochas ameaçando com violência a mulher barbada e o homem-tatuado te lembram alguma coisa?

Ao final o maior crítico de Barnum explica que apesar de não gostar do show, ele respeita Barnum por colocar pessoas diferentes do lado dele no circo como iguais. Como se Barnum não se hierarquizasse em relação ao pessoal do circo e que isso era uma grande “celebração da humanidade”. Que ele fazia. Pois é. É isso aí. “Freak Shows” eram celebrações da humanidade, e faziam as pessoas perceberem que elas eram todas iguais.

Então vamos para a última parte que o texto já está enorme.

O senso ético de Barnum:

NoblestArt

P. T. Barnum nunca negou ser um enganador canalha e ganancioso. Ele era uma figura bem transparente em relação ao seu caráter nesse sentido. Ele inventou o conceito de “filantropia lucrativa”, que era essencialmente a noção de que a motivação do lucro era um belo incentivo para fazer o bem para as pessoas próximas dele e por isso ele fazia. Pois bem, e o que Barnum argumentava para justificar seus métodos mentirosos e sua falsa publicidade é que ele pode não entregar para o público o que ele prometeu, mas ele tem que entregar ao público algo que valha seu dinheiro.

Não entrando no mérito de se ver uma velha paralisada e sofrendo abusos é algo que vale o dinheiro de um ingresso que supostamente deveria ser para encontrar com uma pessoa que viu a história do país se construir com os próprios olhos… não vamos debater valores e se o que ele entregava pelo que prometia de fato valia o dinheiro, vamos presumir que valia sim. Pois o ponto em que quero chegar é que Barnum, usava desse lema de “entregar ao público algo que valha seu dinheiro” para atacar outras pessoas que tentavam lucrar com enganações. Levando ao tribunal e provando fraudes de diversas pessoas como mediums e cartomantes por enganarem o público, se colocando em um local supostamente mais moral, por dar ao público algo em vez de só tirar seu dinheiro.

WilliamMumler
Um deles foi William Mumler, que tirava fotos dos fantasmas de entes queridos das pessoas perto delas. P. T. Barnum foi capaz de replicar uma dessas fotos de espíritos pra provar sua fraude, e testemunhou contra Mumler no tribunal, o acusando de tirar vantagem do luto das pessoas.

O filme retrata esse lado de Barnum mais ou menos. Barnum afirma que o público genuinamente se divertiu e que os “risos” são reais, e por isso a mentira não importa. O que obviamente não se aplicaria ao Barnum de verdade, afinal, um cartomante ou um medium pode oferecer conforto, esperança e ajudar no luto de pessoas de maneira real, mesmo que através de mentiras. E poderia usar o mesmo argumento, mas Barnum ajudou a destruir carreiras mesmo assim. Atacando espantalhos de “mentirosos amorais” para se destacar como um “mentiroso moral”.

Muito muda no conceito de “minto pra te atrair, mas te entrego algo sólido e fantástico.” pro conceito de “minto pra te atrair, mas te fiz rir, então de boa.”, principalmente levando em conta de que o conceito original casa com o tipo de espetáculo que Barnum fazia no filme, com números genuinamente fantásticos realizados pelo pessoal do circo. O que mais muda, no entanto, é o sentido de que quando você entrega algo diferente, mas com um suposto mesmo valor do que o que você prometeu, você enganou a pessoa, mas não tirou vantagem dela. A pessoa sabe o que ela viu, ela sabe que o cara não tinha 700kg de verdade, mas o show dele foi um show incrível que valia a pena de ser visto. Quando você entrega só risadas, você entra no território de “mas a verdade não importa de verdade. O que importa é o riso.”

E aí você lembra que esse filme começou a ser feito quando Trump era um candidato a presidência que estava sendo chamado de “o novo Barnum.” e como é Trump nesse quesito? Bom, primeiramente, Trump é um showmen, um homem midiático que sabe usar a mídia ao seu favor, e a maior prova disso, é sua habilidade de se manter carismático enquanto fala coisas horríveis, através do humor. South Park explorou perfeitamente essa faceta de Trump ao afirmar que seus comícios políticos, tinham na prática virado shows de stand-up.

Garrison

John Oliver, um comediante que é um crítico ferrenho de Trump em seu show da HBO comentou que mesmo odiando o homem ele não consegue negar o quanto Trump é um homem genialmente engraçado. Aqui deixo o link de um texto de Scott Adams, criador das tirinhas Dilbert, chamando o Trump de “O presidente mais engraçado da história dos Estados Unidos” para explicar o porque ele é assustador. E eu mesmo, em um texto falando sobre Hitler falei sobre o perigo de políticos perigosos usando o humor como arma para atrair seguidores. Pois bem, talvez Trump tenha sido o presidente norte-americano que mais gerou o riso nos últimos tempos, tanto de seus admiradores que riem do bullying e mesquinhes que resumem seus discursos e sua conta no Twitter, quanto de seus criticos que riem do quão patético ele é, e do quão fácil ele é de se zombar. Mas ser engraçado não faz dele uma boa pessoa. Porém faz dele um bom showmen, e ele é um ótimo showmen. Acreditem em mim, pode não parecer, mas ele é um dos homens que mais tem noção do que é conduta pública aceitável e do que é inaceitável. E sempre que ele fala uma barbaridade ao vivo, é porque ele sabe que apesar de tudo, o que ele fez foi aceitável e ele não corre riscos. Ele vive de ser uma figura pública e sua persona é cuidadosamente mantida para que sua imagem pública seja exatamente o que é.

Ele é um excelente showmen, porém uma pessoa horrível mesmo nessa área, ele era ridiculamente abusivo com seus empregados, e com suas mulheres e suas amantes desde antes de ser presidente. Ele não é uma pessoa horrível por ser o presidente dos EUA, ele era horrível desde antes, mas, apesar disso, ele sempre foi uma figura extremamente carismática, e isso ajudou ele. Não foi a única coisa que ajudou ele, a conta bancária dele certamente o ajuda a se safar em muita coisa, mas ainda sim, seu carisma e sua habilidade em fazer seus fãs rirem o ajudam.

TrumpEmployees

Aí voltamos pro filme, e sua mensagem de “a verdade não importa, desde que o público ria.” se torna notoriamente perigosa. O aspecto mais importante de um cara que trata pessoas como mercadoria (literalmente, muitas de suas atrações eram crianças que Barnum pagou aos país para colocar em exposição antes delas terem noção do que acontecia, e elas ficaram com Barnum até a vida adulta), e que aplica golpes em pessoas não devia ser o quanto ele fez rir somente. Claro que a verdade importa. Depois do show, o público pode ter tido uma grande experiência, mas ele tem que sair do show sabendo diferenciar verdade de mentira. É igual um show de mágica, o mágico encanta, mas ninguém sai do show acreditando que o mágico é um ser paranormal só por não sabermos os truques.

A presidência do Trump tem sido uma presidência notável pelo quão distorcido o senso de verdade está sendo. Com emissoras e emissoras recebendo o rótulo de “FAKE NEWS” por Trump e seus seguidores, e com as notícias falsar propagando o tempo todo. Nunca foi tão difícil separar verdade e mentira no jornal do que nos últimos anos, com boatos e notícias falsas surgindo, e notícias verdadeiras ganhando o rótulo de fake. O que culminou no conceito da “pós-verdade”, em que aceitamos como verdade o que concordamos e como mentira o que não concordamos. E todas as notícias que cercam Donald Trump são regadas de pós-verdade por parte de seus leitores.

Tweet

E aí o filme sobre o Trump de dois séculos atrás nos diz que a verdade não importa, que o que importa é o público rindo.

Enfim, na vida real, também, o excesso de publicidade hiperbólica e desleal nem sempre foi lucrativo pra Barnum, como o filme faz soar. Deu certo algumas vezes e outras não. Por exemplo, ele se envolveu por muito tempo, antes de abrir seu circo, com shows da cantora de ópera Jenny Lind. Até que durante um tour dela pelo país todo, ela passa a se incomodar com a maneira como Barnum fazia publicidade de seus espetáculos, e decide cortar relações profissionais com Barnum, por não se sentir confortável trabalhando nos termos dele, muito embora eles tenham continuado amigos próximos cada um trabalhando como acha melhor. No filme, incapaz de trazer um lado problemático de Barnum a tona, ela se apaixona por Barnum e esse se recusa a trair sua mulher, com os dois se separando em maus termos, fazendo Barnum perder seu casamento e sua fonte de renda e vendo sua vida colidir por causa disso.

P. T. Barnum foi um homem complexo. Uma grande figura pública que se envolveu nos mais diversos assuntos, tomou lados em diversos debates, e deixou sua marca nos Estados Unidos. Ele pode ser visto como uma grande personificação do capitalismo, e do desejo de enriquecer a todo custo. As pessoas ao seu redor eram fonte de lucro pra ele, e ele nunca fez segredo disso. Um homem que valorizou o dinheiro acima de tudo, explorou pessoas, torturou animais, fez crianças de quatro anos fumarem em público para agradar uma plateia. Ele foi o maior nome do entretenimento de seu tempo, lutou contra os males do alcoolismo e da escravidão nos EUA, mas abusou de uma escrava idosa por lucro, e dissecou o cadáver dela em público por lucro. Em um momento em que a imagem de um homem de diversas facetas, algumas delas tão negativas surge de novo como uma simbologia para o atual presidente dos EUA, qual é a faceta primaria que o primeiro filme sobre o sujeito que surge desde que a comparação foi estabelecida foca?

O herói romântico. O sonhador. O homem que valorizou família acima do dinheiro. O herói das minorias. O homem que trouxe sorrisos ao mundo. É com esse cara que os críticos do Trump comparam ele. Com o Hugh Jackman dançando no bar de maneira estilosa, e com números de dança belos.

TrueStory
Aliás, estávamos falando sobre como a verdade não importa. Eis um bom exemplo. Exceto pelo fato de que Barnum existiu, criou um circo e fez um tour com Jenny Lind, nada mais no filme é verdade. Mas o filme tem vergonha de assumir o quão desleal ele é, usando a “história real” como modo de auto-promoção. É meio metalinguístico, pois soa como algo que o Barnum faria.
MsMojo
E o fato de 5% do filme ser uma história real não é esquecido por quem quer divulgar o filme. Seja na publicidade oficial, na publicidade indireta dos fãs, ou em canais de youtube que eu não tenho certeza de a qual dos grupos pertence.

