Frederator Studios: Como abrir espaço pra criatividade no mercado de animação?

Esse texto é uma combinação de várias coisas que eu gosto muito de falar sobre. É sobre história da animação. É sobre a eterna luta entre criação artística e comércio na área do entretenimento (em especial no entretenimento voltado para crianças, onde eu acho que o poder do comércio é potencialmente mais perigoso). E é sobre pessoas que tem sido forças ativas na sua infância, mas, mesmo assim, você provavelmente nunca soube sobre elas.

Mas principalmente é sobre a história de um estúdio de animação chamado Frederator Studios, e sobre o homem por trás desse estúdio, Fred Seibert, que é de onde vem o Fred de Frederator. Um homem que está envolvido em animação faz trinta anos, viu muita coisa nascer e muita coisa mudar nesse tempo, e principalmente, o texto é sobre porque eu acho que é nesse homem e nesse estúdio que está o futuro da animação norte-americana.

FredSeibert
Nesse brother aqui.

Pois bem, nossa história começa com um dos maiores estúdios de animação de todos os tempos, que por quatro décadas foi um dos grandes pilares de toda essa mídia animada no ocidente. E esse estúdio é a Hanna-Barbera.

HannaBarbera

A parceria entre William Hanna e Joseph Barbera surgiria no fim da fase cinematográfica da animação quando eles criaram alguns dos últimos (porém notoriamente icônicos) personagens da Era de Ouro da Animação: Tom e Jerry. Desde então eles notaram cedo que o futuro dos desenhos estavam na televisão e estabeleceram seu estúdio com diversos personagens animados para televisão, com desenhos baratíssimos de se produzir, repetitivos, padronizados, e infantilizados mas que se tornaram populares e onipresentes. A força do estúdio era tanta que vários animadores renomados no campo foram trabalhar na Hanna-Barbera depois que não tinha mais espaço para fazer desenhos no cinema, dentre eles Tex Avery e Chuck Jones. E o estúdio se tornou o que era essencialmente um monopólio na animação para televisão. Você podia contar nos dedos os desenhos que não eram da Hanna-Barbera e a maioria logo saia de cena justamente por ser difícil de concorrer com algo tão estabelecido.

KidsTV
Um dos exemplo mais claros da influência da Hanna-Barbera na indústria da animação que perdura até hoje, é que foi o estúdio quem definiu o conceito de que desenhos animados deveriam ter crianças como público-alvo. Eles assim disseminaram na cultura, pois sabiam que o público infantil era menos provável de se incomodar com a falta de qualidade de produção das séries que eles consumiam e permitiam às séries se baratearem ao máximo. Antes disso, na época do cinema, os Looney Tunes tinham adultos como público-alvo.

Pois bem, mas mesmo sendo gigantes no campo da animação por pelo menos 40 anos, hoje a Hanna-Barbera não existe mais. Só deixaram pra trás seus personagens cujos direitos são da Warner e vivem uma sobrevida nos quadrinhos da DC, mas o estúdio desapareceu por completo. Então vamos falar um pouco dos últimos anos do estúdio.

Os anos 1980 não foram o auge do estúdio e poucos desenhos do estúdio feitos nessa época são pelo que a Hanna-Barbera é lembrada. No geral isso é porque foi a época em que eles enfrentaram a sua mais pesada concorrência na história. Claro que nos anos 1960 Rocky & Bullwinkle conseguiu demarcar território em uma animação alternativa à Hanna-Barbera com sua sátira e seu estilo de humor que na época era diferente de tudo no ar. Mas nos anos 1980 foi diferente. Acontece que lá em 1977, um filme chamado Star Wars mostrou pro mundo como a venda de bonequinhos era a fonte de toda a fortuna que o entretenimento pode produzir, e as empresas de brinquedo perceberam o quanto um filme aumentava suas vendas. As empresas de brinquedo começaram a produzir seus próprios desenhos animados em grande escala e pela primeira vez o monopólio HB deixou de ser um monopólio. He-Man. G.I Joe. Transformers. Teenage Mutant Ninja TurtlesThundercats, My Little Pony, Care Bears, tudo se tornando sucesso de audiência. Isso desestabilizou o estúdio, que acostumado a sempre reciclar os próprios programas de sucesso para gerar novos sucessos (reciclando o Scooby Doo em diversos outros desenhos em que adolescentes e um animal ou objeto falante resolvem crimes), começou a dançar no ritmo do concorrente.

80sCartoon

Fizeram os Sky Comanders para ver se pegavam alguma fatia do bolo milionário que era G.I Joe. Adaptaram a linha de brinquedos Pound Puppies em desenho. E fizeram remakes infantis do que eles conseguiam para pegar um apelo mais infantilizado, o que incluiu Tom and Jerry Kids, The Flinstones Kids e A Pup Named Scooby Doo, esse último tendo sido um desenho muito bom, excelente, e a porta de entrada para Tom Ruegger se firmar no mundo da animação e poder alguns anos depois produzir Tiny Toon Adventures e Animaniacs pela Warner.

TomandJerryKids
Uma decisão medonha, que assim como muitas decisões medonhas, foi repetida várias vezes.

Vejam bem, o mundo da animação estava mudando, e a Hanna-Barbera as vezes conseguia dançar no ritmo e as vezes não, mas o fato era que não eram mais eles que estava ditando as regras do jogo, e pra um estúdio que foi soberano por quatro décadas, isso é um ponto bem baixo.

Apesar disso nessa época eles ainda conseguiram decolar dois sucessos que foram grandes mesmo: Captain Planet e Smurfs, a gente lembra desses até hoje, mas, mesmo assim é pouco e nada perto do império que eles haviam construído.

CaptainPlanet
Só pra não dizer que os anos 1980 foi um completo fracasso para o estúdio.