Os Estados Unidos atuais têm muito em comum com Barnum. Com uma das populações mais diversas etnicamente do planeta, e sendo um gigante do entretenimento sendo o segundo maior país em produção cinematográfica e o primeiro em exportação, o mundo inteiro tem acesso aos Estados Unidos como uma fonte constante de cultura e entretenimento por filmes, séries, música, teatro e etc… e isso tudo mascara um país ganancioso que cresce com base na exploração desenfreada de pessoas, ataques a outras culturas, e exemplificando as piores facetas do capitalismo. P. T. Barnum foi uma grande personificação do capitalismo americano, e agora, um homem que simboliza seu legado está sentado na casa branca, comparando o tamanho do seu botão com ditadores na Coréia do Norte. E a resposta de Hollywood é comemorar esse fato, mentindo para o mundo que Barnum foi um grande homem.

Mas essa mentira não importa. O que importa é a dança do Hugh Jackman te fazer sorrir.

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12 thoughts on “The Greatest Showman – Por que em 2017 estamos romantizando P. T. Barnum?

  1. Quando fui assistir The Greastest Showman, minhas expectativas eram altas. Em parte, porque eu amo musicas, inclusive ficaria muito feliz se explorasse alguns musicais em outro de seus textos (citar Hamilton em seu texto fez meu dia melhor, pode ter certeza).

    Mas eu também fiquei curiosa a respeito da participação de Zendaya no elenco, mesmo que com uma personagem menor. É interessante quando artista de canais como a Disney Channel começam a evoluir e crescer nesta empresa e eu, sinceramente, acho que pessoas como Zendaya e Dove tem futuro neste meio, assim como Ariana Grande conseguiu se desvencilhar da artista da Nick e cresceu como cantora.

    Eu gostei do filme. Não irei dizer o contrário, e já baixei a soundtrack inteira no meu celular. Porém eu continuo com medo de filmes que buscam agradar as minorias. Eu fiquei meio desconfortavel com a ideia de héroi sonhador que o filme tentou passar, já que era óbvio que o cara não tratava os artistas de forma igual. No minimo, ele se aproveitava dele e era mais legal, P.T (o do filme) genuinamente gostava deles e os considerava amigos. Mas o lance de “nós deu uma familia”, foi forçar a barra.

    Realmente acho que o filme ficaria melhor se não tivesse sido vendido como uma história real, já que não foi isso que eu assisi.

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  2. O sistema de livre-empresa, ou capitalista, já fez mais para melhorar a condição material da humanidade que qualquer outro arranjo econômico em toda a história escrita. No entanto, o “capitalismo” é condenado constantemente, acusado de ser a causa dos males da humanidade, sendo que nada poderia estar mais distante
    da verdade.

    A condição econômica da humanidade mudou de modo dramático em meros 200 anos. Em 1820 a população mundial era mal chegava a 1 bilhão de pessoas; em 1900, tinha subido para apenas 1,5 bilhão. Hoje, em 2017, o planeta já tem mais de 7,4 bilhões de habitantes.

    Esse aumento enorme na população mundial gerou miséria material abjeta e desesperança humana? Nada disso; muito pelo contrário, na realidade. Em 1900, o PMB (Produto Mundial Bruto) global estava em cerca de US$1 bilhão; hoje, chega a quase US$80 trilhões.

    Estima-se que em 1820 o PMB per capita mundial chegava a US$1.000; em 1900, já havia dobrado, alcançando em média US$2.000 por pessoa. Em 2017 o PMB per capita do mundo está em quase US$16 mil – ou seja, multiplicou-se por oito em pouco mais de um século, e isso em um mundo com uma população sete vezes maior do que a de pouco mais de cem anos atrás.

    Escapamos da pobreza graças ao capitalismo.

    É evidente que esse aumento de prosperidade material baseado no critério do PMB per capita global não impactou todas as pessoas, em todos os lugares, no mesmo grau ou ao mesmo tempo.

    Mas isso acontece porque nem todos os países evoluíram ou adotaram muitos dos ingredientes institucionais essenciais que são necessários para fomentar esses avanços econômicos espantosos.

    O processo começou em partes da Europa e depois da América do Norte nos séculos 18 e 19, e de lá se espalhou para outras partes do planeta, em graus diversos. Mesmo hoje, o capitalismo mal tocou algumas partes do mundo.

    É uma melhoria que encerra a possibilidade de acabar com a miséria humana antes do final do século 21.

    Porém, em toda parte onde existem as instituições da liberdade individual, propriedade privada, a vigência de um Estado de direito e o governo restrito, o motor humano da criatividade e do empreendedorismo abriu o caminho para um potencial manancial de prosperidade, tomando o lugar da pobreza, das doenças e da crueldade dos sistemas políticos pré-capitalistas presentes em quase toda parte alguns séculos atrás.

    Como disse a historiadora econômica Deirdre McCloskey, “a verdadeira base de sustento dos pobres tem sido o crescimento econômico, o Grande Enriquecimento, que nos últimos dois séculos multiplicou as rendas reais por 30. Pense bem nesse número: a renda se multiplicou por 30, ou seja, subiu cerca de 3.000%.”

    Essa transformação da condição humana está tomando conta do mundo de maneira lenta, mas certeira. É uma melhoria que encerra a possibilidade de acabar com a miséria humana em suas formas mais aberrantes antes do final do século 21. No entanto, o capitalismo leva a culpa por tudo que os críticos consideram intolerável neste planeta.

    Uma das questões mais candentes de nossos tempos é o desafio da disparidade de renda e o fato de que alguns são “ricos” enquanto outros são “menos bem providos” e ainda outros são “pobres”. A verdade é que o sistema de livre mercado competitivo já fez que qualquer outro para livrar a humanidade das desigualdades “antinaturais”.

    Antes do capitalismo, “os poucos” roubavam dos “muitos”
    Ao longo da maior parte da história humana, o poder político, o privilégio econômico e o status social foram frutos das façanhas físicas da conquista e do controle. O saqueio da produção de outros e a escravização de outros eram os métodos usados naqueles tempos passados para tomar posse dos meios de obter riqueza e luxo. Era realmente o caso de “poucos” poderem governar “muitos” e viver do que os “muitos produziam”, lançando mão para isso da ameaça da força física.

    Pouquíssimos de nós estaríamos dispostos a trocar de lugar com a vida curta e difícil dos aristocratas de poucas centenas de anos atrás.

    Superstições e ideologias toscas eram usadas para justificar a escravidão e a servidão forçada. Reis e príncipes, faraós e sacerdotes utilizavam ferramentas psicológicas e culturais para manipular a cabeça de outros, levando-os a aceitar que o domínio dos poucos sedentos de poder era inevitável e predeterminado.

    Essas eram sociedades onde uma minoria persistente vivia em condições superiores ao resto da população e a dominava. É claro que, comparados aos nossos padrões de vida atuais, os poderosos e politicamente privilegiados do passado viviam na pobreza material inimaginável; mesmo assim, sua vida era melhor que a da maioria de seus escravos e súditos. Ouso sugerir que pouquíssimos de nós, por mais humilde possa ser nossa posição econômica atual, estaríamos dispostos a trocar de lugar com a vida curta e difícil dos monarcas e aristocratas de apenas algumas centenas de anos atrás.

    Essas ordens sociais, políticas e econômicas eram fundamentadas em desigualdades “antinaturais” baseadas no poder e nos privilégios políticos. A maioria dos indivíduos era mantida coercitivamente em uma posição de classe social ou casta que nada tinha a ver com suas qualidades individuais que, se as pessoas tivessem tido a liberdade de melhorar sua vida através da interação pacífica e voluntária com outros, poderiam ter lhes valido uma vida melhor.

    O capitalismo liberal trouxe liberdade e avanços materiais
    Tudo isso começou a mudar com o surgimento do liberalismo político e econômico, nos séculos 18 e 19, que passou a limitar cada vez mais o poder dos governos. Surgiu a ideia dos “direitos humanos”, pelos quais os detentores de cargos governamentais passaram a ser vistos como “servos” encarregados de proteger os direitos individuais de cada humano.

    Cada indivíduo ganhou mais liberdade para lutar por seus próprios interesses e objetivos, conforme ele próprio os definia.

    Um novo ideal ganhou força, aquele da igualdade de todos perante a lei. Esse ideal estava refletido no texto da Declaração de Independência americana. Esta indicava que, quando cada indivíduo possui direitos individuais iguais, sem favores ou privilégios políticos para ninguém, cada pessoa se torna livre para encontrar seu lugar na sociedade. Ela pode então elevar-se até a situação de vida desigual para a qual suas tendências próprias a conduzem, em associação livre e voluntária com todas as outras pessoas que também possuem os mesmos direitos à sua própria vida, liberdade e propriedade.

    Cada vez mais pessoas passaram a libertar-se mais e mais dos controles governamentais, que, até aquele momento, limitavam a liberdade de realizar comércio, de modo a beneficiar as elites.

    Cada indivíduo ganhou mais liberdade para lutar por seus próprios interesses e objetivos, conforme ele próprio os definia. Mas as “regras do jogo” previam que cada pessoa só podia melhorar sua situação se aplicasse seus talentos e recursos singulares a serviço dos outros, como o meio de ganhar uma renda e melhorar sua vida. Como disse Adam Smith, como se fosse pela ação de uma “mão invisível”, embora cada indivíduo lute por seus próprios interesses, o contexto institucional conduz cumulativamente à melhoria material e cultural mútua e crescente de todos.

    A classe média surge da classe “pobre”
    A partir do século 19 e no início do século 20, nasceu na Europa moderna algo que nos séculos anteriores foi muito limitado: uma “classe média”.

    De onde surgiu essa classe média emergente e crescente? Ela nasceu das “classes mais baixas”, aquelas que em tempos anteriores eram formadas pelos servos e escravos dos reis – do setor econômico mais baixo. Com direitos de propriedade garantidos, impostos relativamente baixos e regulamentação governamental menor do comércio, os indivíduos de espírito empreendedor puderam assumir o risco de abrir e administrar empreendimentos. O século 19 foi um grande período de inovações, experimentos industriais e produção em massa.

    Nos centros industriais os salários subiam lenta porém constantemente, de modo que homens ou mulheres podiam receber uma renda nunca antes imaginada.

    A livre-empresa permitiu que as economias poupadas fossem aplicadas na indústria. Os investimentos de capital em maquinário novo e melhor exigiam mais mãos humanas para utilizar essas máquinas para fabricar as mercadorias que chegavam ao mercado em número e tipos cada vez maiores. A demanda de mão-de-obra aumentou; os trabalhadores se transferiram para as cidades, onde as novas indústrias estavam deitando raízes, afastando-se do trabalho secular no campo. Nos centros industriais os salários subiam lenta porém constantemente, de modo que homens e mulheres podiam receber uma renda nunca antes imaginada na zona rural, sob o vigilância da aristocracia fundiária que os dominava.

    À medida que a renda de cada vez mais pessoas foi subindo, a necessidade de qualificações e educação levou esses novos trabalhadores industriais a melhorar suas habilidades. Surgiram instituições de ensino privadas que ofereciam a alfabetização básica e a formação “mecânica” – o que hoje chamamos de ensino profissionalizante. O historiador econômico E.G. West, em seu livro “Education and the State” (1965), estimou que entre 1790 e 1830 entre dois terços e três quartos de toda a população britânica foi plenamente alfabetizada em escolas privadas com fins lucrativos e outras sem fins lucrativos.

    Isso, por sua vez, gerou uma demanda de mercado por algo que ficou conhecido na Grã-Bretanha como “a imprensa de um vintém” – jornais de baixo custo que saciassem a sede crescente das pessoas por conhecimento e informações sobre acontecimentos mundiais, além dos avanços científicos e tecnológicos que pipocavam em rápida sucessão, como cogumelos sob uma chuva suave.

    Os ganhos decorrentes dos investimentos em capital físico e humano

    A demanda por operários nas empresas industriais e manufatureiras do século 19 elevou os salários em relação aos patamares rurais estagnados anteriores. Os lucros que essas empresas estavam ganhando com o fornecimento de mercadorias que essa força de trabalho desejava, em seu papel de consumidora, criaram os meios financeiros para o aumento dos investimentos em maquinário melhor.

    O investimento em ferramentas e equipamentos (o “capital” físico do mercado) gerou produtividade maior, que, por sua vez, reforçou o movimento de alta dos salários. A produtividade por hora-homem aumentou – aquilo que os economistas chamam de “o produto marginal do trabalho”, o incremento do produto adicional pelo acréscimo de um trabalhador adicional em uma empresa.

    Esse vem sendo o resultado cumulativo do processo competitivo da economia de mercado.

    Assim, a formação de capital que elevava a produtividade da mão-de-obra, além dos investimentos feitos pelos trabalhadores no chamado “capital humano” (os conhecimentos, habilidades e qualificações dos trabalhadores), se somaram para tirar mais pessoas da pobreza, ao mesmo tempo em que crescia a produtividade dos trabalhadores. De fato, um número crescente de trabalhadores industriais competia por empregos com uma população crescente, mas a formação de capital com equipamentos melhores gerou um aumento mais rápido de produtividade da mão-de-obra que o crescimento da força de trabalho em idade economicamente ativa. O efeito líquido disso foi a elevação dos salários e a redução do “abismo” entre os padrões de vida dos ricos, da classe média crescente e dos pobres.

    Em vez de a pobreza versus a riqueza separar a maioria das minorias, nos últimos 200 anos a distinção vem sendo reduzida, cada vez mais, a graus de riqueza, conforto e luxos desfrutados pelas pessoas na sociedade. Esse vem sendo o resultado cumulativo do processo competitivo da economia de mercado. A fartura gerada pela livre-empresa disponibiliza para todos uma diversidade enorme e crescente de bens e serviços, um grande fator igualizador da qualidade e dos padrões de vida.

    A desigualdade material do passado versus disponibilidade igual crescente para todos
    Trezentos ou 400 anos atrás, os nobres viviam em castelos com empregados, enquanto os “plebeus” ocupavam choupanas com telhado de sapé que geralmente dividiam com o gado. No século 16, a rainha Elizabeth I possuía um guarda-roupa de luxo composto de um pequeno punhado de vestidos, enquanto as pessoas do povo geralmente vestiam trapos que eram passados dos mortos para os vivos e que frequentemente transmitiam parasitas e germes capazes de espalhar doenças.

    A dieta da aristocracia era limitada ao que era cultivado ou criado em suas propriedades, enquanto os servos vinculados às terras dos senhores tinham uma alimentação monótona e muito mais esparsa, dependendo da sorte das estações, chegando muitas vezes à beira da inanição. Aristocratas e plebeus raramente viajavam, e, quando faziam, geralmente não iam além dos confins estreitos das regiões onde haviam nascido.

    A maioria imensa da população do mundo tem acesso à internet e ao celular.

    Hoje, nas economias mais baseadas no mercado, as diferenças entre ricos, classe média e “pobres” muitas vezes consistem no número de cômodos na casa ou apartamento de cada um. Geralmente há mais de um televisor em cada casa. Todos os eletrodomésticos possuem as mesmas qualidades e características básicas. A maioria das famílias possui um ou mais carros para transportar os membros da família para onde querem ir, quando querem ir.

    Viajar é hoje uma prática comum; em 2016, mais de 3,6 bilhões de pessoas – número equivalente a quase metade da população mundial – se deslocou pelo planeta em aviões comerciais. E a maioria imensa da população do mundo – ricos, pobres, ou em algum lugar no meio – tem acesso à internet e a telefones celulares (exceto nos lugares onde governos opressores procuram interferir).

    Uma grande diversidade de alimentos numa gama estreita de preços está disponível para virtualmente todos nas sociedades amplamente baseadas no mercado. Pessoas ricas são vistas em supermercados de descontos, enquanto pessoas de classe média e pobres saem dos caixas com carrinhos cheios de produtos em lojas de alimentos de alta qualidade. Todos consomem os mesmos artigos, a preços razoavelmente justos e acessíveis, vindos de fornecedores de todas as partes do mundo, de tal modo que a disponibilidade sazonal de diversos produtos perecíveis virou quase uma coisa do passado.

    A concorrência de mercado como grande nivelador social positivo
    Em “Economists and the Public” (1936), o economista britânico William H. Hutt (1899-1988) observou:

    “Na verdade, para o economista que estuda a sociedade, a concorrência parece constituir a grande força niveladora, prima facie. Seria de se imaginar que o ônus de provar que não é esse o caso cairia sobre os adversários da concorrência.”

    No decorrer de poucas gerações, o capitalismo competitivo elevou um número enorme de pessoas para situações de conforto financeiro e material, especialmente pessoas que, de outro modo, teriam permanecido afundadas na pobreza que prevaleceu por milhares de anos. Isso se deu graças ao aumento da renda e à redução dos custos reais de bens e serviços levados à porta de quase todos no Ocidente e, cada vez mais, de bilhões e mais bilhões de pessoas no resto do mundo.

    O processo do mercado competitivo coloca os talentos, qualificações e garra de cada pessoa a serviço de todas as outras.

    Isso vem sendo possibilitado na medida em que as sociedades têm sido razoavelmente livres, de modo que os direitos individuais garantidos sob o princípio da igualdade perante a lei permitiram que as desigualdades “naturais” entre as pessoas emergissem mais plenamente. Em vista dessas diferenças – hereditariedade e circunstâncias no nascimento, inclinações pessoais e motivações pessoais para o autoaperfeiçoamento –, cada indivíduo procura implicitamente fazer o melhor que consegue, no contexto de sua própria vantagem comparativa na divisão do trabalho.

    O processo do mercado competitivo coloca os talentos, qualificações e garra de cada pessoa a serviço de todas as outras. Aqueles que terminam em um lugar mais modesto no mercado em termos de renda se beneficiam dos sucessos de seus “superiores” financeiros no mercado, já que as recompensas financeiras destes últimos dependem do grau em que tenham satisfeito os desejos e necessidades de outros na sociedade.

    A benevolência e assistência particular aos menos favorecidos
    Mas será que o potencial do indivíduo deve ser desperdiçado ou ser menos realizado devido a suas condições aleatórias de berço? Se aquele indivíduo tivesse nascido em uma família ou uma condição social diferente, poderia ter realizado muito mais, tanto como contribuinte quanto como beneficiário de tudo o que uma economia de livre mercado tem a oferecer.

    A ética de uma sociedade livre e do sistema econômico capitalista se baseia no reconhecimento e proteção dos direitos individuais à vida, liberdade e propriedade honestamente adquirida, tudo dentro de uma ordem social regida pela associação voluntária e os acordos mútuos. A obrigação e a força nos relacionamentos humanos são reduzidos a um mínimo coerente com a uma sociedade pacífica de homens livres.

    A assistência aos carentes também deve ser baseada na livre escolha e na doação voluntária.

    Isso significa que a assistência aos carentes também deve ser baseada na livre escolha e na doação voluntária. Não apenas isso é essencial para os princípios de uma sociedade livre, como coloca em ação as mesmas vantagens da concorrência em termos de “elevar a condição” dos menos favorecidos.

    Um processo decisório privado e descentralizado relativo à assistência abre a porta para muitos métodos diferentes serem testados e experimentados, para que se encontrem os resultados mais desejados na assistência a outros. Em lugar de delegar essa tarefa a poucas pessoas em cargos nomeados pelo governo que tomam o lugar de alternativas do setor privado, muitas cabeças individuais trabalham para buscar soluções para esses “problemas sociais”.

    Além disso, no setor voluntário, os organizadores de esforços filantrópicos e beneficentes dependem das doações voluntárias feitas por benfeitores. Isso significa que os organizadores e administradores desses esforços precisam provar o que realizaram com o dinheiro voluntário que lhes foi encaminhado, se quiserem que as doações continuem nos próximos meses e anos.

    É difícil identificar os responsáveis por falhas cometidas em órgãos governamentais burocratizados. Apesar disso, a receita tributária continua a fluir para esses órgãos, conservando um status quo redistributivo falido. Em um sistema de filantropia e assistencialismo do setor privado, as falhas são mais fáceis de identificar e os doadores podem manifestar sua insatisfação, deixando de apoiar esses projetos e transferindo seus dólares voluntários para outros projetos que de fato ajudem a melhorar a vida dos deixados para trás na sociedade.