Em 29 de Outubro de 1991. Com a Renascença da Animação já tendo começado, a Hanna-Barbera foi comprada pela Turner, uma empresa de broadcast. A Turner pagou 320 milhões de dólares pela Hanna-Barbera e 11 meses depois fundou uma coisa chamada Cartoon Netwok, que vejam só… vingou pra cacete. Pois bem, o Cartoon Network tinha uma parceria muito firme com a Warner Bros (e tem até hoje), e estreou sem conteúdo original nenhum, passando somente reprises e reprises de tudo que a Warner e a Hanna-Barbera fizeram de bom na história 24h por dia. Era 24h por dia de Bugs Bunny e Yogi Bear e Tom & Jerry até cansar. Um canal inteiramente de clássicos animados. Como dá para ver no primeiro anuncio do canal.

Cartoon

O ponto é que nessa compra, o presidente da Hanna-Barnera se tornou um cara de dentro da Turner, que estava saindo de anos de trabalho na MTV, chamado Fred Seibert. O homem sobre quem o texto falará hoje. E acho importante frisar aqui. Fred é um homem de negócios, ele não é um artista, ele aprecia arte, aprecia mídia, mas o papel que lhe foi designado é o de um homem de negócios. Um cara cuidando do saco de dinheiro que decide pra quem vai o dinheiro investido com a responsabilidade de receber um volta um saco maior de dinheiro para mostrar pros seus chefes como ele é capaz de multiplicar o dinheiro. Pois bem, a primeira coisa que ele fez quando virou presidente do estúdio foi autorizar a produção de dois desenhos novos para saírem sob o nome Hanna-Barbera: Swat Kats e Two Stupid Dogs.

Swat Kats era um show de ação, aviões, pessoas-gato com óculos maneiros que era uma reprodução do que estava funcionando nos anos 1980, na esperança de que aquilo que estava funcionando até pouco tempo atrás continuasse funcionando.

SwatKats

Two Stupid Dogs, era uma comédia com muito foco em um humor arriscado, experimentando limites, que seguia a onda dos novos desenhos que haviam estreado no último ano, e que serviu de porta de entrada no mercado para Genndy Tartakovsky (Dexter’s Lab, Samurai Jack) e Craig McCracken (Powerpuff Girls, Foster’s Home for Imaginary Friends), que trabalharam como diretores de arte. Era a esperança de que um apelo nas novas tendências fosse funcionar.

2StupidDogs

Os dois desenhos representavam extremos opostos do espectro, e olhando de longe soa como uma aposta segura. Cada um representa uma faceta do que dava audiência na época, então pelo menos um tem que vingar e servir de termômetro pra qual dos dois caminhos o estúdio deveria seguir no futuro. Faz sentido, não?

Ambos foram fracassos. Desenhos muito diferentes. Um apostando na manutenção do que estava rolando antigamente, e o outro apostando no que estava acontecendo naquele momento, e tentando acompanhar a onda de uma nova era que Ducktales, Ren and Stimpy, Rugrats, Doug e Tiny Toon Adventures estavam puxando. Ambos fracassaram monumentalmente.

Em um mês os produtores já sabiam que aquilo tinha sido um fracasso, um péssimo investimento de dinheiro. E que Fred Seibert tinha jogado dez milhões de dólares na privada. Pessoalmente eu adorava Two Stupid Dogs, eu era uma criancinha, tinha acabado de descobrir o Cartoon Network, e tinha achado aquilo fenomenal, mas fazer o que? Talvez você leitor amasse Swat Kats, mas o fato é, o grande público não curtiu e a Hanna-Barbera não lucrou.

TwoStupidDogs
É sério, isso era muito bom.

O ponto é que nesse momento a ficha de Fred Seibert caiu, e repito, ele é um homem de negócios, ele faz negociação. Então ele fez um péssimo negócio e teve a epifania de como fazer um bom. Os boatos dizem que ele foi até o dono da Turner e disse “Ei, eu acabei de perder dez milhões de dólares. E agora eu quero mais dez milhões.” não sei se o quote procede ou não, mas enfim, na prática foi isso mesmo que ele fez.

Ele percebeu que apostar na televisão era difícil, pois a indústria na época não testavam os pilotos com o público, você tinha sua ideia aprovada e pronto, você ganhou o direito de fazer 13 episódios, e se todo mundo te odiar logo no primeiro, então o dinheiro dos 13 episódios é um dinheiro jogado fora. Era um ambiente ruim de apostar no que ia vingar e no que não ia.

E ele sabia que houve uma época em que faziam diferente. Os Looney Tunes faziam diferente cinquenta anos antes, antes da televisão sequer existir. Como os Looney Tunes faziam? Ora essa, eles faziam um curta do personagem e passavam no cinema antes de um filme, se o público curtiu faziam outro curta com o mesmo personagem, e se o público não curtiu, bola pra frente faziam outro curta com outro personagem. E o império de Bugs Bunny e Daffy Duck (Pernalonga e Patolino) nasceu disso.

BugsBunny
Bugs Bunny em seu primeiro curta-metragem que foi um sucesso. Se não tivesse sido, era só fazer o próximo com outro personagem, até um personagem ser um sucesso, aí esse personagem que deu certo é repetido. Esse era o esquema.

Pois bem, e ele resolveu que o segredo não era sentir o ar e fazer uma grande aposta em onde estava o sucesso, e sim testar de tudo e ver pelo que o público pede mais. E bem, ele tinha simpatizado muito com a equipe que estava trabalhando em Two Stupid Dogs. Não só Genndy Tartakovsky e Craig McCracken, mas em outros cargos estavam lá Rob Renzetti, Butch Hartman e Seth MacFarlane, e nessa época esses cinco iam trabalhar muito juntos até cada um ter a própria série.

E então ele criou o conceito do What a Cartoon Show. E o conceito era o seguinte: “Toda semana a gente passa um curta-metragem diferente no Cartoon Network. A gente hypea ele a semana toda, trailer e tudo o mais, e aí estreia, numa segunda-feira, no horário nobre, logo antes da hora do filme, pois o Cartoon Network passava muito filme nessa época, em que eles não faziam o próprio conteúdo. Na época o conceito chamava World Toon Premiere, e era isso, um curta-metragem toda semana. 48 no total. E as crianças eram incentivadas a mandar suas cartinhas falando o que elas acharam na esperança de conseguir reprises dos mais populares desenhos.