    Um dos benefícios do sistema econômico capitalista é a grande fuga da pobreza.

    Para a população global em franco crescimento, um dos benefícios do sistema econômico capitalista é a grande fuga da pobreza. A igualdade universal de direitos individuais permite que cada pessoa use suas habilidades desiguais para melhorar sua própria situação, mas resulta em melhorias materiais para cada vez mais pessoas. As diferenças materiais entre as pessoas e os contrastes entre riqueza e pobreza estão diminuindo, com mais conforto, conveniência e oportunidades para todos.

    As economias de mercado conseguiram promover a melhoria da humanidade. Esse fato rebate os argumentos de todos os que condenam o sistema capitalista com base em uma ideia equivocada do que de fato constitui uma sociedade baseada no mercado.

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  3. Os antirracistas deveriam pensar duas vezes antes de se aliar ao socialismo
    Tendência crescente entre os defensores da justiça racial é abraçar a agenda econômica esquerdista.

    Os movimentos modernos de justiça racial, como o Black Lives Matter, aderem à premissa historicamente falsa de que o socialismo é antirracista. Falando ao “Los Angeles Times” em agosto passado, Patrisse Cullors, co-fundadora do movimento Black Lives Matter, disse que o BLM não se sentaria à mesa com o presidente Trump porque ele “é literalmente a epítome do mal, de todos os males deste país –racismo, capitalismo, sexismo, homofobia”.

    Deixando de lado as posições e os atos de Trump, descrever o capitalismo como perverso e associá-lo ao racismo é algo que chama a atenção. A mesma coisa se aplica à tendência crescente entre os defensores da justiça racial a abraçar a agenda econômica esquerdista.

    Tanto assim que Ryan Cooper, colunista do “The Week”, escreveu uma coluna intitulada “O Black Lives Matter está se tornando socialista?”. Como ele notou em tom de aprovação, o BLM adotou “um programa econômico tremendamente assertivo –e inequivocamente de esquerda”.

    Do outro lado do Atlântico, Natalie Jeffers, que co-fundou o BLM no Reino Unido, exortou seus seguidores a: “Combater o racismo com solidariedade. Combater o capitalismo com socialismo. Precisamos nos organizar – precisamos nos dedicar ao poder político revolucionário.”

    O Movimento Black Lives Matter, organização britânica distinta, foi fundado por Gary McFarlane, representante do Partido Socialista dos Trabalhadores. Ele escreve na “Socialist Review” e na “Socialist Worker” e alega que “o capitalismo é racista de alto a baixo”. Os co-fundadores do movimento britânico, incluindo Kate Hurford, Harold Wilson e Naima Omar, também já escreveram para essas duas publicações.

    Em outras palavras, existe entre os defensores da justiça racial a ideia crescente de que mais socialismo resultaria em menos racismo e até mesmo de que o socialismo é antirracista por sua própria natureza. Na realidade, não existe essa ligação necessária entre socialismo e antirracismo, como comprova fartamente um olhar mais apurado para os primeiros textos socialistas.

    Os socialistas tinham muito a dizer sobre raça
    Para começar, é importante observar que o significado da palavra “raça” se modificou ao longo do tempo. Hoje a maioria das pessoas pensa em raça em termos de cor, como “negro” ou “branco”. Historicamente, porém, “raça” também era sinônimo de uma nação ou até mesmo de uma família. Em seu livro “Marlborough: His Life and Times”, de 1933, Winston Churchill observou: “O antagonismo à França se escondia nas profundezas do Estado e da raça prussianos”. Enquanto isso, a artista inglesa Mary Granville, em seu livro de 1861 “Autobiography and Correspondence”, aludiu à família de Churchill como “a raça dos Marlborough”.

    A raça sempre fez parte do pensamento socialista
    Mas a questão da raça, quer fosse entendida de maneira mais restrita (negra e branca) ou mais ampla (cor de pele, nação e família), sempre fez parte do pensamento socialista. Em 1894, por exemplo, Friedrich Engels escreveu uma carta ao economista alemão Walther Borgius. Nela, observou: “Enxergamos as condições econômicas como sendo as que, em última análise, determinam o desenvolvimento histórico, mas a própria raça é em si um fator econômico”.

    Engels se aprofundou sobre o tema da raça em seu livro de 1877 “Anti-Dühring”, observando que “a herança de características adquiridas se estendeu… do indivíduo à espécie”. Ele prosseguiu: “Se, por exemplo, entre nós os axiomas matemáticos parecem autoevidentes a qualquer criança de 8 anos, sem a necessidade de comprovação com evidência, isso é unicamente em decorrência da ‘herança acumulada’. Seria difícil ensiná-los por meio de provas a um bosquímano ou a um negro australiano.”

    Chama a atenção o fato de Engels ter escrito essas palavras 16 anos antes de Francis Galton, escrevendo na “Macmillan’s Magazine”, ter exortado a humanidade a assumir o controle de sua própria evolução por meio da “boa criação”, ou eugenia. A esse respeito, Sidney e Beatrice Webb, que eram tanto socialistas quanto proponentes da eugenia, lamentaram na “New Statesman” em 1913 a queda do índice de natalidade entre as chamadas raças superiores. Avisaram que “uma nova ordem social será desenvolvida por uma ou outra das raças de cor, os negros, os cafres ou os chineses”.

    O revolucionário argentino Che Guevara, amigo do ditador cubano Fidel Castro, apresentou sua opinião sobre a raça em seu livro de memórias de 1952, “Diários de Motocicleta”, em que escreveu: “O negro é indolente, preguiçoso e gasta seu dinheiro com frivolidades, enquanto é europeu é progressista, organizado e inteligente.”

    Os socialistas são historicamente pró-genocídio
    Além do racismo, os primeiros textos socialistas continham chamados explícitos pelo genocídio de povos atrasados. A mistura tóxica dessas duas ideias antiliberais resultaria em pelo menos 80 milhões de mortes ao longo do século 20.

    Karl Marx chegou perto de defender o genocídio no “New York Tribune”, em 1853, quando escreveu: “As classes e raças demasiado fracas para dominar as novas condições de vida precisam ceder”. Seu amigo e colaborador Friedrich Engels foi mais explícito.

    Karl Marx chegou perto de defender o genocídio
    Em 1849 Engels publicou um artigo no jornal de Marx, “Neue Rheinische Zeitung”. Nele, condenou as populações rurais do Império Austríaco por não terem participado com entusiasmo da revolução de 1848. Foi um momento seminal cuja importância seria impossível exagerar.

    “Do artigo de Engels em 1849 até a morte de Hitler, todos os que defenderam o genocídio se descreveram como socialistas”, escreveu George Watson em seu livro de 1998 “The Lost Literature of Socialism”.

    O que Engels escreveu, então?

    “Entre todas as nações grandes e pequenas da Áustria, apenas três porta-bandeiras do progresso tomaram parte ativa da história e ainda conservam sua vitalidade: os alemães, os poloneses e os magiares. Logo, eles hoje são revolucionários. Todas os outros povos e nacionalidades grandes e pequenos estão destinados a desaparecer em pouco tempo na tempestade revolucionária mundial. Por essa razão, hoje são contrarrevolucionários.”

    “Os alemães e magiares austríacos serão libertados e se vingarão sangrentamente dos bárbaros eslavos”, ele prosseguiu. “A próxima guerra mundial resultará no desaparecimento da face da terra não apenas das classes e dinastias reacionárias, mas também de povos reacionários inteiros. E isso também constitui um passo adiante.”

    Aqui Engels claramente antevê os genocídios do totalitarismo do século 20, em geral, e em particular do regime soviético. De fato, Joseph Stalin apreciava o artigo de Engel e o recomendou a seus seguidores em “Sobre os Fundamentos do Leninismo”, em 1924. Ele então passou a reprimir minorias étnicas soviéticas, incluindo os judeus, tártaros da Criméia e ucranianos.

    Não surpreende que a Alemanha nazista, com seus campos de concentração e sua polícia secreta onipresente, tenha chegado tão perto de assemelhar-se à União Soviética.
    Adolf Hitler, que admirava Stalin por sua implacabilidade e o descrevia como “gênio”, também foi fortemente influenciado por Marx. “Aprendi muito com o marxismo, como não hesito em admitir”, ele disse. Em sua juventude, Hitler “nunca evitava a companhia de marxistas” e acreditava que “enquanto o social-democrata pequeno burguês … nunca se converterá num nacional-socialista, o comunista sempre o fará”.

    Watson argumentou que “as divergências de Hitler com os comunistas não eram tanto ideológicas quanto táticas”. Hitler abraçou o nacionalismo alemão para não “competir com o marxismo em seu próprio terreno”, mas reconheceu explicitamente que “todo o nacional-socialismo é baseado em Marx”. Logo, não surpreende que a Alemanha naxista, com seus campos de concentração e sua polícia secreta onipresente, tenha chegado tão perto de assemelhar-se à União Soviética.

    Quanto os nazistas aprenderam com os soviéticos?
    Em sua autobiografia de 1947 “Comandante de Auschwitz: A Autobiografia de Rudolf Hoess”, Hoess recordou que os alemães já tinham conhecimento em 1939 do programa soviético de extermínio dos inimigos do Estado através do trabalho forçado. “Se na construção de um canal, por exemplo, os detentos de um campo soviético fossem utilizados até o esgotamento, milhares de kulaks (camponeses) novos ou outros elementos pouco confiáveis seriam convocados e, por sua vez, seriam usados até o esgotamento.” Os nazistas lançariam mão da mesma tática com os trabalhadores escravos judeus nas fábricas de munição, por exemplo.

    Watson escreveu que depois de invadirem a União Soviética em 1941, os alemães colheram informações sobre a escala imensa do sistema soviético de campos de trabalho forçado e ficaram impressionados com “a disposição soviética de destruir categorias inteiras de pessoas por meio do trabalho forçado”.