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WorldToonPremiere
Que contavam com posteres publicados em revistas para garantir que toda criança estivesse hypeada para a estreia.

Em 20 de Fevereiro de 1995, antes do filme o Cartoon Network exibiu o piloto de The Powerpuff Girls e foi um sucesso da porra, todo mundo amou esse piloto. Pronto, a caixa de pandora foi aberta. O método foi um sucesso, e diversos nomes novos na indústria, como esses cinco que eu mencionei acima que faziam parte da equipe de Two Stupid Dogs mandaram seus curtas. E veteranos também como o próprio William Hanna, ou Ralph Bakshi que na época tinha a versão animada de Lord of the Rings no currículo, produziram seus curtas também. 48 pilotos foram exibidos.

MeatFuzzyLumpkins

E acho legal enfatizar que eles foram produzidos como curta-metragens mesmo, apesar de serem todos tentativas de pilotos de série. O curta do Courage, the Cowardly Dog, chamado The Chicken from Outer Space, foi indicado ao Oscar de melhor curta animado (perdeu pra um do Wallace & Groomit), e essa foi, literalmente a única indicação a um Oscar de animação que a Hanna-Barbera recebeu na vida.

ChickenfromOuterSpace

Desses curtas nasceram as produções originais do Cartoon Network, baseados nos curtas-metragens que mais fizeram sucesso com as crianças e foram todas facilmente hypeadas, pois a criançada já conhecia o personagem dos pilotos e não viam a hora de vê-los em seu próprio desenho. Quais séries do Cartoon Network foram criadas nessa brincadeira?

CartoonCartoons

Dexter’s Lab, Cow and Chicken, Johnny Bravo, The Powerpuff Girls, Courage the Cowardly Dog, e de Cow and Chicken saiu I Am Weasel. Essencialmente a base das produções originais do Cartoon Network e os primeiros Cartoon Cartoons. Aliás, quando o termo “Cartoon Cartoons” foi criado, o único desenho do grupo que não havia sido selecionado pelo What a Cartoon Show havia sido Ed, Edd and Eddy. Que entrou por fora, então esse método era como o Cartoon Network escolhia 90% do que era exibido.

Em 1996 a Hanna-Barbera foi descontinuada para sempre. O Cartoon Network transformou o estúdio em Cartoon Network Studios e parou de assinar os Cartoon Cartoons como Hanna-Barbera. E Fred Seibert foi cuidar do próprio estúdio, do qual falarei em breve. O importante é que depois da saída do Fred Seibert, a influência que ele deixou no canal no quesito de “como vamos escolher nossos próximos desenhos” continuou forte.

Em 1998, o Cartoon Network havia acabado de estrear a série do The Powerpuff Girls, e já estava de olho em suas novas séries, então eles abriram um concurso que eles chamaram de The Big Pick, que era essencialmente uma segunda leva de curtas para o What a Cartoon, para testar mais pilotos e selecionar mais uma leva de desenhos para ser produzido pelo Cartoon Network.

BigPick

Essa foi ainda mais interativa. Pois de dez curtas que eram exibidos, o expectador que ia pela internet ou pelo correio votar em qual eles queriam que virasse série. Com o vencedor sendo anunciado no canal. No primeiro concurso ganhou The Grim Adventures of Billy and Mandy e no segundo ganhou Codename: Kids Next Door. Isso em teoria, na prática outros concorrentes que tecnicamente perderam o concurso, também acabaram ganhando a própria série com base na resposta do público, séries como Mike Lu and Og, Wathever Happened to Robot Jones, e Sheep in the Big City. E então uma última leva de oito curtas eventualmente levou à produção de Megas XLR.

MegasXLR

Essencialmente vocês podem notar que 95% do que o Cartoon Network fez na sua primeira década de existência foi usar o What a Cartoon como grande detector de talentos de quem era o fodão e quem não era o fodão na indústria da animação. Uma vez detectado, eles davam a esse fodão liberdade criativa, orçamento e uma série pra eles, e saiu sucesso atrás de sucesso, pois o What a Cartoon permitia não só testar a audiência, mas o fato do sistema de testes de pilotos ser administrado como uma série de desenhos de sucesso, permitia que o público estivesse familiarizado o suficiente pra gerar hype. Além do próprio teste de pilotos ser um programa de sucesso e portanto lucrativo por si só. Eles ganhavam por todos os lados.

Eu lembro. Eu era criança, tinha 8 anos quando estrearam as Powerpuff Girls, e eu estava no hype. Eu havia assistido a estreia delas na World Toon Premiere, eu vi a reprise daquele piloto vinte vezes e vi o segundo curta delas. Eu sabia quem eram as personagens, e queria que elas tivessem a própria série, e aí elas ganharam e foi foda.

Por outro lado, outros curtas que eu queria muito que virassem série não viraram e isso foi triste.

MalcomMelvin
Nossa, como eu queria que Malcom e Melvin tivesse virado série…

Mas é isso aí. O que eu quero concluir dessa história toda? Fred Seibert teve a ideia milionária que permitiu ao Cartoon Network decolar nas suas produções originais, e então direcionou sua carreira a isso. A testar e farejar artistas e gente criativa e dar a eles suas próprias séries. Ele em si não era um artista, mas ele notou que abrir o maior espaço para a autoralidade possível não era um negócio arriscado se você fizesse com um sistema bem-feito, e ele criou esse sistema, e com isso ele permitiu que a era dos creator-driven-cartoons, começasse de vez.

Pois o renascimento da animação já tinha começado, mas os grandes desenhos do renascimento antes do What a Cartoon, como Ducktales ou Tiny Toons, não soavam como um produto de seu criador tanto quanto soavam como um produto de seus estúdios. Aliás é só fazer a experiência. Vamos ver aqui a abertura de um desenho típico dos anos 80: Thundercats. Reparem que a abertura não dá os créditos ao criador do desenho. Agora vamos ver a abertura de dois desenhos que pegaram o começo do renascimento: Ducktales e Tiny Toonsreparem que mesmo começando a questionar os valores dos anos 80 e a mudar as coisas, eles seguiam não dando os créditos ao criador do desenho. Agora vejamos as aberturas de Dexter’s Laboratory e Doug como o criador do desenho tem seu nome escrito na abertura. Agora reparem nos posteres que eu coloquei ali em cima como em todos tinham o nome do criador na propaganda que faziam para crianças. Para quem quiser fazer a lição de casa, verifiquem se o remake de Ducktales coloca dá os créditos ao criador na abertura.

AdventureTimeOpening

Powerpuff2016
E até na atualidade isso não virou regra, desenhos podem vir com ou sem a assinatura de seu responsável na abertura. Mas isso serve de sinal para distinguirmos quais vieram do coração de seu artista e quais não vieram do coração de ninguém.

Como eu disse acima sobre a conexão entre A Pup Named Scooby Doo e Tiny Toons, o fato de terem o mesmo showrunner, isso nunca foi trabalhado, pois nunca trataram o criador como importante ou fizeram o criador ser conhecido pelo público. Diferente de Powerpuff Girls e Foster’s Home for Imaginary Friends que todo mundo sabia que era do mesmo cara, pois o canal treinava as crianças a saber quem era e admirar o McCracken. Ele aparecia nos comerciais dando entrevistas e desenhando, e isso era uma maneira de expor os bastidores do desenho inédita na época que fazia parte da ideia do Cartoon Network.

Mas isso mudou em poucos anos, e se enraizou a noção de que os desenhos da década de 1990 eram grandes pois eram produzidos por grandes artistas, que eram autorais e livres para explorar seus limites longe da necessidade de se enquadrar nos moldes de seu estúdio. Isso tudo mudou nossa percepção do que era um bom desenho e criou o conceito que chamamos hoje de creator-driven-cartoons. Aliás, isso se popularizou nessa época, mas o primeiro grande exemplo de creator-driven-cartoon foi os Simpsons, que veio um pouquinho antes, para dar os créditos a quem merece. Que tal como a pasta de dente, uma vez que saiu do tubo, nunca mais voltou ao tubo, não importa o quanto os tempos mudassem. Desde então sempre se debateu o quanto a televisão investe em creator-driven-cartoon ou não e o quão positivo isso é ou não.

MattGroening

E o Cartoon Network e os Simpsons não estavam sozinhos nessa, como eu mencionei acima citando Doug, a Nickelodeon estava investindo pesado em creator-driven-cartoons, com o polêmico e notoriamente autoral Ren & Stimpy do John Kricfalusi, e com toda a sua parceria com a Klasky Csupo, um estúdio de animação bem artístico e autoral que era o estúdio por trás de metade dos Nicktoons, dentre eles RugratsRocket PowerThe Wild ThornberriesAaahh!! Real MonstersAs Told By Ginger. Agora, uma curiosidade boa, é que o motivo para não só o Cartoon Network, mas a Nickelodeon também estar investindo em animação autoral com foco em liberdade artística de seus criadores, e não só isso, como estar fazendo isso desde antes do Cartoon Network, é porque o Fred Seibert passou pela Nickelodeon antes. Quando ele ainda estava envolvido na MTV, ele também, junto de seu colega Alan Goodman serviu de consultor com a missão de fazer o canal em seus primeiros anos deixar de ser um fracasso de audiência. Entre as influências que Fred deixou no canal antes de ir ser presidente da Hanna Barbera, estavam a ideia do logo laranja versátil que poderia ter várias formas (uma ideia que ele testou antes e funcionou na MTV), e também um empurrão para convencer a Nickelodeon a investir em seus três primeiros desenhos: Doug, Ren and StimpyRugrats.

Nicktoons
A ideia de chamá-los de Nicktoons também veio de Seibert.

Existe um motivo pelo qual os nomes que eu mencionei acima: Genndy Tartakovsky, Craig McCracken, Rob Renzetti, Seth MacFarlane e Butch Hartman serem nomes muito reconhecíveis, mesmo se você pessoalmente não reconhecer um google rápido mostra o quanto renome eles tem na área, pois os canais fizeram questão de associar o desenho aos seus criadores. Quando Samurai Jack estreou no Cartoon, eu era criança, um pré-adolescente, e sabia que era do criador de Dexter, e o motivo era que o próprio Cartoon Network não me deixava esquecer disso, eles usavam o nome dos criadores como publicidade, e transformaram a autoralidade em um grande mercado. E investiram em um formato que tornasse possível investir em gente interessada em fazer arte e produzir ideias algo que não fosse um suicídio financeiro.

Tartakovsky
Acima, os principais envolvimentos de Genndy Tartakovsky na animação, todos igualmente reconhecidos como parte de um grupo: “Desenhos do Tartakovsky” que reforçam a importância que ele teve para fazê-los terem aquele resultado final.

Esse formato de teste de pilotos ganhou um nome: “Incubadora de Desenhos”, e What a Cartoon foi a primeira incubadora com a qual Fred Seibert se envolveu, mas longe de ser a última.

Nesse meio tempo em que o Cartoon Network deu certo e fez todas essas séries derivadas do modelo de negócios do Seibert, a Hanna-Barbera acabou, e os Cartoon Cartoons, que foram produzidos pelo estúdio Hanna-Barbera já se identificavam demais como a própria coisa. (quem menciona Dexter’s Lab como um dos grandes sucessos da Hanna-Barbera hoje em dia? Ninguém. Embora tecnicamente seja verdade. O nome do Cartoon Network virou uma identidade grande demais para o nome da Hanna-Barbera ser necessário). Fred Seibert fundou então o próprio estúdio de animação, o Frederator Studios, e esse estúdio começou a descobrir os talentos da animação sob o próprio nome.

FrederatorStudios

Ele foi pra Nickelodeon, e fez o quê? Exatamente a mesma coisa que fez no Cartoon Network. Ele lançou um programa chamado Oh Yeah! Cartoons, testando curtas-metragens com o público e vendo o que valia a pena. Foi de onde saiu Fairly OddParents, ChalkZone, e My Life as a Teenage Robot. Desses três, devo lembrá-los que Fairly OddParents sustentava a Nickelodeon nas costas até outro dia, quando Butch Hartman saiu do estúdio. E Fairly OddParents não foi só descoberto, eles foram produzidos pela Frederator do começo ao fim.