    O terror comunista continua envolto em uma névoa ontológica.
    Após o término da guerra, Stalin ficou profundamente preocupado com o que os alemães sabiam sobre o sistema soviético de campos de trabalho e sobre os crimes cometidos pelos soviéticos nos territórios que conquistaram após a assinatura do Pacto de Molotov-Ribbentrop. Ele enviou Andrey Vyshinsky, o arquiteto de seu Grande Expurgo (1936-1938), a Nurembergue para desviar o tribunal de crimes de guerra de linhas de investigação que fossem inconvenientes para a URSS.

    Hoje estamos familiarizados com os números referentes às pessoas que morreram devido ao experimento socialistas, mas o terror comunista continua envolto em uma névoa ontológica. Assim, o extermínio dos judeus pelos nazistas geralmente é condenado como exemplo de ódio racista. Enquanto isso, o extermínio soviético de grupos específicos de pessoas geralmente é visto como parte de uma “luta de classes” que seria muito menos nociva.

    A diferenciação estranha entre “ódio racista” e “luta de classes”
    A teoria histórica marxista era baseada na luta de classes e postulava que o feudalismo estava destinado a ser suplantado pelo capitalismo. O capitalismo, por sua vez, estaria destinado a dar lugar ao comunismo. Marx se enxergava principalmente como cientista e pensava ter descoberto uma lei imutável de evolução das instituições humanas, da barbárie, em uma extremidade, ao comunismo, na outra (veio disso a ideia do “socialismo científico” promovida por Engels após a morte de Marx).

    Os povos atolados no feudalismo, como os eslavos, “além dos bascos, bretões e highlanders escoceses”, não poderiam avançar diretamente do feudalismo para o comunismo. Teriam que ser exterminados –para não obstruir o avanço de todos os outros! Watson comentou: “Eles eram a escória racial, conforme Engels os descreveu, apropriados apenas para acabar no lixão da história”.

    Diante de tudo isso, como devemos encarar o socialismo e a questão racial, e será que a resposta a essa pergunta guarda alguma relação com a distinção traçada entre as atrocidades nazistas e comunistas?

    O melhor que se pode dizer sobre os socialistas é que suas vítimas eram mais diversificadas que as de Hitler.
    Em sua obra de 1902 “Anticipations of the Reaction of Mechanical and Scientific Progress upon Human life and Thought”, H.G. Wells escreveu: “Existe uma disposição do mundo, compartilhada pelos franceses, de desvalorizar grosseiramente as perspectivas de tudo o que é francês, o que se deve, pelo que pude observar, ao fato de os franceses terem sido derrotados pelos alemães em 1870 e de eles não se reproduzirem com o mesmo descaso e abundância que os coelhos ou os negros”.

    “Devo confessar”, ele prosseguiu, “que não visualizo o negro, o irlandês pobre e todo o restolho emigrante da Europa, que constitui o grosso do abismo americano, unindo-se para formar o grande partido socialista.”

    Observe-se a facilidade com que o autor socialista de best-sellers como “A Máquina do Tempo” (1895), “A Ilha do Dr. Moreau” (1896), “O Homem Invisível” (1897) e “A Guerra dos Mundos” (1898) coloca brancos atrasados e negros atrasados no mesmo saco.

    Para Wells, ambos eram primitivos e, consequentemente, inapropriados para serem porta-bandeiras do socialismo. Isso condiz perfeitamente com a teoria histórica de Marx, que era, por definição, universal em sua aplicabilidade. Logo, a criação de uma utopia socialista dependia do extermínio de todas as raças, entendidas em sentido amplo, que formavam um obstáculo no caminho da revolução socialista. Como tais, isso incluía os “bosquímanos” negros e os brancos bretões.

    Contrastando com a utopia de Marx, a de Hitler não era universal. Líder do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), Hitler queria criar o socialismo em apenas um país, a Alemanha. Seu ódio aos judeus, por exemplo, era baseado em parte em sua ideia de que o capitalismo e a comunidade judaica internacional eram dois lados da mesma moeda. Como ele indagou certa vez, “Como socialista, como é possível não ser antissemita?”

    A velha distinção entre os crimes do nacional socialismo e do socialismo propriamente dito parece não se sustentar.
    Para alcançar suas metas socialistas, escreveu Götz Aly em seu livro de 2008 “Hitler’s Beneficiaries: Plunder, Racial War, and the Nazi Welfare State”, os alemães confiscaram ouro, alimentos, roupas e máquinas em todos os territórios que conquistaram. E puseram os povos conquistados para trabalhar em fábricas e campos de extermínio e trabalho escravo alemães.

    Concluindo, a velha distinção entre os crimes do nacional socialismo (como sendo puramente racistas) e do socialismo propriamente dito (aos quais faltaria o elemento racial) parece que não se sustenta. Tanto os perpetradores das atrocidades nazistas (ou seja, os alemães) quanto suas vítimas, incluindo judeus e eslavos, eram brancos. As atrocidades nazistas fazem pouco sentido segundo a definição mais estreita do racismo (por exemplo, negros versus brancos). Fazem sentido no contexto mais amplo: a necessidade sentida pelos nazistas de exterminar todos os povos que fossem um obstáculo à concretização do ideal utópico de Hitler.

    Mas a mesma coisa pode ser dita sobre as atrocidades comunistas. Os primeiros socialistas sem dúvida discutiram a ideia da inferioridade racial das raças mais escuras (ou seja, uma definição restrita do racismo), mas acabaram por abraçar um programa de genocídio mais abrangente. O melhor que se pode dizer sobre os socialistas, portanto, é que suas vítimas eram, segundo as aspirações universais do marxismo, mais diversificadas que as de Hitler. Esperemos que os movimentos Black Lives Matter de ambos os lados do Atlântico não lutem por esse tipo de inclusão.

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  4. As duas Coreias

    As duas Coreias, a do Norte a do Sul, surgiram da divisão do território coreano durante a Guerra Fria. Essa fragmentação perdura até os dias atuais

    A Coreia constituía um único país, dominado pelos chineses. Em 1910, após ser derrotada pelo Japão, a China perdeu o domínio do território para os japoneses. No entanto, em 1945, com a derrota do Eixo (Alemanha, Itália, Japão) na segunda Guerra Mundial, as tropas japonesas foram expulsas da Coreia, havendo a ocupação dos soviéticos e estadunidenses.

    Com o início da Guerra Fria (conflito entre Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), a Coreia, em 1948, foi dividida conforme os interesses geopolíticos das duas potências mundiais, fato ocorrido também na Alemanha.

    O marco divisório constituído pela fragmentação foi estabelecido durante a Conferência de Potsdam, mais precisamente em Yalta e Ptstan, no paralelo 38°. Foram criadas duas nações autônomas com ideologias geopolíticas contrárias: a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte), com sistema comunista; e a República da Coreia (Coreia do Sul), com o sistema capitalista.

    Com as divergências políticas e sistemas econômicos antagônicos entre as duas Coreias, aliados às reivindicações territoriais, criou-se um cenário de instabilidade, que acabou eclodindo em um confronto armado entre os dois países.

    A Guerra da Coreia teve início no dia 25 de junho de 1950, quando tropas militares norte-coreanas, sob o pretexto de violação do paralelo 38° por parte da Coreia do Sul, invadiram o território vizinho. Na realidade, o verdadeiro intuito era unificar o país e estabelecer o socialismo como sistema político. Tropas estadunidenses foram enviadas para auxiliarem a Coreia do Sul no confronto, no qual os chineses deram apoio militar à Coreia do Norte.

    Somente em 27 de julho de 1953, através da assinatura do Armistício de Panmunjom, a paz foi estabelecida, haja vista que o acordo manteve a fronteira criada em 1948. No entanto, o conflito continua sem solução definitiva e ainda provoca tensões entre os dois países, principalmente após o desenvolvimento de armas nucleares na Coreia do Norte.

    Os dois países apresentam grandes diferenças socioeconômicas, uma vez que as políticas econômicas adotadas, refletem no desenvolvimento de cada um. Atualmente, a Coreia do Norte necessita de auxilio humanitário de outros países, o setor industrial está em declínio e a agricultura é a principal atividade econômica desenvolvida no país. A Coreia do Sul por sua vez, apresenta grande desenvolvimento econômico, fruto da política democrática estabelecida no fim da década de 1980, investindo maciçamente no sistema educacional, promovendo a industrialização nacional e integrando-se ao quadro dos países chamados de Tigres Asiáticos.

    Dados das duas Coreias:

    Coreia do Norte

    Área: 120.538 km²

    PIB: 14.753 milhões de US$

    PIB per capita: 618 US$

    População: 23.906.070 habitantes

    População urbana: 63%

    Esperança de vida: 67 anos

    População subnutrida: 32%

    Coreia do Sul

    Área: 99.016 km².

    PIB: 956.788 milhões de US$

    PIB per capita: 9.841 US$

    População: 48.332.820 habitantes

    População urbana: 81,7%

    Esperança de vida: 78,2 anos

    População subnutrida: menor que 5%

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  5. Atualmente, enquanto a Coréia do Sul ostenta a 15ª posição no ranking de Desenvolvimento Humano, a Coréia do Norte está mergulhada na tirania, opressão e miséria, sendo considerada o país mais fechado do mundo e uma das ditaduras mais totalitárias e ferrenhas. Há até quem considere seu regime, uma espécie de nacionalismo racista comparável ao nazismo. Seu sistema de classes imposto pelo estado, o Songbun, é comparável ao sistema de castas e discrimina pessoas com base em sua linhagem.

    Apesar das dificuldades encontradas por jornalistas e observadores internacionais em saber o que se passa dentro do país, os poucos dados existentes apontam para uma realidade socioeconômica nada boa. A expectativa de vida de 69,81 anos está abaixo de países como Bangladesh e Iraque, a taxa de mortalidade infantil é 6 vezes maior que a da Coréia do Sul e o PIB per Capita é comparável ao de países africanos.

    A Anistia Internacional e a Human Rights Watch acusam a Coreia do Norte de ter um dos PIORES registros violações de direitos humanos de qualquer nação.
    Em 18 de novembro de 2014, a ONU condenou as violações dos direitos humanos na Coreia do Norte, dando um primeiro passo para julgar a Coreia por crimes contra a humanidade. A resolução foi aprovada por 111 votos a favor e 19 contra. Russia, China, Irã, Síria, Cuba, Venezuela e outras 13 nações ajudaram a proteger o regime norte-coerano votando contra.