OhYeahCartoons

Em 2008 a Nickelodeon lançou a terceira incubadora Random! Cartoons, de onde dos curtas, dois desenhos foram produzidos para a televisão: Fanboy e Chum Chum pela Nickelodeon, que foi considerado um dos piores desenhos que a Nickelodeon já produziu, e Adventure Time, que a Nickelodeon apesar do sucesso na internet, não quis transformar em série, e permitiu que o Cartoon Network transformasse em uma série animada. E bem… conhecem o boato do produtor musical que não quis assinar contrato com os Beatles? Pois é… Mas felizmente a Frederator Studios produziu o desenho mesmo assim, só que junto do Cartoon Network.

AdventureTime

Depois de Random! Cartoons, o Frederator Studios viram que o futuro da animação estava na internet. Por que? Simples, os canais estavam muito presos aos executivos e a interferência deles, como visto em como a Nickelodeon produziu um dos mais desprezados desenhos do mundo e ignorou um sucesso óbvio de crítica, mostrando que de nada adianta ter a fórmula certa se forem julgadas por executivos que administram canais de televisão. E sério, os executivos da Nickelodeon que conseguiram sabotar Legend of Korra, fazem qualquer um perder a fé na humanidade.

Mas no Youtube, a liberdade que o Fred Seibert queria dar aos criadores de animação podia ser ainda maior. O Cartoon Network podia dar suas censuras em Adventure Time, mas o Youtube não ia censurar nada. Assim como o número de séries produzíveis era ilimitado, pois não havia uma grade na qual era necessário encaixar as séries.

Então o Frederator Studios percebeu que o segredo era investir em Web-Séries, e começou a produzir para o Youtube, a melhor série que nenhum canal pegou pra si do Random! Cartoons que era Bravest Warriors. Uma aventura espacial criada pelo criador de Adventure Time, Pendleton Ward, que aliás está exibindo sua quarta temporada agora, e foi um sucesso.

BravestWarriors

Ele estabeleceu o canal no youtube Cartoon Hangover, para produção de Webséries animadas com um puta investimento profissional por trás e exclusivos no Youtube, uma plataforma gratuita e acessível. Em paralelo eles lançaram o Channel Frederator, um canal de Youtube com conteúdo de Youtubers. Nesse canal, eram produzidas conteúdo com teorias, análises e curiosidades de desenhos. Certamente se você é um fã de desenhos animados, já deve ter visto os vídeos do youtube de “107 Facts About….”, e bem, é do Channel Frederator.

Apesar de ser administrado por um produtor de animação e ter um estúdio por trás, o Channel Frederator, não age competitivamente em relação aos outros estúdios de animação, pelo contrário, o canal é sobre admirar declarar o amor e respeito a séries animadas do presente e de antigamente sem ver nada como a concorrência, pois não é necessário. Eles celebram a Disney, o Cartoon Network e a Nickelodeon e depois produzem os próprios curtas. E claro que o dinheiro que o canal gera é usado para financiar animadores novos, dando um passo além em sua missão de espalhar amor pela arte da animação. Além de é claro, usar o poder do Seibert para fazer coisas que youtubers sem os contatos não teria o poder de fazer, como chamar os criadores dos desenhos para irem pessoalmente no canal falarem algumas curiosidades sobre a própria obra. Como quando chamam o Craig Bartlett para falar a respeito de uma teoria de Hey Arnold.

E o melhor? O Cartoon Hangover faz a própria incubadora de desenhos também, soltando os curtas-metragens no youtube para testar o público e ver quais vão ganhar série, dentre eles saiu um dos meus desenhos favoritos da atualidade que é Bee and Puppycat.

BeeandPuppycat

Mas onde eu quero chegar? Porque eu quero dar tanto foco no empresário cuja visão de como jogar seguro para não perder dinheiro foi a porta de entrada para as últimas duas décadas de desenhos animados? E cujas ideias foram o pontapé inicial para 85% dos sucessos de crítica da animação televisiva nesse tempo existirem? Pois bem, eu quero falar sobre isso, porque eu quero falar sobre a relação entre executivos/a indústria e os desenhos animados e seus criadores. Ninguém gosta dessa relação e ninguém nunca fica do lado dos executivos, nem eu. Pois a nossa perspectiva é simples, os executivos são aquelas pessoas que ficam entre a gente e aquilo que a gente quer ver, para ver se eles ganham algum dinheiro vendendo uma arte que eles não entendem.

Duckman
A natureza desses executivos explicada por Duckman: “Essa é uma indústria que se sustenta pela percepção e não pelos fatos. Comandada por homens de negócios que só entendem números e não fazem ideia do que é bom e do que não é. Então o segredo é fazer acharem que você é bom, se associando com os melhores e maiores números. O que significa que se você não tem talento, você pode comprar credibilidade, criando a ilusão de qualidade, se gastar muito dinheiro.”

Ou resumindo isso tudo em uma única imagem.

ThundercatsRoar

Ah sim, Thundercats. Vou ser sincero, não tenho nada contra esse remake ainda, e o estilo cômico eu não acho que seja algo tão ofensivo, pelo contrário, os designs realistas-para-vender-action-figure foram uma calamidade dos anos 80, e por mim não voltariam nunca! Mas tipo, nunca mesmo! Além de que esse é o estilo que os desenhos que investem em muito conteúdo e storyline tem adotado hoje em dia (Adventure Time, Steven Universe, Gravity Falls, Star vs the Forces of Evil), então apesar de infantilizado, não é um indicativo de que vai ser raso ou sem conteúdo. Portanto não tenho porque achar que isso vai assassinar o original.