    Desertores norte-coreanos, como Lee Soon-ok e Shin Dong-hyuk, testemunharam a existência de campos de concentração com uma estimativa de 150.000 a 200.000 presos, e reportaram torturas, fome, estupros, assassinatos, experimentos médicos desumanos, trabalhos, e abortos forçados. Um oficial do Ministério do Exterior admitiu a existência de campos de concentração, alegando porém que são “campos de trabalho para reformar cidadãos”.

    Com o fim da União Soviética em 1991, a Coréia do Norte começa a passar por sérias dificuldades e é assolada pela fome. O próprio regime se refere ao período como a “Marcha Árdua” e em 1995, a Coréia do Norte faz uma requisição oficial por ajuda humanitária. Ainda hoje, o país praticamente só se alimenta graças à ajuda internacional.
    Neste link é possível ver algumas imagens fortes da fome na Coréia do Norte.

    Também nunca é demais lembrar que no Brasil, o PC do B, partido aliado do PT de longa data, lançou um manifesto de apoio à Coreia do Norte.

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  6. Afinal de contas, o capitalismo é mesmo cruel e explorador?
    Comunistas, socialistas, distributivistas e outros grupos não cansam de falar que o capitalismo é cruel. Mas será que eles sabem o que é o capitalismo?

    As ideias, as instituições e o impacto social do capitalismo foram alguns dos assuntos ideologicamente mais atacados nos últimos 100 anos. Pense em algo que alguém não gosta no mundo e você pode ter certeza que o agente causador é sempre o mesmo – o “capitalismo”. Mas o que é de fato culpa do capitalismo e o que não é?

    As palavras “capitalismo” e “capitalista” foram usadas de diversas formas ao longo dos séculos, mas foram criadas principalmente pelos críticos da sociedade mercantil que desenvolveu suas formas mais modernas no começo dos anos 1800. O seu uso e conotação eram usados para transmitir a ideia de uma ordem social na qual apenas “alguns” possuíam os meios de produção (o “capital” da sociedade), o que os permitia explorar e abusar a maioria das pessoas para obter vantagens materiais e financeiras.

    Capitalismo como inimigo do desenvolvimento humano
    O uso mais popular da palavra é, sem dúvida, proveniente dos escritos de Karl Marx e outros pensadores que estavam certos de que se não fosse pela propriedade privada dos meios de produção, a humanidade não carregaria em seus ombros o peso de nenhum mal ou dificuldade. A posse comum ou coletiva e o uso comunitário dos bens de produção poderiam eliminar a pobreza, abolir disparidades de salário e riqueza e criar um mundo em que os conflitos de classe social seriam coisa do passado.

    Na segunda metade do século 20, porém, os experimentos socialistas existentes com posse coletiva e administração centralizada no governo resultaram em tiranias governamentais, em uma nova sociedade baseada no status político, que dava privilégios para aqueles que eram membros do partido ou que tinham alguma posição de destaque na burocracia. Além disso, eram sociedades com uma grande estagnação econômica e com padrões de vida muito distantes daqueles dos países capitalistas.

    Depois dessas experiências, o Ocidente, falando principalmente daqueles indivíduos que que defendiam o regime soviético na Rússia e outros governos comunistas no mundo, mudou de discurso. A propriedade privada não precisava ser abolida rapidamente em todos os cantos da sociedade. Empresas privadas ainda poderiam produzir bens, mas precisariam ser controladas por uma teia de regulamentações e restrições para garantir que o capitalismo produzisse bens específicos em certos locais de modo a contribuir com um bem comum, não apenas seguir direções econômicas baseadas apenas no lucro.

    O estado intervencionista precisaria ser acompanhado, ao mesmo tempo, por um estado de bem-estar social para garantir uma redistribuição menos exploradora e mais igualitária da riqueza por meio de um sistema de impostos que tire mais dos ricos para dar para a faixa mais pobre da sociedade. Isso pressupõe que os ricos não merecem suas riquezas, mas que os pobres merecem.

    Ao criticar a economia de mercado, uma tendência comum é ser referir ao capitalismo como se ele fosse algo vivo, uma entidade que respira e age contra a sociedade. Consequentemente, o capitalismo explora os trabalhadores. O capitalismo cria a pobreza. O capitalismo destrói o meio ambiente. O capitalismo é racista. O capitalismo discrimina mulheres.

    A palavra tem tantas conotações negativas que algumas pessoas sugerem que ela não seja mais utilizada para se referir a um sistema econômico que propõe a defesa livre das empresas. Outra sugestão foi adicionar uma palavra que a suavize: “capitalismo compassivo”, “capitalismo consciente”, “capitalismo democrático”, “capitalismo das pessoas”, “capitalismo liberal”…

    Para o bem ou para o mal, na minha opinião, a palavra “capitalismo” não irá desaparecer e seus oponentes vão continuar encrencando com seus defensores. Mas o que significa capitalismo para um crítico? O que o capitalismo não é?

    Propriedade privada, liberdades pessoas e a sociedade política
    Um dos conceitos fundamentais para se explicar o capitalismo é a noção de propriedade privada. Ou seja, a ideia que um indivíduo tem direito de posse e uso exclusivo de um determinado bem. Para um liberal clássico, o direito de posse mais fundamental de qualquer indivíduo é o de si mesmo. Em outras palavras, um indivíduo possui a si mesmo. Ele não pode, legal ou ilegalmente, ser tratado como escravo de uma outra pessoa. O indivíduo tem a posse completa de seu intelecto e de seu corpo. Nenhum deles pode ser controlado ou comandado por outra pessoa pelo uso ou ameaça da força.

    Isso implica que, se todos os seres humanos têm o direito de posse de si mesmo, todas as associações e relações entre indivíduos devem ser baseadas no consentimento voluntário e em acordos mútuos. Nenhuma pessoa deve ser forçada ou enganada a entrar em uma relação de troca que não deseja.

    Um liberal clássico também acredita que se esse princípio for seguido pela comunidade, a tendência é se criar uma configuração social que respeita e tolera os outros e que favorece suas escolhas individuais. Além disso, isso gera, de diversas formas, uma sociedade mais humana. As pessoas têm necessidade da ajuda e companhia uma das outras em formas variadas. Se a força não pode ser usada e somente o consentimento voluntário pode servir de base para as conexões entre indivíduos, isso faria com que os indivíduos agissem com cortesia, consideração e dignidade uns com os outros.

    Isso não quer dizer que palavras e ações rudes, desrespeitosas ou até cruéis não possam acontecer. Mas significa que elas terão um custo, já que as pessoas que agem assim terão menos chances de ter trocas ou outros tipos de relação com outras pessoas. Alguns podem não se importar e agir de má fé mesmo assim. Mas, para a maioria das pessoas, os benefícios das relações serenas e equilibradas são maiores do que os malefícios de lidar com seus próprios preconceitos.

    Além disso, em uma sociedade de associação voluntária, a cortesia, o respeito, a consideração e a educação se tornam normas sociais ao longo do tempo, e aqueles que não agem assim com os outros são vistos com ostracismo ou criticismo social por seu “mau comportamento”. Isso reduziria as chances do indivíduo alcançar seus objetivos e propósitos, já que não contaria com a cooperação de outros indivíduos.

    A origem da propriedade de direito e porque ela é justa
    Mas a filosofia liberal clássica da liberdade e do capitalismo não aborda apenas o princípio da autopropriedade de cada indivíduo. Ela também defende o direito dos indivíduos obterem a posse de qualquer tipo de propriedade: recursos, matéria bruta, terra, meios de produção já produzidos (como máquinas, ferramentas, equipamentos) e os bens finais originados deles.

    Isso se baseia, principalmente, na ideia de “apropriação inicial” ou de aquisição por meio de troca voluntária com outros indivíduos da sociedade. A teoria do direito natural é controversa entre filósofos políticos no geral e causa problemas mesmo entre vários pensadores liberais clássicos. Mas permanece, ainda assim, um conceito central derivado de John Locke. Segundo esse princípio, se um homem se estabelecer em uma terra que não era previamente ocupada ou de posse de outros, o indivíduo em questão tem legitimidade para declarar a posse do espaço e trabalhar e modificar a terra, limpar o campo, plantar e cuidar da plantação até a colheita.

    Essa ideia segue um senso comum compartilhado por basicamente todas as pessoas: de que seria injusto ou errado se um grupo de ladrões chegasse na terra do nosso fazendeiro e roubasse os frutos do trabalho físico e intelectual dele. Afinal, o indivíduo planejou a transformação da terra em uma fazenda e se esforçou para produzir suas plantas.

    Se a terra não for propriedade privada do indivíduo, então quem pode reclamar os frutos do trabalho? A gangue ameaçadora de ladrões? Alguma outra pessoa que não tem relação com a existência da plantação, mas que afirma precisar daquilo para sobrevivência ou prazer?

    Se uma declaração desse tipo for feita por ladrões, o que acontece se o fazendeiro não se afastar voluntariamente da fazenda? Será que as pessoas vão usar força para afastá-lo? Vão ameaçar sua vida se ele resistir? Irão matá-lo se ele tentar manter a posse dos frutos do seu trabalho? E, se a resposta para a última questão for sim, será que tirar a vida do fazendo é uma morte sem justificativa?

    Se nosso infeliz fazendeiro não resistisse aos ladrões por temer mais a morte do que sua tentativa de subsistência, será que ele poderia imaginar que é possível que isso aconteça novamente se ele plantar a próxima safra? Será que ele poderia, então, decidir não produzir mais e viver apenas daquilo que consegue tirar da natureza, sem nenhuma ação transformadora da sua parte?

    Se o grupo de ladrões voltar e não encontrar nada para roubar, poderia controlar fisicamente o indivíduo e ameaçá-lo para que trabalhe? Se isso acontecer, nosso indivíduo não teria sido escravizado, alienado da sua liberdade intelectual e física e forçado a trabalhar para o interesse dos outros?

    Eu escolhi apresentar esse cenário em forma de perguntas no lugar de fazer declarações afirmativas de propósito. O motivo para isso é perguntar diretamente para você, leitor, quais seriam as respostas para cada uma das perguntas. Eu suspeito a maioria chegou à mesma conclusão: a plantação é uma propriedade justa e produzida pelo indivíduo e não pode ser tirada dele sem seu consentimento. Seria igualmente injusto se ele fosse privado de sua liberdade de trabalhar para ser comandado por outros por meio de ameaças.