Mas vamos ser sinceros, apesar disso, e apesar de eu achar o hate que esse desenho recebeu na internet foi ridículo, temos que admitir uma coisa. Essa imagem foi feita para não agradar ninguém de cara. O ar infantilizado obviamente iria sugerir criar um novo público, ou seja, não é um desenho para o público anterior. Ao mesmo tempo, Thundercats passou 20 anos sem ser rebootado e não foi realmente mantido na mídia como um grande ícone cultural da atualidade. Ele ganhou um reboot em 2011 que foi cancelado na velocidade da luz, ditando um mercado ruim para desenhos de ação e foi isso. As crianças não vêem o Lion-O em comerciais e lojas de brinquedo o tempo todo, o que as crianças sabem dos Thundercats é meramente a história oral que escutam da geração anterior segundo os costumes de nosso povo. Não foi um desenho que recebeu o tratamento de Transformers, Teenage Mutant Ninja Turtles e My Little Pony, por isso o reboot soa estranho. Porque para a criança foda-se o Lion-O.

TMNT
Quando eles trazem de volta ícones dos anos 80, geralmente são ícones que estão no imaginário infantil, pois nunca realmente foram embora… Se eles lançassem um filme do Thundercats, mesmo que fosse um filme adulto, a empolgação dos adultos ia fazer as crianças conhecerem o Lion-O por Osmose cultural e viabilizaria um desenho. Mas Thundercats realmente nunca fez uma ponte pra conectar o desenho de 30 anos atrás com uma criança de seis anos hoje.

Em resumo, é como pegar um símbolo que só faz sentido para uma geração, e remodelá-lo para só ser apreciado por outra, sem nenhum aspecto desse símbolo servindo para fazer a conexão entre as duas gerações. E se é uma coisa tão zoada, porque vão fazer?

Pois é jogar seguro. Pois os executivos entendem que criar um desenho novo é arriscar perder popularidade, enquanto rebootar um desenho velho é garantir exposição, pois todo mundo vai comparar, e falar a respeito, e as crianças vão ver e mesmo se for ruim, a chance de ser lucrativo é maior. E essas decisões são tomadas por gente que só sabe ler números e não veem a diferença entre um bom desenho lucrando e um desenho massacrado pela crítica lucrando. Pessoas que não se importam com o respeito que a obra recebe, só com os lucros, pois o lucro é o único prestígio que essa indústria pode produzir.

TransformersNumbers
Vivemos em uma época que mostrou que você pode ser universalmente entendido como “merda”, e ser um dos filmes mais assistidos do ano. O que expõe o quanto o dinheiro e a qualidade não andam lado a lado, e tira dos executivos o interesse de andar do lado da qualidade. Pode parecer “mas sempre foi assim”, mas não, porra, os blockbusters de 30 anos atrás tinham um puta prestígio e ganhavam prêmios. Star Wars e Jaws foram indicados ao Oscar de melhor filme.

E essas pessoas interpretando números são perigosas. O cancelamento do Thundercats de 2011, não foi lido como um sinal do quanto Thundercats não realmente se estendeu culturamente pra fora de seu público original, foi lido como um sinal de que desenhos de ação não tem espaço na televisão, pois está difícil de vender brinquedo. Isso coincidiu com os cancelamentos de Symbiotic Titan, Young Justice, e Green Lantern the Animated Series. E gerou hoje um mercado que não quer mais arriscar em ação, só em comédia. E por isso, todas as franquias de ação que ganharam uma nova abordagem nos últimos anos, ganharam em um formato cômico. Agora, como devo lembrá-los, acreditar que existe o “público da ação”, e o “público da comédia” e que o trabalho do produtor é sentir em qual dos dois deve-se investir, é o erro que o Fred Seibert cometeu lá no começo, quando a Hanna-Barbera ainda existia, lançando Swat KatsTwo Stupid Dogs, lembram? A história não se repete, mas ela rima.

CartoonHoje.png

Nesse mar de pessoas que acreditam que a originalidade não tem espaço no “jogo seguro”, e que dar espaço para a criatividade é um risco que não deve ser corrido, que Fred Seibert se destaca, justamente por ser um empresário, e não um artista, que prega o contrário. Ele não só acha que na verdade, dar espaço para mentes criativas fazerem o seu melhor é a estratégia mais segura, ele provou isso construindo uma carreira de sucesso em torno desse conceito. E agora esse conceito está fraquejando, pois o reboot está voltando com força total. Os anos 2000 não foram tão repletos de reboot como os 2010s estão sendo, e isso é só o começo, não posso nem imaginar o que nos aguarda na década seguinte em relação a reboots.

E olha, eu não acho que reboot é o oposto de qualidade. Longe disso. Eu acho que o reboot de 2010 de Scooby Doo, o Scooby Doo Mystery Inc. foi a melhor adaptação do personagem até agora. My Little Pony, Friendship is Magic, foi o melhor reboot da franquia igualmente. E o reboot de Ducktales é maravilhoso. O que eu acho é que existem reboots feitos com pessoas que realmente querem dizer algo por trás, e reboots que só querem reproduzir algo que já fez sucesso no passado pra ganhar dinheiro. A diferença entre os dois está nos artistas que você coloca pra conduzir. Esses três desenhos que eu citei foram feitos com uma interpretação em mente desse universo, com artistas por trás querendo passar ideias. 

MysteryInc.png
Aproveito pra recomendar essa série. Excelente demais.

O que me leva ao ponto, por que eu estou apostando o futuro da animação em Fred Seibert? Vejam bem, a Nickelodeon morreu! Digo, ela está viva, mas morreu, ela é o exemplo máximo de como os executivos que não entendem de animação e não ligam para o artista deram tanto tiro no próprio pé que não tem mais aonde ficar de pé. Eles tinham um estúdio gigante e criticamente aclamado, que era a Klasky-Csupo, produzindo seus desenhos de maior sucesso, e nos anos 2000 encerraram a parceria com esse estúdio alegando que “enjoamos do estilo”. Depois eles conseguiram sucesso com Avatar – The Last Airbender e Legend of Korra, e conseguiram arruinar sua relação com os criadores e sabotarem o próprio desenho para vencer a briga, a ponto de que sabemos que nunca vai existir terceira série de Avatar, porque esse pessoal nunca mais vai trabalhar com a Nickelodeon de novo. Até o Butch Hartman saiu na Nickelodeon para focar em desenhos ambiciosos e artísticos que ele sabe que não tem espaço no estúdio. O canal como casa de bons desenhos animados está praticamente morto.