    Propriedade privada como fonte de riqueza e civilização
    Agora que o indivíduo tem direito à sua vida e à sua liberdade, além dos frutos de seu próprio trabalho, então é lógico que ele tenha direito de propriedade sobre as ferramentas, utensílios e equipamentos que o auxiliam em seus esforços produtivos e que foram por ele produzidos por meio do uso de seu trabalho físico e intelectual.

    Assim, ele tem direito de lavrar aquilo que plantou no campo que preparou. Esses meios de produção fabricados que ajudam no desempenho de um esforço produtivo são capital de direito do indivíduo.

    Ao ter liberdade pessoal e direito à propriedade tanto da terra como do capital físico necessário para produzir um determinado produto, o indivíduo aumentou sua capacidade de sobrevivência e de melhoria de vida. De fato, foi argumentado que o direito à propriedade privada e seu reconhecimento foram a base do que chamamos de civilização.

    O notável economista político britânico John R. McCulloch (1789-1864) explicou em seu famoso Princípios da Economia Política (1864):

    “Que não cometamos o erro de supor ser possível que qualquer pessoa saísse da barbárie ou ficasse rico, próspero e civilizado sem a segurança da propriedade […] Essa proteção permitiu que, nas sociedades civilizadas, a propriedade fosse mais relevante no aumento da riqueza dos indivíduos do que todas as outras instituições juntas […] O estabelecimento do direito à propriedade permite o esforço, a invenção e o empreendimento para que os indivíduos possam colher os frutos merecidos. Mas faz isso sem infringir o menor dano aos outros […] Os efeitos da propriedade são benéficos. É uma muralha criada pela sociedade contra os inimigos comuns – roubos, violências e opressão. Sem a proteção, os ricos ficariam pobres e os pobres jamais ficariam ricos – eles afundariam juntos no abismo da barbárie e da pobreza”.

    O capitalismo é, assim, um sistema econômico fundamentado no princípio de direito de posse de cada indivíduo: da sua vida, da sua liberdade e da propriedade que adquiriu honestamente. Essa propriedade privada inclui seu intelecto e seu corpo, além dos produtos materiais que seu esforço intelectual e físico produziu.

    O sistema capitalista também tem por base que o reconhecimento do o direito de cada um à sua própria vida e liberdade exige que as relações e associações humanas sejam estabelecidas por meio de consentimento voluntário e acordo mútuo. Violência e fraude são incompatíveis com a lógica do sistema capitalista de produção e associação humana.

    Divisão de trabalho
    Pode ser sensato perguntar como seria um mundo no qual terras e recursos para produzir as necessidades da vida diária não estivessem mais disponíveis para indivíduos ou famílias. Nós entramos no mundo e os outros parecem ter tudo que existe. A noção de Locke de direito justo à propriedade parece ter pouca relevância em tempos modernos. Uma fronteira aberta e sem limites disponível para tomada e aquisição já não existe há muito tempo.

    Mas não é necessário que todos tenham terras e recursos e que fabriquem meios de produção para ter acesso aos bens finais desejados. É suficiente que aqueles que tenham as terras e os recursos estejam na posição em que possam investir em seus interesses e melhorias. Eles devem aplicar e direcionar o seu uso de formas que sirvam também para os outros indivíduos da sociedade.

    O economista austríaco Ludwig von Mises descreveu essa situação em seu conhecido trabalho Socialismo: uma Análise Econômica e Sociológica (1951):

    “No sentido econômico, para se ter os bens de produção e fazê-los servir aos propósitos econômicos de um indivíduo, não é necessário tê-los fisicamente no sentido de que o indivíduo precisa ter os bens de consumo se quer usá-los. Para se beber café não é necessário ter uma fazenda de café no Brasil, uma linha oceânica e uma torrefação, ainda que todos esses meios sejam necessários para que eu tenha uma xícara de café na minha mesa. É suficiente que outros tenham esses meios e os usem para mim. Numa sociedade que divide o trabalho ninguém é o dono exclusivo dos meios de produção, nem dos materiais nem das pessoas envolvidas com suas capacidades de trabalho. Todos os meios de produção prestam serviços para todos que compram e vendem no mercado”.

    Em um sistema de divisão de trabalho baseada no mercado e no capitalismo, indivíduos encontram seu nicho na sociedade por meio de várias competências. O indivíduo que não possui nada além do trabalho de sua própria mente e de seu próprio corpo pode vender seus talentos e habilidades pelo que os outros acham que elas valem. Isso pode ser feito tanto ao satisfazer diretamente as demandas de outros consumidores ou ajudando um empregador a produzir um produto que será vendido para os consumidores no mercado.

    Com o salário recebido pelos serviços prestados, o indivíduo que não possui nada além de si mesmo tem acesso às oportunidades apresentadas para ele por donos privados de vários meios de produção que podem ganhar lucros ao encontrar donos interessados e dispostos a comprar os produtos e serviços oferecidos. Com seus próprios interesses, eles demandam resultados dos outros na arena das trocas de trabalho, na qual os donos de meios materiais de produção devem se esforçar nos seus papéis de produtores para suprir as necessidades dos consumidores.

    Um exemplo: eu ganho minha vida como professor de economia. Não sou bom em outras coisas além de dar aulas e escrever (pergunte para minha mulher como não sirvo nem para pequenos consertos em casa). Eu tenho meu intelecto e meu corpo. Eu aprendi muito sobre economia, história, filosofia política, sociologia e noções de literatura clássica. E tenho meu corpo para ir para as salas de aula e falar sobre essas ideias na frente de um grupo de alunos, que se sentam na frente de computadores para escrever sobre tudo isso.

    Ainda assim, com o salário que recebo da universidade por aula dada e outros serviços relacionados, sou capaz de ir para o mercado no meu papel de consumidor e pedir produtos de todas as outras pessoas do mercado mundial. Seus produtos são oferecidos para mim de uma maneira cortês e prazerosa, já que todos os comerciantes com quem eu interajo sabem que eu não preciso comprar os produtos deles.

    Eu posso apenas sair sem nada nas mãos se eu não gostar dos produtos, se não era exatamente aquilo que eu estava procurando ou se eu não achar o preço interessante. O vendedor sabe que nesse sistema voluntário de divisão de trabalho baseada no mercado eu posso comprar uma versão alternativa do produto vendida por um de seus concorrentes, que também têm interesse em fechar o negócio.

    Desigualdade salarial e evolução do mercado
    Mas será que nessa divisão de trabalho do sistema capitalista algumas pessoas não têm mais para gastar do que eu? Eles não podem comprar mais? E até se permitir pagar mais por determinado produto, fazendo com que ele fique indisponível para mim? Sim, isso é verdade. Mas por que eles têm mais para gastar do que eu? Porque todos que ganharam dinheiro preferiram gastar no produto ou serviço dessas pessoa que já tem dinheiro, não no meu. Meus colegas de mercado têm, de certa forma, feito escolhas com seu dinheiro e dito que consideram outros produtos mais importantes e valiosos do que o produto que eu ofereço no mercado.

    Todo o nosso rendimento individual e nossa posição na sociedade representa o que nossos colegas acham que nós valemos em satisfazer suas demandas. Cada um de nós ajuda a determinar o valor relativo do rendimento do trabalho das outras pessoas quando gastamos parte do nosso próprio rendimento em produtos que desejamos e pelos quais estamos dispostos a pagar.

    O sistema capitalista gera a estrutura institucional e de incentivo que dá liberdade para todos os indivíduos viverem sua própria vida, desfrutar sua própria liberdade e usar sua própria propriedade privada como quiserem. Pacificamente.

    Mas essa estrutura de associação e troca voluntária em uma rede emergente de divisões interdependentes de trabalho cria uma configuração na qual é interesse de todos focar em seus conhecimentos e nas habilidades das suas atividades produtivas para satisfazer as necessidades dos outros como meio de avançar em seus próprios objetivos e propósitos na sociedade.

    Onde, então, está a “exploração” de trabalhadores e consumidores nessa sociedade capitalista? Onde estão os incentivos ou capacidades de “destruir o meio ambiente” ou promover a discriminação de pessoas com base em seu gênero ou raça? Quais possibilidades estão abertas e disponíveis para os desfavorecidos melhorarem de vida?

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  7. Você não pode criar prosperidade desencorajando a poupança.
    Você não pode fortalecer o fraco enfraquecendo o forte.
    Você não pode ajudar os pequenos diminuindo os grandes.
    Você não pode elevar o empregado rebaixando o empregador.
    Você não pode ajudar o pobre destruindo o rico.
    Você não pode obter segurança com dinheiro emprestado.
    Você não pode avançar a irmandade entre os homens incitando o ódio de classe.
    Você não pode evitar problemas gastando mais do que ganha.
    Você não pode construir caráter e coragem destruindo a iniciativa e a independência dos homens.
    E você não pode ajudar os homens permanentemente fazendo para eles o que eles deveriam fazer para si mesmos.

    O Decálogo de Abraham Lincoln

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  8. Sempre ouvi falar sobre o capitalismo como um vilão da sociedade. A causa da pobreza e desigualdade social. Esse sentimento de aversão ao capitalismo surgiu naturalmente sem que eu questionasse ou fizesse uma análise fria e honesta.

    “Homem primata Capitalismo selvagem”. A crítica ao capitalismo estava nas músicas, nos programas de televisão, nas aulas de história, nos livros e correntes filosóficas unilateralmente difundidas nas escolas. Defender o capitalismo numa sociedade do “politicamente correto” é um ato de ousadia. De um lado encontra-se o capitalismo e do outro aquilo que é virtuoso.

    Durante a juventude, falar sobre o socialismo dava ingresso ao status de intelectual. Seguir Karl Marx era como seguir Robin Hood. Tudo pelo social e por uma sociedade mais justa. Era encantador ouvir os professores de história falarem com entusiasmo de uma filosofia inovadora e revolucionária. Usar tênis da Nike, comer no MC Donalds e usar a camisa do Che Guevara era controverso mais e daí? A juventude é controversa. Quando se conhece apenas um lado aquilo passa a ser a única verdade.