ElfDetective
Próximo trabalho de Butch Hartman que claramente não teria espaço na Nickelodeon. O desenho vai ser lançado primariamente no aplicativo de celular exclusivo de Hartman “The Noog Network.”

O que sobra é a Disney e o Cartoon que estão bem, mas por quanto tempo? O Cartoon perdeu nos dois últimos anos 3 desenhos de sucesso (Adventure Time, Regular Show e Amazing World of Gumball), sem colocar nada no lugar. O maior sucesso do canal que é Steven Universe, está em hiatus constantes, e a grade do canal nos EUA é dada primariamente pra Teen Titans Go, que é um desenho que se roteiriza metade dos episódios fazendo os personagens esfregarem na nossa cara que eles são amados por executivos, e tem imunidade não importa o que o público diga e o quão odiado o desenho deja. O próximo sucesso do Cartoon estreará ano que vem em Infinity Train, desenho mais popular de uma incubadora que o Cartoon Network promoveu no próprio canal do youtube em 2016. Com o piloto disponível aqui.

InfinityTrain

Mas esse é o ponto, o Cartoon Network não consegue tirar programação original segura fora de incubadoras do youtube. We Bare BearsClarence tem seus méritos, mas vamos ser sinceros, nenhum deles realmente fez um sucesso que se compare ao resto da grade. E continuar usando incubadoras não é um problema, pelo contrário, é ótimo. Mas o formato das incubadoras, é um incentivo para que os curtas usem a internet como plataforma principal e não a televisão.

E o que eu sinto é isso, para os desenhos do Cartoon Network poderem continuar sendo creator-driven, o canal vai precisar colocar um foco grande na internet, ou ceder cada vez mais espaço para Thundercats RoarTeen Titans Go. O Reboot está voltando com força total, os anos 80 estão voltando com força total. Linhas de brinquedo lançando o próprio desenho estão com a maior força que já tiveram em 30 anos, e a solução para tudo isso está na internet. Está no youtube.

DCSuperHeroGirls
O mero fato desse desenho ter espaço para existir indica tempos perigosos e o alto risco dos anos 80 voltarem.

Os sucessos dos anos 2010 estão acabando e as promessas do futuro estão saindo de canais de youtube. Estou bem hypeado para Infinity Train, mas Cartoon Network está chegando agora em um território que o Fred Seibert já domina e já se estabeleceu. Acho que o futuro da animação autoral está na internet, que é onde as incubadoras estão dominando o mercado fortemente. O Netflix está se tornando uma fonte magnífica de desenhos animados, e o Castlevania de 2017 que é original do Netflix está sendo produzido pela Frederator. Young Justice, cancelado por não agradar os executivos apesar de ser um sucesso de crítica imenso, vai voltar como programação de internet, em um serviço de Streaming exclusivo da DC. E a possibilidade de financiamento coletivo em kickstarters da vida, abre uma quantidade imensa de portas para novos projetos saírem do papel. A internet está em ascensão mais do que nunca como produtora de conteúdo animado. E a televisão está naquele declínio que só pode ser descrito com os termos “vamos rebootar tudo o que pudermos.”. E no mar da internet atual não existe gigante da animação maior que a Frederator StudiosSe os anos 80 voltarem de verdade, são eles quem tem o poder de salvar a autoralidade na animação.

GoCartoons
Go! Cartoons a mais recente incubadora de Fred Seibert que passou seu ultimo curta em abril desse ano.

Mas é isso. O importante é ver como existe um mito que justifica um número imenso de desenhos ruins e preguiçosos com a falácia de “mas é isso que dá dinheiro.” o que não é mentira, mas mascara o fato de que o alto investimento no poder criativo do artista também é outra fábrica de dinheiro. Não é o oposto da fórmula do sucesso, e sim uma outra fórmula que vinga tanto quanto, mas que não mede seu próprio sucesso com base em venda de bonequinho. E nessas horas é a hora de lembrar do executivo que transformou liberdade criativa e foco em produção artística em dinheiro.

De resto, desejo toda a sorte do mundo a Thundercats Roar!, que acertem no plot e na comédia e na caracterização dos personagens, e mostrem para os nostálgicos dos anos 80 que a nostalgia dos anos 80 tem que acabar, pois a maior leva de bons desenhos que a televisão já teve, surgiu com o objetivo de acabar com os anos 80. Sério, tem que acabar, foi uma década maldita, a nostalgia que me desculpe. 

14 thoughts on “Frederator Studios: Como abrir espaço pra criatividade no mercado de animação?

  1. Boa noite, eu me chamo Matteus Silva Bonifácio e já faz um tempinho que eu ando acompanhando seu blog (Não me recordo por que fonte eu te encontrei, mas já vai fazer 2 semanas…) Enfim, eu concordo em genero, número e grau com o que foi falado no artigo, gosto da forma como você escreve, tem uma visão bem ”aberta” e explora muito de um tema para falar sobre um assunto em especifico (Eu nunca tinha visto a ”Bela e a Fera” sob a sua perspectiva). Pois bem, eu tenho um blog (Blog do MatteusBoni caso queira dar uma olhada depois). Eu pretendo lançar um artigo sobre a história do Cartoon Network, e gostaria de saber se poderia utilizar seu artigo como ”referencia” para falar sobre meu tema (Não se preocupe, não sou caloteiro e sempre deixo linkado o nome/endereço de terceiros)… Estarei ansioso pelos seus próximos artigos. Grato.

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  2. Outro blog estupendo.

    A frederator só tem a crescer mesmo acho incrível o trabalho deles no YouTube.
    Vejo que a netflix tem criado animações cada vez melhores . Uma nova temporada de voltrom chegou a qual eu já assisti inteira acho que é a melhor animação sendo produzida atualmente

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  3. Bom dia, boa tarde, boa noite(sei lá quando, ou se, você vai ler isso), mas sem querer ser chato ou burro (se bem que burro é uma coisa que eu já sou naturalmente então enfim): você sabe dos inúmeros problemas que o YouTube passar atualmente né? Grande parte deles vindo dos próprios “donos”(os caras que tomam decisões lá), que fizeram umas coisas, bem, umas coisas só um pouquinho, um “pouquinho”, problemáticas para qualquer pessoa que publique seu conteúdo lá. Você não acha que talvez a melhor opção seja buscar um meio alternativo, quero dizer, na internet nada é imortal ou imbatível, e o próprio Facebook, mesmo com toda a sua soberania, já demonstra sinais de fraqueza e um possível fim ainda que distante. Vou exemplificar para facilitar: Quando criaram ICarly, eles pensaram na ideia de as meninas terem um canal no YouTube, mas mudaram de ideia quando perceberam que seria mais interessante que elas tivessem um site próprio, pois isso traria maior gama de possibilidades e liberdade de os produtores e roteiristas jogarem com as próprias regras ao invés das do YouTube. Enfim, espero ter deixado claro meu ponto, e espero, sinceramente, espero pelo amor dos deuses, de Buda, de Oxum, De Jeová, de Goku, de Madoka, de ( insira um nome aleatório de um deus aqui, que agora eu não to lembrando), POR FAVOR, me responde pra eu saber o que você acha.
    Ps.: Amo seu blog(e quem não ama deve ser eliminado dessa vida).
    Pss.: Você é lindo.
    Psss.: Se você parar de escrever pro blog eu te caço até o inferno pra te mata, ouviu.
    Pssss.: Desculpa os pss, não consegui resistir.

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    1. Eu concordo. O Youtube é instavel e não remunera bem. Eu acho que ele é atualmente a melhor arma de divulgação. E que por exemplo, Infinity Train não teria tido o alcance que teria tido num site exclusivo da Cartoon em que o curta metragem só seria visto por quem já estivesse procurando ele.

      Então nesse quesito, com o objetivo de se fazer ser visto por muita gente que não te conhece é um objetivo grande, eu acho que o Youtube é um centro de poder por ser famoso. Mas assim que esse objetivo se perde, sites e portais exclusivos são quem concentram o real poder do audiovisual na internet. Netflix que o diga, mas fora do Netflix, a DC está lançando seu próprio serviço de Streaming pra voltar a série Young Justice, usando o hype de Young Justice para chamar o pessoal pro site, e o pessoal indo pro site é divulgação pra todas as outras séries.

      No fundo é tudo sobre divulgação. Mas acho que o Youtube está com os dias contados sim, só que sou otimista, acho que quando ele cair, outro local acessível para vídeos vai surgir.

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  4. Mas até a própria Frederator já tem parceria com o VRV, um servico de streaming que ainda nao é disponível no Brasil =(
    Acho que no futuro eles vão usar o YouTube só como divulgação.

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    1. Correndo atrás eles estão, mas já é tarde demais. A Nickelodeon faz assim, eles vêem um sucesso, não param para ver a tendência e como incentivar novos sucessos e só em extrair o máximo de leite até a vaca murchar. Eles já anunciaram um spin-off de Loud House para aproveitar o sucesso e já demitiram o criador da série Chris Savino, por denuncias de assédio sexual. Por mais que eu esteja do lado da Nickelodeon de afastar o cara do estúdio com as denuncias, o fato é que eles tiraram o responsável por dar a cara da série e liberaram um spin-off… eles vão desgastar Loud House brutalmente que nem fizeram com Spongebob e Fairly Oddparents. A série é boa, mas estou supondo (e espero estar errado) que é questão de uns anos até estar intragável, repetitiva, e se recusando a morrer devido a administração da Nickelodeon.

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  5. Oi, desculpa a pergunta meio estúpida, mas eu queria saber o que a Nickelodeon fez com os criadores de avatar e com o desenho. Não consegui achar nenhum artigo falando claramente sobre.

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    1. Cortaram o orçamento da série sem aviso prévio, obrigando a série a fazer um episódio de lembranças só pra poder fechar o número de episódios do contrato sem demitir funcionários. Depois eles retiraram a série da grade de programação, lançando os episódios finais só no site da Nickelodeon, para ninguém poder ver a série na televisão.

      Os criadores em resposta vazaram todos os episódios da série antes da hora, e incentivaram a pirataria.

      Ninguém admitiu ainda o motivo pelo qual fizeram isso, ou como a richa e a sabotagem da Nick começou. A teoria mais aceita é que a Nickelodeon não aceitou que o final fosse ter um casal LGBT e quis tirar visibilidade da série para não se associar ao evento.

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  6. Excelente artigo, cara. Esse apanhado da história do Cartoon Network + um pouco de Hanna-Barbera e Nickelodeon foi uma verdadeira aula sobre o período. Não fazia a menor ideia que Capitão Planeta era da HB, por exemplo. E pra mim serviu pra contextualizar, já que eu não tinha acesso à TV a cabo nessa época, só assistia o que chegava nos canais abertos (como Meninas Super Poderosas).

    Seu comentário sobre ThunderCats Roar explicou bem o meu sentimento contraditório sobre ele. Por um lado eu também acho que não mereceu todo o ódio todo, que num primeiro momento coloquei na conta dos saudosistas que não suportam que mexam com seus brinquedos (e minha resposta é “não foi feito pra vcs, seus chatos, fiquei quietos”). Por outro, vi muita gente sensata torcendo o nariz e apontando oportunismo, aí resolvi ler mais a respeito e pensar um pouco. Não entendi incômodo com o reboot de uma série antiga que nem estava na mídia, não era como se fossem estragar algo já estabelecido… e nesse ponto que seu texto me ajudou, ao apontar que não faz sentido porque não conversa com público nenhum (nem com os velhos fãs e nem com os novos, que não conhecem o original). E aí cheira a apelação mesmo.

    No aguardo do próximo texto 😉

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