    A mão invisível de Adam Smith
    Já na fase adulta tive a ousadia de ler Adam Smith e as teorias do libralismo tão defendidas pela Escola Austríaca. Foi o suficiente para colocar abaixo todas as minhas concepções sobre a economia. A mão invisível passou a fazer todo sentido. Ler a Revolta de Altas de Ayn Rand colocou em cheque tudo aquilo que eu conhecia, ou achava conhecer. A forma tão realista que ela abordava sobre a meritocracia e os efeitos prejudiciais da intervenção do Estado, não me permitiram mais pensar como antes. Não havia como voltar atrás, era como uma entropia do conhecimento.

    O liberalismo se contrapõe a qualquer tipo de intervenção do Estado. A teoria da mão invisível pressupõe que o mercado é auto-suficiente e auto-regulável , sendo desnecessária qualquer tipo de intervenção externa.

    Keynesianismo
    A crise de 1929 colocou em dúvida a chamada mão invisível. A partir dai o Keynesianismo passou a ganhar força.

    A escola Keynesiana é oposta às concepções liberais, fundamentada na afirmação do Estado como agente indispensável de controle da economia, com objetivo de conduzir a um sistema de pleno emprego.

    O Keynesianismo defende a ideia de que o mercado não é auto-regulável e que as falhas de mercado deveriam ser compensadas com a intervenção do Estado. Concorrência imperfeita, externalidades, informação assimétrica e mercados incompletos, são manifestações de falha de mercado. Surge então o estudo da Macroeconomia.

    Vale ressaltar que a escola austríaca dá foco na economia do indivíduo enquanto a escola Keynesiana considera o aspecto social. O Governo se utiliza da macroeconomia fundamentada nas teorias Keynesianas porque visa o bem estar social.

    Mas afinal o que é o capitalismo?
    Capitalismo é um sistema econômico em que os meios de produção e distribuição são de propriedade privada e com fins lucrativos.

    Não há um real consenso sobre o que é o capitalismo exatamente. Alguns defendem que o capitalismo ocorre quando todos os meios de produção são de propriedade privada. Outros já definem como um sistema onde a “maioria” dos meios de produção está em mãos privadas. De qualquer maneira a essência do capitalismo está na defesa da liberdade do indivíduo, da meritocracia e do direito a propriedade privada. Neste contexto tanto a escola Keynesiana quanto a escola Austríaca se enquadram num sistema capitalista. O que os diferencia é o grau de intervenção do Estado. Mas vale ressaltar que nem a escola Keynesiana defende o total controle do Estado, que é a essência de modelos totalitários, como o Bolivarianismo por exemplo.

    O socialismo e o conceito do mais-valia
    Já o socialismo tem como base a filosofia de Karl Marx, também conhecida como Marxismo. O socialismo se opõe ao capitalismo e propõe uma economia social no lugar da economia do indivíduo. Nos sistemas socialistas não existe direito a propriedade privada e o Estado passa a ser dono de todos os meios de produção caracterizando um único monopólio. O objetivo principal do socialismo é eliminar a desigualdade social.

    Surge através do marxismo o conceito do mais-valia, que em suma representa a diferença do valor final da mercadoria e a parte repassada para o operário. O que fica para o empresário é o mais-valia. Através deste conceito Karl Marx tenta demonstrar uma exploração do trabalhador e divide a sociedade em duas classes: a operária e a burguesia.

    Vale lembrar que tal conceito surgiu na época da revolução industrial, onde Karl Marx defendia que o valor de uma mercadoria era equivalente à força de trabalho empenhado na mesma. A maioria dos economistas atualmente defendem que o valor de uma mercadoria é definida pelo valor que a mesma representa para o consumidor, independente do esforço empregado para a sua produção. Atualmente outras variáveis, que não existiam na época da definição do mais-valia, somam-se aos fatores de produção como a inovação, a tecnologia e a toda a complexidade de um mercado global.

    Após esta explanação sobre sistemas e modelos econômicos vou tentar desmistificar alguns erros conceituais comuns.

    A economia não é jogo de soma zero

    O acúmulo do capital por poucos não é responsável pela pobreza da maioria. É comum comparar a riqueza ou o capital como uma torta de tamanho finito que será repartida pela população. Se alguém pegar uma fatia maior, logo sobrará menos para os outros. Ou seja, se um ganha o outro perde. Não é assim que funciona. A economia não é jogo de soma zero. Vale à pena ler o artigo Uma única lição de economia

    A causa da pobreza é a desigualdade social?
    “O que importa é a condição absoluta dos pobres, e não a relativa. A desigualdade não interessa.”
    Margareth Thatcher
    Mentiram e muito pra mim, ou melhor, para a maioria de nós. As escolas e a maioria dos livros didáticos colocam a desigualdade social como responsável pela pobreza. Um país pode ter baixa taxa de desigualdade social e mesmo assim ter uma população pobre. Basta ver o exemplo de Cuba e Etiópia. É preferível conviver com a desigualdade social onde aqueles com menos recursos possam viver dignamente do que numa sociedade com baixa desigualdade social onde a população tem dificuldade de ter acesso aos recursos mais básicos.

    Já considerando a desigualdade entre países, o gráfico abaixo demonstra que a desigualdade aumentou enquanto a pobreza diminuiu.

    Responsabilidade social e sustentabilidade
    A sociedade vem amadurecendo ao longo dos anos e tanto os indivíduos como as organizações já consideram a responsabilidade social e o desenvolvimento sustentável.

    A grande verdade é que nós consumidores, somos o agente principal que impulsiona a demanda. As pessoas aos poucos estão dando preferência a consumir produtos e serviços de empresas que demonstram ter maior responsabilidade social e desenvolvimento sustentável. As organizações já se conscientizaram de que ao dar melhores condições de trabalho e melhores remunerações obtém maior retorno. Pensadores como Domenico De Masi vem ganhando espaço. A hierarquia das necessidades de Maslow é uma preocupação básica de qualquer organização com o mínimo de gerência em recursos humanos. Estamos caminhando a passos lentos, mas é indiscutível que as pessoas vivem melhor hoje do que há um século atrás.

    Tentando se posicionar melhor no mercado e passar uma imagem melhor para a sociedade as organizações vem buscando certificações e reconhecimentos em sustentabilidade e responsabilidade social.

    A Norma Nacional – ABNT NBR 16001 por exemplo, trata da responsabilidade social. Já a ISO 14001 trata da sustentabilidade.

    ABNT NBR 16001:2012

    Definição de Responsabilidade Social

    Responsabilidade de uma organização pelos impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente, por meio de um comportamento ético e transparente que:

    Contribua para o desenvolvimento sustentável, inclusive a saúde e o bem estar da sociedade;
    leve em consideração as expectativas das partes interessadas;
    esteja em conformidade com a legislação aplicável e seja consistente com as normas internacionais de comportamento,e
    esteja integrada em toda a organização e seja praticada em suas relações.

    ISO 14001 e a Sustentabilidade

    Já existem estudos que buscaram verificar como a norma ISO 14001 é usada para o desenvolvimento sustentável em empresas. De Vries et al (2012) encontraram evidências de impactos positivos de sua adoção em indicadores ambientais e de negócio. Klassen e McLaughlin (1996) descrevem a relação entre gestão ambiental e rentabilidade da empresa, conforme ilustra a Figura 2. Alberton e Costa Jr. (2007) também encontraram indícios de uma boa relação entre SGA e aumento de rentabilidade na empresa, pois há melhoras em aspectos operacionais pós-certificação. Os autores citam como exemplos de melhorias a redução de desperdícios, o aproveitamento de materiais, a reciclagem e a redução no consumo de energia e água.

    Considerando o conceito do Triple Bottom Line, o tripé da sustentabilidade, que leva em conta três aspectos, o econômico, o social e o ambiental, a certificação ISO 14001 tem potencial para trazer ganhos ambientais para a empresa e, consequentemente, ganhos econômicos – reduzir o consumo de água e energia elétrica, por exemplo, reduz os custos. Além disto, a certificação pode trazer vantagens competitivas – empresas fornecedoras podem ganhar concorrências pelo fato de serem certificadas (em alguns casos, possuir a certificação é uma exigência) e possuir o certificado pode auxiliar a empresa a ficar de acordo com as leis (POTOSKI; PRAKASH, 2005). King et al. (2005) relatam que fornecedores que têm clientes distantes, incluindo estrangeiros, tendem a buscar mais a certificação, uma forma de demonstrar esforços de melhoria. A norma não trata, porém, de aspectos sociais diretamente.

    Figura 2 – Relação entre Gestão Ambiental e Rentabilidade da Empresa. Fonte: KLASSEN; MCLAUGHLIN, 1996.

    Mas afinal o capitalismo é bom ou ruim ?
    “Pouco mais é necessário para erguer um Estado, da mais primitiva barbárie até o mais alto grau de opulência, além de paz, de baixos impostos e de boa administração da justiça: todo o resto corre por conta do curso natural das coisas.”
    Adam Smith
    A economia surge quando os recursos são escassos e as necessidades humanas infinitas. A capitalismo é um sistema econômico que tem como fundamento garantir que o indivíduo tenha liberdade para, através dos seus próprios méritos, produzir e ser recompensado por isso. O que vai determinar uma sociedade mais justa é responsabilidade social de cada indivíduo e consequentemente das organizações. Os males surgem tanto no socialismo quanto no capitalismo quando os interesses individuais superam os interesses coletivos. O Estado é governado por pessoas, que possuem interesses pessoais. É ingenuidade acreditar que o Estado, é uma especie de entidade superior e incorruptível e que irá garantir a distribuição igualitária de todos os recursos de forma justa e eficiente. Tal homem, tal Estado! Já dizia Platão.

    Não é através da força bruta que iremos construir uma sociedade mais justa e igualitária. A briga de classes só divide e polariza a sociedade. Suprimir a ambição do homem e minar a meritocracia trava o progresso, desestimula a inovação e desencoraja o empreendedorismo. A conscientização da sociedade sobre a importância de questões como sustentabilidade e responsabilidade social é um caminho mais coerente e menos imediatista para atingirmos uma sociedade mais justa e igualitária. Continuaremos a viver num mundo de escassez enquanto as necessidades humanas se mantem infinitas. O capitalismo será tão bom ou ruim quanto a própria sociedade.

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